O que malas suspeitas num jatinho revelam sobre bets e Congresso

Imagem da câmera de segurança do Aeroporto Catarina, em São Roque (SP). Um homem passando ao lado de uma máquina de raio-x em um saguão

Imagem da câmera de segurança do Aeroporto Catarina, em São Roque (SP)

A Polícia Federal enviou ao Supremo na terça-feira (28) um relatório sobre a apuração da suspeita de contrabando num voo do avião de Fernando Oliveira Lima, empresário do ramo de bets. O voo tinha entre os passageiros o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Responsável pela operação do “jogo do tigrinho” no Brasil, Fernandin OIG, como é conhecido o dono da aeronave, depôs na CPI das Bets, Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado que teve resultado praticamente nulo em 2025. A suspeita de contrabando vem à tona num momento em que as apostas estão no centro das preocupações nacionais, por sua relação com o endividamento das famílias.

R$ 30 bilhões

foram gastos com bets pelos brasileiros em março de 2026, segundo estudo da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo)

Neste texto, o Nexo apresenta o caso da suspeita de contrabando, explica a relação de Fernandin OIG com parlamentares e fala sobre o tratamento do Congresso em relação às bets.

Qual a suspeita da Polícia Federal

O voo investigado pela Polícia Federal pousou no Aeroporto Catarina, em São Roque (SP), em 20 de abril de 2025, depois de partir de São Martinho, ilha caribenha considerada um paraíso fiscal. Além de Motta e Nogueira, estavam na aeronave os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), líderes partidários na Câmara. 

16

passageiros estavam na aeronave 

O inquérito sobre o voo surgiu a partir de outra investigação, na qual o auditor fiscal Marco Antônio Canella foi indiciado por facilitação de contrabando e descaminho, segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo. 

Canella, que também aparece nas imagens do relatório enviado na terça (28) ao Supremo, autorizou o comandante do voo de Fernandin OIG, José Jorge de Oliveira Júnior, a seguir com cinco volumes transportados pela aeronave sem passar pela inspeção da máquina de raio-x.

Imagens de câmeras de segurança do aeroporto de São Roque mostram que todos os passageiros do voo, incluindo os parlamentares, passaram pelo raio-x antes de desembarcar. Júnior também fez o processo com duas bagagens, mas, após conversar com Canella, retornou ao local com mais cinco volumes, que não foram fiscalizados. Uma funcionária do aeroporto chegou a questionar o auditor fiscal, que teria reagido “expressando banalidade e irrelevância”, segundo a PF.

O inquérito também apresenta um manuscrito de um funcionário anônimo do Aeroporto Catarina num livro de ocorrências. Nele, há uma alegação de que Canella “liberou todas as malas e bolsas de mão com todos os eletrônicos, garrafas dentro das malas” e “autorizou a passar bagagens do tripulante fora do raio-x”, segundo reportagem do site G1.

Para a PF, não é possível afirmar o que havia nas malas e se eram de propriedade do piloto ou de algum dos passageiros.

A possibilidade de envolvimento de parlamentares — que têm foro privilegiado — fez com que o caso fosse enviado ao Supremo Tribunal Federal. Alexandre de Moraes ficou com a relatoria. O ministro aguarda posição do procurador-geral da República, Paulo Gonet, para saber se há indícios de crime por parte dos deputados e senador ou se é necessário devolver a investigação à primeira instância.

Parte dos envolvidos no inquérito se manifestou à imprensa. Dono do avião, Fernadin OIG disse ao jornal Folha de S.Paulo que os itens suspeitos eram do comandante, e o desembarque seguiu o processo normal. Já Júnior afirmou que não se lembra do conteúdo da bagagem, mas que a fiscalização aconteceu como a legislação determina.

“Cada piloto transporta apenas seus próprios itens, de modo que, em eventual fiscalização, responda exclusivamente pelo que carrega”

José Jorge de Oliveira Júnior

piloto, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo

Em nota ao Estadão, Motta disse que seguiu os protocolos da legislação aduaneira e irá aguardar a manifestação da Procuradoria-Geral da República para novos posicionamentos. Ele não se manifestou sobre a relação com Fernandin OIG.

Quem é o dono do avião

O empresário piauiense Fernando Oliveira Lima começou no mercado de tecnologia em 2008, fazendo jogos de quiz para o Facebook. Em meados da década de 2010, ele foi empresário do humorista conterrâneo Whindersson Nunes. Também criou aplicativos de fotos com filtros, simulando imagens do usuário como criança, por exemplo. 

