Por que a Ásia foi tão atingida pela crise energética

Fila de TukTuk para abastecer em Colombo, no Sri Lanka

Fila de TukTuk para abastecer em Colombo, no Sri Lanka

A segunda rodada de negociações entre os Estados Unidos e o Irã está prevista para ocorrer em Islamabad, capital do Paquistão, na terça-feira (21), um dia antes de expirar o prazo do atual cessar-fogo. O governo iraniano não confirmou presença nas conversas. 

O conflito, iniciado após ataques de EUA e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, expôs a fragilidade das cadeias globais de combustíveis fósseis, com impacto em todo o mundo. Os efeitos têm sido mais fortes, no entanto, em países da Ásia. 

Neste texto, o Nexo fala sobre o cessar-fogo e explica por que a crise energética causada pela guerra no Irã tem impactado mais os países asiáticos. 

Um cessar-fogo frágil

O acordo de cessar-fogo de duas semanas entre EUA e Irã expira na quarta-feira (22). 

Anunciada em 7 de abril, a trégua ocorreu em troca da abertura do Estreito de Ormuz, corredor marítimo essencial para o transporte global de produtos energéticos e agrícolas, localizado entre Omã e o Irã. A passagem tem 33 km de largura no ponto mais estreito, com uma faixa de navegação de 3 km. 

Gráfico mostra a localização do Estreito de Hormuz

Após os ataques de EUA e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, a Guarda Revolucionária do país bloqueou quase totalmente a via, ameaçando instalar minas marítimas e bombardear navios que passassem pelo local. Em resposta, empresas suspenderam o tráfego na região. Outras companhias optaram por fazer rotas mais longas para evitar a área.

20%

do consumo mundial de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz, segundo a EIA, a Agência de Informação Energética dos EUA

20%

da produção de GNL (gás natural liquefeito) consumido no mundo também passa pela via

Apesar do anúncio recente de trégua, a situação do estreito permanece instável, com anúncios reiterados de abertura e fechamento tanto pelos EUA quanto pelo Irã. 

No sábado (18), por exemplo, um comboio com oito navios tentou trafegar pelo local após as partes dizerem que o corredor estava aberto. Duas embarcações, porém, relataram terem sido alvos de ataques. 

Já no domingo (19), os EUA interceptaram um navio cargueiro de bandeira iraniana que havia tentado burlar o bloqueio americano aos portos do Irã. Após a interceptação, o Irã acusou os EUA de violar o cessar-fogo entre os dois países. 

A situação é incerta. A primeira rodada de negociações, realizada em 11 de abril, terminou sem avanços. Uma proposta de 10 pontos do Irã tem servido como base para a continuidade das conversas em Islamabad. 

O preço do petróleo

O preço do petróleo era US$ 72,48 em 27 de fevereiro, um dia antes do ataque israelo-americano ao Irã. A commodity fechou em US$ 118,35 em 31 de março. Hoje, o barril está cotado em US$ 94,77, 30% acima do valor negociado antes da guerra. 

Impacto do conflito

A alta dos preços se deve principalmente ao fechamento do Estreito de Ormuz, que reduziu a oferta de óleo e seus derivados. 

Além disso, como resposta aos ataques de 28 de fevereiro, o Irã bombardeou países do Golfo Pérsico aliados dos EUA, atingindo infraestruturas energéticas no Qatar e na Arábia Saudita. 

Os preços do petróleo registraram seu maior aumento mensal da história em março, em decorrência do choque de oferta, considerado o mais severo da história. As informações são de um relatório da IEA (Agência Internacional de Energia) publicado em abril. 

A crise energética da Ásia

A guerra no Oriente Médio provocou impacto em todo o mundo, mas o efeito tem sido mais drástico na Ásia, região que consome a maior parte do petróleo e do GNL (gás natural liquefeito) que passa pelo Estreito de Ormuz. 

84%

do petróleo cru transportado pelo Estreito de Ormuz segue para o mercado asiático, sobretudo para China, Índia, Japão e Coreia do Sul

83%

do GNL que passa pelo corredor vai para a mesma região

As indústrias asiáticas têm sofrido os efeitos do conflito tanto por conta de sua dependência de importações de energia do Oriente Médio quanto pela integração da economia da região Ásia-Pacífico. As cadeias de suprimentos locais cruzam fronteiras de maneiras que dependem fortemente de combustíveis fósseis. 

