Quanto risco corre o BRB diante do rombo deixado pelo Master

Fachada do Banco de Brasília

Fachada do Banco de Brasília

Os acionistas do BRB (Banco de Brasília) aprovaram na quarta-feira (22), em assembleia geral extraordinária, o aumento do capital social da instituição para cobrir o rombo deixado pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro.

R$ 8,8 bilhões

é o valor do capital social aprovado em assembleia na quarta-feira (22)

A proposta autoriza a instituição a aumentar o capital para receber uma injeção de recursos, o que depende, sobretudo, do acionista controlador — o governo do Distrito Federal. O presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, afirmou, após a aprovação, que “o pior já passou”.

Neste texto, o Nexo fala sobre a fraude, explica o que precisa ser feito para a instituição cobrir o rombo e analisa os próximos passos.

A fraude do Master

Inicialmente, as investigações da operação Compliance Zero – deflagrada em novembro de 2025 para apurar a fraude do Master – apontaram que o BRB comprou R$ 12,2 bilhões em créditos falsos do banco de Vorcaro. Contudo, a real dimensão do rombo deixado pelas operações ainda é incerta.

Uma auditoria do BRB foi conduzida pelo escritório Machado Meyer Advogados, com suporte técnico da consultoria de risco Kroll. A investigação interna foi concluída no início de abril e o relatório final foi enviado para a Polícia Federal e para o Banco Central, mas ainda não foi divulgado.

O BRB comprou R$ 21,9 bilhões em carteiras da instituição de Vorcaro. Não está claro quando desse valor é referente a ativos fraudulentos. O banco havia vendido R$ 1,9 bilhão para investidores externos, restando R$ 20 bilhões.

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O BRB deveria ter divulgado o seu balanço consolidado de 2025 até 31 de março, como determina a legislação brasileira para companhias de capital aberto, mas não o fez. A instituição paga multa diária de cerca de R$ 50 mil pelo atraso.

O presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, disse em março ao site G1 que, sem a conclusão de uma auditoria, a divulgação do balanço poderia difundir números errados, além de faltarem informações sobre os responsáveis pelo rombo. Ele acrescentou que isso foi explicado ao Banco Central.

Souza assumiu a chefia do banco em novembro de 2025, após a operação da Polícia Federal para apurar crimes do Master resultar no afastamento do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, que havia conduzido a tentativa de compra de parte do banco privado. Costa está preso desde 16 de abril, suspeito de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

As movimentações do BRB

Na segunda-feira (20), o BRB anunciou a venda de R$ 20 bilhões em ativos ligados ao Master à gestora de fundos de investimento Quadra Capital, pelo valor de R$ 15 bilhões. O Banco Central não precisa dar o aval para essa negociação, embora a acompanhe atentamente.

Com a negociação, o banco vai receber cerca de R$ 4 bilhões, e R$ 11 bilhões serão aplicados num Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), fundo de renda fixa que aplica em títulos de crédito a partir de contas a receber de empresas.

No caso dos recursos aplicados no Fidc, o BRB não necessariamente receberá o valor na íntegra, mas em cotas com deságio — a diferença entre o valor nominal de um ativo e o seu preço de negociação com desconto.

O BRB também aprovou na terça-feira (22) a proposta de aumento de capital em até R$ 8,8 milhões, com subscrição mínima de R$ 536 milhões. O objetivo é cobrir a fraude relacionada ao Master.

Atualmente, o capital social do BRB é de R$ 2,3 bilhões. Considerando o valor mínimo, ele subirá para cerca de R$ 2,9 bilhões. No caso do máximo, o capital saltará para R$ 11,2 bilhões.

Essa é uma operação financeira que visa a reforçar o caixa da instituição, seja por injeção de dinheiro ou pela incorporação de ativos. Normalmente, esse instrumento é usado para financiar investimentos, reduzir dívidas ou fortalecer a estrutura financeira.

Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), explicou ao Nexo que a operação foi necessária para sanar os passivos do banco ou, pelo menos, reenquadrar a instituição nos níveis mínimos de capital exigidos pelo índice de Basileia para continuar operando.

O índice de Basileia é um indicador internacional de solidez bancária que mede a proporção entre o capital próprio de um banco e os riscos assumidos por ele, como empréstimos e investimentos. Essa regra também é utilizada pelo Banco Central.

