O que o conflito no Irã revela sobre a comunicação de guerra

Trecho de vídeo de animação de Donald Trump chorando e comendo taco

Delegações dos Estados Unidos e o Irã viajam ao Paquistão neste sábado (25) para uma possível nova rodada de negociações, após uma semana de tensão e vaivém diplomático entre os adversários do conflito no Oriente Médio. 

A frágil trégua entre os dois países, cuja prorrogação foi anunciada por Donald Trump na terça-feira (21), tem sido violada por ambos os lados. Enquanto as negociações não avançam, eles travam uma intensa guerra de memes nas redes sociais. 

Neste texto, o Nexo fala sobre a comunicação de guerra dos EUA e do Irã e analisa seus efeitos.

A comunicação dos EUA

Trump é um político conhecido por entender o funcionamento do sistema contemporâneo de comunicação. Antes de se tornar presidente dos EUA, por exemplo, ele apresentou “O aprendiz”, reality show lançado em 2004 e exibido na emissora americana NBC. O programa fez parte de sua ascensão como personagem político.

Ao se candidatar pela primeira vez à Casa Branca, em 2016, o republicano lançou uma campanha marcada, entre outras coisas, pela forma de comunicação. Trump passou a operar na lógica da economia da atenção, conceito que trata a atenção humana nas redes sociais como mercadoria. Nessa lógica, o conteúdo provocador, inusitado e inesperado atrai, mobiliza e gera reações. 

Donald Trump em discurso na Carolina do Norte

Donald Trump em discurso na Carolina do Norte

Essa lógica também é vista entre os apoiadores do presidente no Maga (“Make America Great Again” ou “Torne a América Grande Novamente”) — slogan de campanha que se tornou o movimento político trumpista —, que fizeram da campanha eleitoral de 2016 uma guerra de memes contra a adversária do republicano, Hillary Clinton. 

Eleito, Trump continuou a se comunicar de forma pessoal e histriônica pelas redes sociais, incluindo o uso de memes. Foi assim em seu primeiro governo, entre 2017 e 2021, e no segundo, desde janeiro de 2025. Há meses, o escritório de comunicação da Casa Branca vem produzindo videoclipes no estilo TikTok — vídeos curtos, com edição rápida e músicas ou áudios virais — para transmitir mensagens do governo. 

Em 2025, Trump publicou, por exemplo, uma imagem, gerada por inteligência artificial, caminhando com um pinguim segurando a bandeira dos EUA, apesar de o animal ser nativo do Hemisfério Sul. Em outro exemplo, o republicano fez uma publicação do Valentine’s Day (Dia dos Namorados) com uma mensagem irônica sobre a política migratória americana. 

Essa forma de se comunicar se intensificou após os ataques dos EUA e de Israel ao Irã em 28 de fevereiro, que desencadearam o conflito atual no Oriente Médio, deixando destruição e milhares de mortos — inclusive de soldados americanos — em diversos países. 

Trump, por exemplo, tem feito anúncios de cessar-fogo ou ameaças de crime de guerra pelas redes. 

Em outro exemplo, a Casa Branca publicou, em 5 de março, uma cena de ataque real com Bob Esponja. No dia seguinte, o perfil oficial do governo publicou um vídeo com a mensagem “Justiça à maneira americana”, no qual misturou cenas reais com as de filmes como “Top Gun”, “Halo”, “Gladiador”, “Transformers”, “John Wick”, “Star Wars” e “Dragon Ball Z”. 

Mais tarde, outras publicações com referências a filmes e jogos de videogame, como “GTA (Grand Theft Auto)” e “Call of Duty”, ganharam espaço nas publicações do governo americano.

Esses conteúdos fazem parte de uma estratégia da Casa Branca que busca ganhar pontos ao abordar questões sérias sob a ótica irreverente da cultura da internet, segundo o jornal americano The Washington Post.

“É a ideia de trivialização da mensagem de guerra”, ou seja, de minimização dos custos humanos do conflito para o público americano, tornando-o mais palatável, segundo Luli Radfahrer, professor de comunicação digital da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo). 

