
Jaafar Jackson como Michael Jackson na cinebiografia ‘Michael’ (2026)
A cinebiografia “Michael” estreia nos cinemas nesta quinta-feira (23). Críticos que já assistiram ao filme do diretor Antoine Fuqua (“Dia de treinamento”) o desaprovaram por não se aprofundar em temas controversos da vida e carreira de Michael Jackson. A trama se encerra no fim da década de 1980, antes das acusações de pedofilia contra o Rei do Pop.
O filme teve a participação da família do cantor. Jafar Jackson, sobrinho de Michael, foi escalado para interpretar o papel principal. Um acordo legal de 1994, anterior à idealização do filme, também fez com que partes controversas da história do artista fossem reescritas.
Neste texto, o Nexo mostra como “Michael” retrata a trajetória de Michael Jackson e explica como as acusações de pedofilia impactaram a produção.
“Michael” coloca Joe Jackson como o principal antagonista da vida do artista desde a era do grupo Jackson 5, na década de 1960. Interpretado por Colman Domingo (“Euphoria”), o pai e empresário usava violência física e moral contra o futuro Rei do Pop e seus irmãos para coagi-los a se apresentar e fazer sucesso.
O Jackson 5 foi formado em 1964 por cinco dos 10 filhos de Joe e Katherine Jackson: Jackie, Tito, Jermaine, Marlon e Michael. O talento precoce do futuro Rei do Pop o colocou como vocalista principal do grupo antes dos 10 anos. Em 1968, eles assinaram com a gravadora Motown, lançando hits como “I Want You Back” (1969) e “ABC” (1970).
Relatos dos filhos afirmavam que Joe era rigoroso, com uma rotina de ensaios diária e exaustiva. O patriarca também era violento nos ataques físicos e falas sobre a aparência das crianças. As sucessivas cirurgias plásticas de Michael teriam vindo após comentários do pai sobre o tamanho de seu nariz.
Em entrevista à apresentadora Oprah Winfrey em 2010, Joe afirmou nunca ter agredido seus filhos durante a infância, embora tenha admitido atingi-los com cinta para educá-los.
Assim como a maior parte dos artistas da família, Michael se desvencilhou do pai como empresário quando ficou adulto. A demissão ocorreu em 1983, um ano após o lançamento do álbum “Thriller”, o mais vendido da história.
Com o tempo, houve tentativas de reaproximação entre pai e filho. Joe esteve no tribunal ao lado de Michael durante um julgamento de acusações de abuso sexual infantil contra o artista em 2005. Quatro anos antes, em discurso na Universidade de Oxford, na Inglaterra, o Rei do Pop afirmou que entendia os motivos que haviam levado seu pai a agir com truculência.
“Até mesmo a dureza do meu pai era uma forma de amor, um amor imperfeito, sem dúvida, mas amor mesmo assim. Ele me pressionou porque me amava, porque não queria que nenhum homem jamais desprezasse seus filhos, e agora, com o tempo, em vez de amargura, sinto uma bênção”
Michael Jackson
artista, em discurso na Universidade de Oxford em 2001
Mesmo com a aproximação, Michael revelou que tinha medo de seu pai. “Já vomitei na presença dele porque, quando ele entra na sala, essa aura me envolve e meu estômago começa a doer, e sei que estou em apuros”, afirmou ao rabino Shmuley Boteach no início dos anos 2000. O autor publicou o trecho em “The Michael Jackson Tapes: A Tragic Icon Reveals His Soul in Intimate Conversation” (“As gravações de Michael Jackson: Um ícone trágico revela sua alma em conversas íntimas”, em tradução livre) em 2009, ano da morte do Rei do Pop.
Em seu testamento, Michael deixou sua herança apenas para os três filhos (Prince, Paris e Bigi) e para sua mãe, que se tornou a guardiã legal das crianças. Joe entrou com um processo para invalidar o documento, mas não teve sucesso. O pai do artista morreu em 2018, aos 89 anos, devido a um câncer de pâncreas.
Alguns dos integrantes da família Jackson não foram retratados em “Michael”, assim como não estão nos eventos de estreia do filme. A ausência que mais chamou a atenção foi a de Janet Jackson, que tem a carreira solo mais consolidada entre os irmãos do Rei do Pop. Randy e Rebbie também não foram ao tapete vermelho.
“Eu gostaria que todos estivessem no filme. Ela [Janet] foi convidada e gentilmente recusou, então temos que respeitar a vontade dela”
LaToya Jackson
artista, em entrevista à revista Variety na terça-feira (21)
Janet também não está entre os personagens da cinebiografia. Numa exibição privada do filme para a família, ela teria sido bastante crítica ao resultado final de “Michael”.
Os irmãos de Michael estão em lados opostos na disputa pelo espólio do Rei do Pop. Sua exclusão do testamento do artista gerou acusações contra os advogados John Branca e John McClain. A ação foi movida por Jermaine, Rebbie, Randy, Tito e Janet. Já LaToya, Marlon e Jackie Jackson não questionaram o documento, embora sigam explorando a imagem do irmão.
Paris Jackson foi outra familiar que criticou a cinebiografia. Em setembro, a filha de Michael desmentiu rumores de que ela estava envolvida na produção: “Li um dos primeiros rascunhos do roteiro e dei minhas observações sobre o que era desonesto/não me parecia certo, e, como não abordaram o assunto, segui em frente com a minha vida”, afirmou no Instagram.