Para aumentar a capitalização, o BRB vai emitir 1,6 bilhão em ações ordinárias no valor de R$ 5,36. A oferta de ações será feita sob subscrição privada. Ou seja, a compra dessas ações só pode ser feita pelos atuais acionistas da instituição, que têm direito de preferência entre 29 de abril e 28 de maio.

Ibaneis olha para frente e junta as mãos na frente do rosto. Ele é um homem branco calvo de óculos

Ibaneis Rocha era o governador do Distrito Federal durante as negociações do BRB com o Banco Master

O BRB é uma sociedade de economia mista, de capital aberto, e seu acionista controlador é o governo do Distrito Federal, com 53,7% das ações totais. A atual governadora é Celina Leão (PP), que assumiu após Ibaneis Rocha (MDB) se desincompatibilizar do cargo em 28 de março para disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal.

Outros acionistas são o Iprev-DF (Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal), com 12,3%, a AneaBRB (Associação dos Funcionários Aposentados e Pensionistas do BRB), com 8,9%, e os 25% restantes são investidores privados.

Schiozer explicou que nenhum dos acionistas é obrigado a fazer aportes, mas, se não houver ajuda ao BRB, haverá consequências, sobretudo para o acionista controlador, que, em caso de insolvência do banco, poderá ser responsabilizado.

Alternativas para o DF

Como acionista controlador, o governo distrital deverá fazer aporte de cerca de R$ 5 bilhões no BRB. O Distrito Federal não tem recursos disponíveis para capitalizar o banco e busca alternativas para resolver isso.

Uma das opções é a contratação de até R$ 6,6 bilhões em operações de crédito com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) ou instituições financeiras. Esse recurso ajudaria a reforçar a estrutura de capital e a cumprir o índice de Basileia.

O governo distrital quer usar imóveis e participações acionárias em empresas públicas como garantia.

Schiozer disse que a injeção de capital pode ser feita cedendo imóveis ao banco, “o que resolve o problema de solvência e do índice de Basileia, mas não o de liquidez”. Ou, acrescentou ele, captando empréstimos com o uso de imóveis como garantia, “o que resolveria tanto a questão da solvência quanto a da liquidez”.

Grosso modo, solvência é a capacidade do banco de cumprir as suas obrigações financeiras de longo prazo, enquanto liquidez é a facilidade que existe em transformar seus ativos em dinheiro — e, subsequentemente, a capacidade de cumprir as suas obrigações financeiras imediatas.

César Bergo, professor de mercado financeiro da UnB (Universidade de Brasília) e ex-presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal, ponderou ao Nexo que alguns desses imóveis enfrentam problemas judiciais com questionamentos ambientais e sobre valor, o que pode ser um empecilho para as negociações.

Na quinta-feira (23), um dia depois da assembleia dos acionistas do BRB, a Justiça do Distrito Federal suspendeu trechos de uma lei aprovada pela Câmara Legislativa que prevê o uso de imóveis para socorrer o caixa do banco. Ainda cabe recurso.

Outra alternativa estudada pelo governo é a estruturação de um fundo de investimentos para securitizar a dívida ativa do Distrito Federal, estimada em cerca de R$ 52 bilhões. 

Em outras palavras, o governo distrital quer um fundo de investimentos para fazer uma espécie de antecipação do dinheiro que tem a receber de impostos, multas ou ganhos na Justiça que não foram pagos no prazo e já estão registrados como vencidos.

O que pode acontecer

Para Bergo, o aumento de capital, a possível injeção de capital do governo com empréstimo do FGC e a negociação com a Quadra Capital vão ajudar o BRB neste momento com a questão patrimonial, mas não vão resolver o problema estrutural. “O BRB vai ter dificuldade de rentabilidade futura, mas vai continuar funcionando”, disse.

Bergo acrescentou que existe o risco de intervenção ou liquidação do BRB por parte do Banco Central, mas isso não é algo tratado neste momento. 

Schiozer disse que o BRB pode sofrer intervenção ou ser liquidado, como qualquer outro banco, “mas é improvável que isso ocorra”. “Muito difícil liquidar um banco solvente”, acrescentou.