Arthur Ituassu, professor de comunicação política da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e autor do livro “A nova regra do jogo: mídias digitais, política e democracia” (FGV, 2025), afirmou que a comunicação de Trump tem operado de modo distinto em diferentes plataformas. “Tem que estar em todos os lugares e de forma diferente”, disse ao Nexo

A comunicação do Irã

O Irã respondeu às postagens dos EUA com um amplo repertório de memes, que viralizaram nas redes sociais. Os vídeos divulgados pelo país persa utilizam a estética dos bonecos “Lego” ou do filme “Toy Story” em tom de provocação e ridicularização de Trump. 

Há também conteúdo associando o presidente americano ao criminoso sexual Jeffrey Epstein, tratando-o como brinquedo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e até mostrando-o comendo taco, a comida mexicana, numa alusão ao TACO, acrônimo de “Trump Always Chickens Out” (“Trump sempre amarela”, em tradução livre). 

Essa expressão foi cunhada pelo colunista Robert Armstrong, da revista britânica Financial Times, para se referir aos sucessivos anúncios e recuos de Trump relacionados ao tarifaço, mas se tornou comum para descrever decisões do americano em outros contextos. 

As publicações pró-Irã são pulverizadas. Parte delas é feita por perfis de redes sociais de embaixadas iranianas em outros países com vídeos em inglês — ou em persa, com legendas em inglês —, o que sinaliza que o público-alvo dos conteúdos não é a sociedade iraniana. 

Uma das empresas responsáveis pela produção dos vídeos que circulam é a iraniana Explosive Media. Sob condição de anonimato, um de seus representantes afirmou à revista americana The New Yorker que a companhia não tem ligação com o regime, descrevendo-a como uma “equipe de mídia liderada por estudantes com experiência em ativismo social”. 

Para Ituassu, a capacidade de comunicação de guerra iraniana foi uma das surpresas do conflito atual. 

Radfahrer considera que o país tem se sobressaído na batalha nas redes. Antes do conflito, o Irã era visto, no senso comum, apenas como uma ditadura que patrocina organizações extremistas como o Hamas e o Hezbollah, mas, agora, “soa como razoável e equilibrado” diante das ações dos EUA, segundo o professor. 

Uma nova era da propaganda de guerra

A batalha da comunicação é apenas mais um front da guerra no Oriente Médio — e não um front novo. Antes dos memes, músicas satíricas, charges e filmes cumpriam a função de propaganda em conflitos armados.

Para Ituassu, o diferencial das guerras de hoje são as redes sociais. “A propaganda de guerra não é novidade, mas esse tipo de propaganda, sob o viés da memeficação e da gamificação, é”, disse.

“É uma nova era, principalmente na questão da distribuição de conteúdo”, afirmou Radfahrer. Antes, segundo ele, a publicação de charges pela imprensa passava por filtros editoriais, e a produção de filmes levava tempo. Hoje, o ambiente digital permite que qualquer pessoa publique conteúdo rápido e sem supervisão.

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Outra característica da comunicação atual é o uso de inteligência artificial e de elementos da cultura pop — como músicas, filmes e jogos de videogame — com o objetivo de passar mensagens políticas.

“A inteligência artificial está em tudo. Ela não só cria desinformação, mas ajuda a pensar a linguagem mais eficiente para cada plataforma e a organizar estratégias de conteúdo”, afirmou Ituassu. Ele acrescentou que isso coloca data centers em países do Oriente Médio como alvo de ataques.

Com esses meios, os EUA têm apostado em publicações que apelam à ideia de grandeza e virilidade, ao mesmo tempo que buscam minimizar os custos humanos da guerra para o público interno. Já o Irã tem focado na ridicularização de Trump para reduzir seu poder e o dos EUA diante do mundo.

“Quando diminuo o poder ou a percepção de poder daquele que me agride, diminuo a gravidade da ameaça”, disse Radfahrer.

Os efeitos das mensagens

Vídeos com memes ou videogames têm menos o objetivo de informar ou convencer o público e mais de criar percepções ou associações — por exemplo, associar Trump ao demônio ou mostrá-lo como manipulado por Netanyahu —, segundo os entrevistados.

“Isso gera um processo de naturalização de eventos complexos negativos, o que é ruim para a sociedade”, afirmou Ituassu. Para ele, essa banalização tende a normalizar a radicalização e a desinformação.

Radfahrer acrescentou que esses vídeos diminuem a resistência de determinados públicos a aceitarem ir para a guerra. Ao mesmo tempo, desumanizam o adversário. “Eles tornam o adversário não humano. Matar o outro é como acabar com uma praga”, disse.