Por que o Brasil voltou a produzir mais arroz, feijão e mandioca

Grãos de arroz

Grãos de arroz

Os três primeiros anos do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) marcaram uma inversão, ainda que tímida, de uma tendência histórica da produção agrícola nacional. Pela primeira vez em pelo menos 20 anos, um presidente vê a produção conjunta de arroz, feijão e mandioca crescer – e não cair – durante seu mandato. É o que mostram dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O instituto mantém estatísticas da safra nacional desde 2006. De lá até 2023, a produção combinada dessas três culturas – alimentos que formam a base da dieta nacional – manteve uma tendência geral de queda.

Desde que Lula voltou à Presidência, porém, esse quadro mudou, em parte graças a políticas públicas implementadas por seu governo. A conjuntura de mercado, mais favorável às três culturas, também influenciou no aumento da produção.

Segundo o IBGE, em 2011, primeiro ano do governo de Dilma Rousseff (PT), sucessora de Lula, o Brasil produzia 43,1 milhões de toneladas de arroz, feijão e mandioca juntos – o pico da série histórica tabulada pelo instituto. Já em 2022, último ano da gestão de Jair Bolsonaro (PL), essa produção havia caído para 31,9 milhões de toneladas, o pior resultado da série, mais de 25% abaixo do verificado 11 anos antes.

Em 2023, a quantidade produzida já havia subido para 32,3 milhões de toneladas. No final do ano passado, alcançou 35,4 milhões de toneladas – maior volume desde 2017 e quase 11% acima do registrado ao fim da gestão Bolsonaro.

Arroz lidera aumento

O crescimento da produção de arroz é o principal responsável pelo resultado positivo no governo Lula. Apenas essa cultura aumentou sua produção em 18% entre 2022 e 2025, impulsionada pela criação de um programa de incentivo, o Programa Arroz da Gente, de 2024, mas também pela alta dos preços pagos aos produtores pelo grão.

“Foi uma soma de fatores”, explicou Sílvio Isoppo Porto, atual presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em entrevista ao Joio. No momento da entrevista, ele era o diretor-executivo de Política Agrícola e Informações do órgão. “O preço para o produtor subiu, mas não foi só uma questão de mercado.”

Porto é um dos principais porta-vozes do governo no que diz respeito à política de produção de alimentos. Ele reconhece que a escassez de itens básicos da dieta nacional pressionou o orçamento das famílias – inclusive durante o governo Lula –, o que levou o governo a intervir no mercado do grão.

Em 2023, segundo o IBGE, o arroz encareceu 24,5%, aproximadamente quatro vezes mais do que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país, que acumulou 4,62% naquele ano.

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No ano seguinte, uma enchente histórica atingiu o Rio Grande do Sul, responsável por 70% da produção nacional de arroz, danificando lavouras do cereal. O governo chegou a anunciar a importação do grão para garantir o abastecimento interno. Ainda assim, o preço do arroz subiu 8,24% – quase o dobro da inflação registrada no período, de 4,83%.

Porto admitiu que a insuficiência de produção pesou nos aumentos. “Se tivéssemos mais 500 mil toneladas de arroz no campo em 2023 e 2024, claro, isso faria diferença”, disse, lembrando que o Brasil não chegou a produzir 11 milhões de toneladas do cereal nos dois primeiros anos do governo Lula. No primeiro ano da gestão, a produção havia sido de 10,2 milhões de toneladas, quase equivalente ao pior resultado registrado pelo IBGE, em 2019.

Por outro lado, a baixa oferta elevou o valor pago ao produtor. Ao final de 2023, a saca de 50 kg de arroz tipo 1 chegou a custar mais de R$ 127 no Rio Grande do Sul, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) – mais de R$ 2,50 por quilo do grão ainda com casca, no mercado agrícola.

Esse patamar estimulou a produção no país, disse Porto. O cenário contribuiu para que a quantidade colhida superasse 12,6 milhões de toneladas em 2025 – a melhor marca desde 2011 e a segunda maior da série histórica do IBGE.

