Esta cena eu garanto que você já viu no cinema. Joãozinho está com muita pressa e avança, carregado de livros, pelo corredor da faculdade. Não vê que Mariazinha está vindo na direção contrária, cheia de livros também. Os dois batem um no outro, agacham-se para pegar tudo que caiu no chão, e…
Começa o namoro. Não precisa ser na faculdade. Pode ser no escritório, no supermercado, na loja… aonde quer que a imaginação do roteirista, presumivelmente pobre, queira nos levar.
Tudo bem, é uma convenção como qualquer outra. Mas acho duro de aceitar que a mesma cena ocorra duas vezes no mesmo filme. Ou será que foram três e eu estava dormindo em alguma parte?
Sem nada de péssimo, ‘Primavera’ é um desses filmes a respeito dos quais nenhum crítico pode ser acusado de estragar a alegria do espectador anunciando tudo que acontece
O filme se chama “Primavera” e tem tudo para agradar a um tipo específico de público: 1) passa-se em Veneza; 2) tem boas colheradas de música barroca; 3) traz à tela um personagem histórico real, a saber, o compositor Antonio Vivaldi; 4) mostra a opressão sofrida pelas mulheres no século 18; 5) sem ser espetacular do ponto de vista plástico, tem algo daquele cuidado com roupas, cenário e fotografia que fez o sucesso de “Moça com brinco de pérola”, produção inspirada (?) na vida de Vermeer.
No filme veneziano, previsto para estrear em julho no Brasil, a jovem Cecilia (Tecla Insolio) vive num orfanato religioso, o Ospedale della Pietà. A instituição existiu de fato e ficou famosa pela qualidade da música que ali se praticava (se não me engano, Jean-Jacques Rousseau foi dos que se fascinaram com o que se ouvia na igreja de lá). Vivaldi, que era padre, cuidava dos concertos e logo reconheceu que Cecilia era muito melhor instrumentista que as demais internas do orfanato.
O espectador também é levado a perceber isso sem sombra de dúvida. No ensaio, as moças começam tocando direito – mas, como o filme tem de ser acessível ao extremo, a orquestrinha feminina vai desafinando grotescamente. Apenas Cecilia sobrará tocando direito no meio da confusão sonora, para a admiração de Vivaldi e para a descrença de quem assiste. O caos musical nunca aconteceria daquele jeito, nem mesmo se o diabo em pessoa entrasse no orfanato.
Mas vamos aceitando. Vivaldi e Cecilia (surpresa!) dão-se um encontrão e as partituras se espalham no piso da igreja. Mas espere. Cecilia e um verdureiro (surpresa! Surpresa?) se chocam na cozinha e os legumes se esparramam pelo chão.
De tropeço em tropeço, a história avança. Sendo perfeitamente assistível, sem nada de péssimo, “Primavera” é um desses filmes a respeito dos quais nenhum crítico pode ser acusado de estragar a alegria do espectador anunciando tudo que acontece. O filme é o “spoiler” de si mesmo.
Caso bem diferente é o de outra produção italiana, “La Grazia”, de Paolo Sorrentino. Nada de muito sensacional é revelado ao longo da história de Mariano de Santis (Toni Servillo), presidente fictício, em seus últimos dias de mandato. Sim, dúvidas o perseguem o tempo inteiro, e não sabemos que fatos ou decisões virão à tona no fim da história.
O ritmo de “A graça” (o título mais preciso seria “O indulto”) é bastante lento, acompanhando uma rotina presidencial basicamente inefetiva e protocolar. O admirável no filme de Paolo Sorrentino é que, mesmo nos momentos de maior ramerrão, coisas absolutamente imprevistas aparecem diante do espectador.
Um cachorro-robô, vindo não se sabe de onde; um chapéu que voa sem que se possa pegá-lo de volta; uma gota d’água que flutua dentro de uma nave espacial: seria errado, acho, atribuir sentido alegórico a esses eventos, que surgem quando menos se espera. Representam, exatamente, aquilo que não se pode prever, e que, como as decisões finais do presidente, são plausíveis, reais, mas escapam a uma explicação certinha.
Sobre o tema dos filmes previsíveis, lembro ainda “Os dois procuradores”, história simples, não direi se previsível ou não (aí é que está o interesse da coisa), que se passa em 1937, durante o terror stalinista. O procurador-geral da república, naqueles tempos, era Vichinsky – um dos maiores e mais gélidos carrascos da história. Um jovem promotor faz de tudo para encontrá-lo em Moscou. Os dois atores (Anatolyi Biely e Alexander Kuznetsov) dão uma aula de interpretação tão boa que mesmo Toni Servillo, não um Vivaldi, mas um verdadeiro Bach na composição de um personagem, teria algo a aprender.
E mais não digo. Como Vichinsky, críticos de cinema acertam mais quando falam menos.