O advogado John Branca é um dos produtores da cinebiografia e é importante para a trama de “Michael”. Ele teria sido responsável por escalar Miles Teller (“Whiplash: Em busca da perfeição”) para interpretá-lo. Paris criticou a escolha de um ator tão famoso para um papel menor, considerando os gastos e o quanto isso retornaria de arrecadação de bilheteria.
“Uma grande parte do filme agrada a uma parcela muito específica dos fãs do meu pai que ainda vivem nesse universo de fantasia, e eles ficarão felizes com isso”
Paris Jackson
artista, em publicação no Instagram em setembro
“Michael” não aborda o nascimento dos filhos do Rei do Pop e o casamento com Debbie Rowe. A trama se encerra no fim da década de 1980, enquanto a relação entre o Rei do Pop e a assistente de dermatologia – mãe de Prince e Paris – começou em 1996.
Para o crítico de cinema Walter Dalenogare, “Michael” é uma das cinebiografias “mais rasas” que já viu, comparando-a com “Bohemian Rhapsody” (2018), sobre a trajetória de Freddie Mercury à frente do Queen.
“Não existe, por exemplo, nenhum tipo de problematização à figura de Michael Jackson. Temos apenas essa grande celebração”, afirmou em vídeo publicado em seu canal no YouTube na terça-feira (21). Segundo o crítico, o Rei do Pop é comparado a uma entidade divina, isento de qualquer tipo de falha.
37%
é a porcentagem de avaliações positivas de “Michael” no Rotten Tomatoes, site agregador de críticas de cinema e TV
Segundo David Rooney, crítico da revista Hollywood Reporter, Jaafar Jackson consegue retratar a performance do tio nos palcos. Apesar disso, o roteiro falha em mostrar pouco Quincy Jones, um dos grandes parceiros musicais do artista entre as décadas de 1970 e 1980.
“O ator principal realiza uma recriação impressionante das habilidades de dança de Michael – não apenas movimentos característicos como o Moonwalk, o Robot, o Spin ou o Toe Stand, mas a combinação única de fluidez e precisão angular que o ajudaram a se tornar um dos maiores artistas de palco de todos os tempos”
David Rooney,
repórter da Hollywood Reporter, em artigo publicado na terça-feira (21)
Peter Bradshaw, do jornal britânico The Guardian, afirmou que o longa parece uma grande montagem de trailers com os principais clichês de produções musicais: “O espanto dos produtores no estúdio de gravação, o ônibus da turnê, a ascensão nas paradas da Billboard, o encontro com os executivos corporativos sem graça em seus escritórios”.
Fazendo trocadilhos com o refrão de “Bad” (1987) – que pode ser traduzido como “mau” ou “ruim” –, Nicolas Barber, da rede britânica BBC, afirmou que a cinebiografia é “açucarada” e com pouca carga dramática. “Claramente, o filme foi concebido como uma homenagem a ele [Michael] como pessoa, mas é um insulto grave a ele como artista”, disse o repórter.
Apesar das críticas negativas, o estúdio Lionsgate espera arrecadar mais de US$ 65 milhões no fim de semana de abertura de “Michael” na América do Norte. Isso colocaria o filme como a maior bilheteria de estreia entre cinebiografias.
A estreia de “Michael” foi adiada duas vezes. Originalmente prevista para abril de 2025, ela passou para outubro por atrasos ocasionados pela greve dos roteiristas de Hollywood em 2023. Mas uma terceira data surgiu após a necessidade de refilmagem do terço final do longa em junho de 2025.
As primeiras versões do roteiro avançavam até 1993, quando Michael Jackson foi acusado de abuso sexual pela primeira vez. Os pais de Jordan Chandler, de 13 anos à época, acusaram o cantor de lesão corporal de caráter sexual, incluindo sexo oral e masturbação durante visitas do adolescente ao rancho Neverland, nome da supermansão onde o artista morava, em Los Olivos, na Califórnia.
O caso foi resolvido com um acordo extrajudicial entre os pais do menino e Michael, que desembolsou cerca de US$ 23 milhões de indenização. No documento, selado em 1994, havia uma cláusula que proibia a representação ou menção ao nome de Chandler em qualquer nova filmagem sobre o Rei do Pop.
Os advogados do espólio do artista relembraram a restrição após as gravações de “Michael”. De acordo com a Variety, a mudança no roteiro resultou num aumento entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões no orçamento do longa, originalmente de US$ 155 milhões.
Em 2003, houve uma nova acusação de abuso contra Michael, que teria molestado um menino de 13 anos, Gavin Arvizo, sobrevivente de um câncer. A pena para o artista poderia chegar a 20 anos de prisão nesse caso. Depois de um processo de 14 meses, o astro foi absolvido em 2005.
Em 2019, o documentário “Deixando Neverland”, do diretor britânico Dan Reed, divulgou novas acusações de abuso sexual infantil contra o cantor. A trama acompanha James Safechuck e Wade Robson, que dizem ter sido vítimas do artista na década de 1980. Fãs e representantes de Michael acusaram a produção de sensacionalismo.