“A produção subiu tanto que derrubou os preços”, acrescentou o atual presidente da Conab, lembrando que o preço da saca recuou mais de 56% desde o pico de dois anos atrás.

No ano passado, o governo adquiriu cerca de 200 mil toneladas do cereal para recompor estoques públicos e garantir um preço mínimo ao produtor, segundo Porto. “A produção cresceu até demais. Nosso ponto ótimo são os cerca de 11 milhões de toneladas.”

Em 2025, de acordo com o IBGE, o preço do arroz caiu 26,5% ao consumidor.

Arroz da Gente

Porto ressaltou que o governo não quer deixar a produção de arroz – assim como a de outros alimentos – à mercê das oscilações do mercado. Por isso, lançou, ao final de 2024, o Programa Arroz da Gente, com o objetivo de estimular e diversificar geograficamente o cultivo do cereal pelo país. “Um dos problemas do arroz é que 80% de sua produção está concentrada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina”, disse. “Quando ocorre um problema climático por lá, como em 2024, o Brasil inteiro sofre as consequências.”

O programa prevê uma série de ações e parcerias entre órgãos governamentais para fomentar o cultivo de arroz em regiões de clima seco, como o Nordeste. A iniciativa também busca envolver comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas no cultivo do grão, tanto para consumo próprio quanto para o abastecimento do mercado.

Estive pessoalmente no assentamento Itatiaia, em João Pinheiro (MG), em fevereiro. Lá, a área plantada de arroz passou de 30 para 80 hectares“, afirmou Porto. “Tem território indígena em Mato Grosso produzindo arroz.”

Segundo ele, o Arroz da Gente trabalha atualmente com 265 comunidades em 17 estados, contando com 82 técnicos dedicados à expansão da produção.

Porto afirmou que a ideia do governo é usar o programa como um projeto piloto. Se der certo, disse ele, virão o “Feijão da Gente” e o “Mandioca da Gente”. “Precisamos produzir para baratear esses alimentos, criar sistemas logísticos para eles, disseminar as lavouras. São produtos essenciais da dieta brasileira, e que precisam estar acessíveis”, afirmou. .

Desde 2023, a produção de feijão no país – considerando as três safras contabilizadas pelo IBGE – subiu de 2,9 milhões para 3 milhões de toneladas, alta de 2%. Já a produção de mandioca cresceu de 19,1 milhões para 19,8 milhões de toneladas – aumento de 3%.

Sementes de feijão

Sementes de feijão

No médio prazo, a tendência é outra. Desde 2006, a produção de feijão recuou 12% e a de mandioca, 26%. A de arroz, por sua vez, cresceu 10%.

Com a queda na produção, os preços do arroz, do feijão e da mandioca subiram acima da inflação nos últimos seis anos. “O preço se tornou um problema para o acesso à alimentação saudável no Brasil”, afirmou Walter Belik, professor aposentado de economia agrícola do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos fundadores do Instituto Fome Zero (IFZ), também em entrevista ao Joio. “Isso impactou o consumo desses alimentos, o que também tem consequência sobre a produção.”

Questão de status

Belik integrou o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) entre 2003 e 2007 e coordenou a Iniciativa América Latina e Caribe sem Fome, projeto sediado no Escritório Regional da Organização para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO), de 2007 a 2008.

Ele disse ao Joio que a redução do consumo de arroz, feijão e mandioca no Brasil também tem raízes culturais. Com o crescimento da renda nos últimos 30 anos, esses alimentos perderam espaço na preferência dos consumidores, cada vez mais atraídos por produtos processados e ultraprocessados. “É também uma questão de status. O brasileiro está trocando o feijão pelo macarrão”, exemplificou. “O processado, apesar de menos nutritivo e saudável, carrega um valor cultural maior.”

Belik defende iniciativas públicas para reverter esse quadro, em benefício da saúde da população. Parte dessas iniciativas deveria, segundo ele, estimular a competitividade econômica das lavouras de alimentos básicos frente à soja e ao milho – grãos destinados, em geral, à exportação ou à produção de processados e ultraprocessados.

