
Refinaria Ruwais, nos Emirados Árabes Unidos
Os Emirados Árabes Unidos anunciaram na terça-feira (28) a saída da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) a partir de 1º de maio.
“Essa decisão segue uma revisão abrangente da política de produção dos Emirados Árabes Unidos e de sua capacidade atual e futura, e se baseia em nosso interesse nacional e em nosso compromisso de contribuir efetivamente para atender às necessidades urgentes do mercado”
Ministério da Energia e Infraestrutura dos Emirados Árabes Unidos
em comunicado divulgado pela WAM, agência de notícias estatal, na terça-feira (28)
O anúncio ocorre em meio à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, que completou dois meses, e às tensões entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita.
Neste texto, o Nexo fala sobre o contexto da decisão e mostra análises sobre o impacto para a Opep e para o mercado global de energia.
A Opep reúne os principais países produtores de petróleo do mundo. Na prática, funciona como um cartel, em que o grupo decide conjuntamente aumentar ou diminuir a produção para influenciar o preço do barril.
O governo dos Emirados Árabes Unidos disse na terça-feira (28) que a saída foi motivada pelos interesses nacionais. O país tem reclamado há tempos das cotas de produção estabelecidas pela Opep, que limitam a quantidade de petróleo vendida pelos emiradenses.
A meta do país ao deixar o grupo é expandir a capacidade de produção de petróleo de 3 milhões para 5 milhões de barris por dia até 2027. A ambição de produzir mais tem gerado atrito com a Arábia Saudita, líder da Opep e maior exportadora de petróleo da organização.
Os Emirados Árabes Unidos têm uma das economias mais diversificadas do Golfo. Segundo o site Semafor, o país tem demonstrado há anos mais preocupação em vender todas suas reservas de petróleo do que em contribuir para o controle dos preços do produto.
Além dos atritos relacionados à produção e exportação de petróleo, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita apoiaram grupos rivais nas guerras no Iêmen e no Sudão. Ou seja, a relação entre os países vem se deteriorando há anos.
O governo emiradense também ficou incomodado com a reação dos vizinhos árabes de não agir contra o Irã, que, ao ser atacado por EUA e Israel, respondeu bombardeando países do Golfo com bases militares americanas, atingindo infraestruturas energéticas e bloqueando o Estreito de Ormuz.
27,5%
foi a redução na produção de petróleo de países da Opep em março por causa do conflito e do bloqueio de Ormuz, segundo a organização
A Opep foi fundada em 1960, por iniciativa da Arábia Saudita, do Irã, do Iraque, de Kuwait e da Venezuela, com o objetivo de fortalecer os Estados nas negociações com as gigantes multinacionais, de origem americana e britânica. Os Emirados Árabes Unidos entraram no grupo em 1967.
A organização emergiu como uma grande potência em 1973, em meio à guerra do Yom Kippur, entre países árabes e Israel. À época, uma aliança de seus membros árabes realizou um embargo contra países que apoiavam Israel, incluindo os EUA, com efeitos significativos para a economia.
Com a saída dos Emirados Árabes Unidos, o grupo reunirá 11 países como membros plenos — Arábia Saudita, Argélia, Gabão, Guiné Equatorial, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, República do Congo e Venezuela — e outros 10 como associados, que integram a chamada Opep+.
Os Emirados Árabes Unidos são o terceiro maior produtor de petróleo bruto da Opep, com aproximadamente 3,4 milhões de barris por dia, segundo a consultoria S&P Global Energy. Arábia Saudita e Iraque são os dois primeiros, respectivamente.
A Opep responde, em conjunto, por cerca de 30% da produção mundial e por 79% das reservas comprovadas totais de petróleo bruto. A saída dos Emirados Árabes Unidos reduzirá a oferta sob o controle da organização.
A saída dos Emirados Árabes Unidos não significa o fim da Opep. Essa não é a primeira saída de um país da organização. Saíram também Indonésia em 2016; Qatar em 2019; Equador em 2020; e Angola em 2023. Alguns deles também deixaram a organização por discordâncias em relação às cotas.
Contudo, a decisão dos Emirados Árabes Unidos representa um golpe para a influência da Opep nos mercados de petróleo. O aumento da produção nos EUA e em países latino-americanos já reduziu a participação da organização na produção global, enfraquecendo seu poder de influência sobre os preços, segundo a revista britânica The Economist.
A publicação acrescentou que, assim que as exportações de petróleo pelo Estreito de Ormuz forem retomadas, a Arábia Saudita — que possui a maior capacidade ociosa entre os membros do bloco — terá de reduzir ainda mais sua produção se quiser sustentar os preços.
Jorge León, chefe de análise geopolítica da consultoria Rystad Energy e ex-funcionário da Opep, escreveu, num relatório reproduzido por diversos veículos da imprensa internacional, que, “juntamente com a Arábia Saudita, [os Emirados Árabes Unidos] são um dos poucos membros com capacidade ociosa significativa, o mecanismo pelo qual o grupo exerce influência no mercado e responde a choques de oferta”.
“Sua saída, portanto, remove um dos pilares fundamentais que sustentam a capacidade da Opep de gerenciar o mercado”, acrescentou.
Ou seja, os Emirados Árabes Unidos têm capacidade para aumentar rapidamente a produção e, com isso, impactar os preços internacionais do petróleo. Isso tem pouco efeito enquanto o Estreito de Ormuz segue fechado, mas, a longo prazo, a medida poderá contribuir para uma maior volatilidade dos preços, visto que menos petróleo estará sujeito aos controles de produção.
O controle que o Irã demonstrou exercer sobre o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo e 20% do gás natural mundial, é também um golpe na capacidade da Opep de influenciar o mercado.
Analistas apontam ainda que a saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep representa uma vitória para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem acusado há tempos a organização de explorar o resto do mundo para inflacionar os preços do petróleo.