Os fabricantes de preservativos na Índia, por exemplo, estão enfrentando graves interrupções na cadeia de suprimentos e um aumento acentuado no custo das matérias-primas desde o início da guerra. O aumento nos preços do produto pode afetar o planejamento familiar e o controle de natalidade no país mais populoso do mundo. 

1,47 bilhão

é a estimativa atual da população da Índia

A Índia também lida com a escassez de GLP (gás liquefeito de petróleo), o gás de cozinha. A situação tem impactado a população e forçado restaurantes a reduzir cardápios, diminuir o horário de funcionamento e, em alguns casos, fechar as portas. 

Além da Índia, polos de confecção de Bangladesh estão interrompendo a produção por falta de poliéster e náilon, ambos derivados do petróleo. Já no Paquistão, mercados e shoppings estão fechando mais cedo. 

Nas Filipinas — onde a alta dos preços do petróleo tem elevado os custos de colheita, mão de obra e transporte —, agricultores estão deixando vegetais apodrecer, em vez de vendê-los com prejuízo. No Vietnã, a falta de fertilizantes ameaça as plantações de arroz. 

Na Indonésia, a maior produtora mundial de níquel, processadoras diminuíram a produção em pelo menos 10%. A fabricação do metal depende de gás natural e enxofre, produto derivado dos combustíveis fósseis.

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Em Taiwan, a redução na produção do hélio, gás derivado do GNL, pode impactar a fabricação de semicondutores se a guerra perdurar. No Qatar, que normalmente gera quase um terço do suprimento mundial, empresas interromperam a produção. Os preços dispararam, e algumas fabricantes de chips asiáticas estão reduzindo as atividades e reconsiderando suas fontes de suprimento. 

Embora seja uma grande importadora de energia de países do Golfo, a China tem amplas reservas energéticas, o que a deixa mais segura contra os efeitos da guerra. O cenário, no entanto, pode mudar se o conflito demorar para terminar. 

Efeitos em cascata

Um relatório da ONU divulgado em 14 de abril estimou que 8,8 milhões de pessoas na Ásia e no Pacífico correm o risco de cair na pobreza por causa da guerra, dependendo de sua duração. 

Os principais problemas identificados na região são o aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos e a redução do emprego. A situação é agravada pelos altos índices de informalidade. Grande parte da população não conta com rede de proteção social. 

“A pressão que essa guerra exerce sobre a região Ásia-Pacífico já é visível. Ela está atingindo as famílias mais rapidamente do que as políticas conseguem se ajustar”, afirmou em nota Kanni Wignaraja, subsecretária-geral da ONU e diretora regional do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) para a Ásia e o Pacífico, no dia 14 de abril. 

Apesar do recente cessar-fogo, a volatilidade prolongada nos mercados globais impõe escolhas cada vez mais difíceis entre estabilizar os preços, apoiar famílias vulneráveis e manter serviços públicos essenciais, segundo Wignaraja. 

Em entrevista ao think tank americano Atlantic Council, Fatih Birol, diretor-executivo da IEA, afirmou em 13 de abril que o mundo pode levar até dois anos para restaurar a produção energética aos níveis anteriores à guerra.

Os impactos no Brasil

O impactos da guerra não ocorrem apenas na Ásia. Embora o Brasil não importe petróleo pelo Estreito de Ormuz, o preço da commodity é formado nos mercados globais. Isso significa que, quando o valor do barril sobe, os efeitos chegam aos postos de combustíveis, ao custo do frete e, consequentemente, à inflação brasileira. 

O Brasil é autossuficiente em petróleo, mas não em refino, o que gera a necessidade de importar parte do que consome. Por conta disso, o governo brasileiro anunciou uma série de medidas para conter o impacto da guerra no Irã sobre o preço dos combustíveis em ano eleitoral. 

O aumento dos preços dos combustíveis nos postos já tem pressionado a inflação. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) subiu 0,88% em março, com alta acumulada de 4,14% em 12 meses, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no dia 10 de abril. 

4,5%

é o teto da meta da inflação brasileira; alta acumulada em 12 meses em março se aproxima do valor

A instabilidade do cenário internacional fez o Banco Central promover em março um corte de 0,25% na Selic, a taxa básica de juros. O valor foi menor do que o esperado pelo mercado financeiro. 

A taxa está em 14,75% ao ano, patamar considerado elevado. Os juros mais altos encarecem o crédito e desestimulam investimentos e consumo. Isso tende a esfriar a economia e tirar a pressão dos preços.