A produção de soja no Brasil cresceu 218% desde 2006, segundo o IBGE – ou seja, mais do que triplicou. A de milho aumentou 51% no período. “Economicamente, compensa muito mais ao agricultor produzir soja do que feijão”, disse Belik.

A tonelada de soja valia cerca de 200 dólares em 2001, quando o dólar ainda era cotado a R$ 2 – o equivalente a aproximadamente R$ 400. Em junho de 2022, o preço da tonelada atingiu 727 dólares. Com o câmbio acima de R$ 4,50, isso representava cerca de R$ 3,2 mil por tonelada – crescimento de 700% em 21 anos.

Invasão de soja

Vânia Marques Pinto, presidenta da Confederação Nacional de Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), disse ao Joio que a alta do preço da soja provocou uma expansão excessiva do cultivo do grão pelo país. A área plantada com soja no Brasil saltou de 21,9 milhões de hectares em 2006 para 47,7 milhões de hectares – crescimento de 117% em 20 anos.

Parte considerável dessa expansão, disse ela, ocorreu sobre áreas antes cultivadas com arroz, feijão e mandioca. Essas três culturas perderam 41%, 44% e 46% de sua área plantada desde 2006, respectivamente, segundo dados do IBGE.

“Famílias migraram suas plantações para a soja por conta do estímulo do mercado”, acrescentou Pinto. “Isso preocupa porque, em um futuro não muito distante, poderemos não ter alimentos básicos à disposição na mesa dos brasileiros.”

Débora Nunes, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também manifestou preocupação com a produção de alimentos no Brasil e com o peso excessivo do mercado sobre as decisões do setor. Segundo ela, a produção de soja e milho para exportação ou para abastecer a indústria de processados tornou-se o modelo hegemônico da agricultura brasileira.

Tal modelo acabou por direcionar políticas públicas, como o Plano Safra, a reproduzir seus métodos, mesmo que eles não sirvam aos interesses econômicos e de saúde da população. “O modelo hegemônico recebe os recursos públicos, define a legislação, mas vai na contramão do que é necessário para o país”, criticou.

Nunes reconheceu os méritos do governo ao ampliar a produção de arroz, feijão e mandioca, mas ponderou que os avanços são insuficientes para alterar a lógica do agronegócio. “Há esforços, ainda que pequenos, para melhorar. Houve uma recuperação modesta da produção de alimentos, mas não necessariamente da área plantada.”

Plano Safra direcionado

Para José Giacomo Baccarin, professor de economia e política agrícola da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a solução para um aumento consistente da produção de alimentos básicos no Brasil passa pelo Plano Safra. O programa é a principal fonte de financiamento da agricultura brasileira. Sua última edição, lançada para apoiar a safra 2025/2026, destinará R$ 516,2 bilhões à agricultura nacional.

Baccarin ponderou que esses recursos são distribuídos sem distinção quanto às culturas a que se destinam – o que, para ele, é um equívoco. Levando em conta as necessidades brasileiras, o Plano Safra deveria direcionar recursos específicos para a produção de arroz e feijão, por exemplo. “A agricultura brasileira é um caso de sucesso, mas isso não significa que não há questões a aperfeiçoar”, alertou. “O Plano Safra precisaria ter metas mais detalhadas e orientadas a objetivos específicos.”

Porto, da Conab, disse que o governo federal já identificou essa necessidade. Segundo ele, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) já oferece crédito a juros mais baixos para o fomento de produtos que integram a cesta básica.

Para a safra 2025/2026, o Pronaf distribuirá até R$ 78,2 bilhões — cerca de 15% do total do Plano Safra, voltado ao agronegócio. O aumento dos recursos, no entanto, não deve alterar significativamente o tipo de lavouras plantadas no país. Uma investigação do Joio mostrou que, em 30 anos de Pronaf, 47% dos recursos foram direcionados para lavouras de soja e criação de boi.