Em 2016, ele fundou a One Internet Group, empresa de tecnologia que presta serviços de publicidade digital e desenvolvimento de software – por isso o apelido Fernandin OIG. Por meio da OIG Gaming, a companhia é representante de algumas das principais plataformas de bets do país: a 7games.bet, a Betão e a R7.BET. 

Em depoimento à CPI das Bets em 2024, o empresário disse que seu contato com o ramo de apostas online começou pelas publicidades de bets em seus aplicativos. “Vi que era um mercado que estava em tratativas de regulamentação [que ocorreu, de fato, em 2023] e, de lá para cá, dei uma atenção para esse setor”, afirmou.

Fernandin OIG, em depoimento na CPI das Bets, em novembro de 2024. Um homem fala em um microfone. Ele está atrás de uma placa branca

Fernandin OIG, em depoimento na CPI das Bets, em novembro de 2024

As três plataformas da OIG Gaming receberam autorização para atuar no país pela Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda, em dezembro de 2024. Na época da convocação do empresário para depor na CPI das Bets, havia a suspeita de que a companhia poderia facilitar práticas ilícitas e de lavagem de dinheiro. 

Fernandin OIG tem relação com várias figuras de Brasília. Na CPI das Bets, Ciro Nogueira — senador e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro — o defendeu de críticas. A relatora da comissão, Soraya Thronicke (PDS-MS), pediu a substituição do colega nos trabalhos após uma reportagem da revista Piauí revelar uma viagem entre ele e Fernandin OIG para Mônaco em maio de 2025.

Kassio Nunes Marques também é próximo de Fernandin OIG. Após tentativas frustradas do Senado para convocar o empresário na CPI das Bets, ele foi encontrado num almoço na casa do ministro do Supremo. Em 2024, ambos viajaram num jatinho de Fernandin OIG para uma festa de aniversário do cantor sertanejo Gusttavo Lima na Grécia. 

“Kassio [Nunes Marques] é amigo meu, de mais de 10 anos atrás, de lá do Piauí, de panelada, de comer buchada de bode e galinha caipira”

Fernandin OIG

empresário, em depoimento à CPI das Bets, em novembro de 2024 

Desde o fim de 2025, o nome de Fernandin OIG também esteve ligado ao de páginas de fofoca nas redes sociais. Perfis com milhões de seguidores que teciam críticas ao governo Lula e elogiavam políticos de extrema direita tinham em suas publicações o logo da 7games.bet, uma das plataformas de apostas online do empresário piauiense.

O jogo do tigrinho

Fernandin OIG não é dono do jogo do tigrinho. O “Fortune Tiger”, nome original do jogo, é produzido pela empresa PG Soft Games, que tem base em Malta, arquipélago entre a Itália e o norte da África. Segundo o depoimento do empresário na CPI das Bets, ele disponibiliza o jogo em seus sites de apostas por intermédio de uma plataforma oficial da desenvolvedora estrangeira.

103

é o número de países com usuários jogando jogos da PG Soft Games, segundo o site oficial da empresa

O jogo do tigrinho é um tipo de caça-níquel digital – a legislação brasileira proíbe caça-níqueis desde 1946. Teoricamente, portanto, ele deveria ser ilegal. Mas, mesmo proibidos, ele e outros similares se beneficiaram do crescimento das bets esportivas a partir de 2018, quando uma lei sancionada pelo governo de Michel Temer permitiu a operação de empresas de apostas esportivas online, desde que não sediadas no Brasil (em 2025, elas foram obrigadas a ter sede no país para operar).

Durante a tramitação da regulamentação das apostas esportivas, em 2023, a Câmara dos Deputados incluiu um trecho na lei fazendo menção aos “jogos online”, definidos como jogos que “viabilizam a aposta virtual em jogo no qual o resultado é determinado pelo desfecho de evento futuro aleatório, a partir de um gerador randômico de números, de símbolos, de figuras ou de objetos definido no sistema de regras”.

Na prática, isso tornou os cassinos virtuais – incluindo o tigrinho – legais, enquanto os físicos ainda se mantiveram ilegais. O Ministério da Fazenda publicou em agosto de 2024 as normas para regularizar esses jogos.

As bets e o Congresso

A proposta da CPI das Bets, instalada em novembro de 2024, era realizar um diagnóstico de possíveis falhas na regulação e fiscalização de plataformas de apostas. A atuação de possíveis organizações criminosas e os impactos da publicidade desses jogos também estavam na mira da comissão.

Apresentado em junho de 2025, o relatório final de Soraya Thronicke pediu o indiciamento de 16 investigados, incluindo Fernandin OIG, pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa. A acusação era de que o empresário teria ocultado a origem de valores obtidos com apostas ilegais.

4 a 3

foi o placar pela rejeição do relatório final da CPI, que não foi para frente; foi a primeira vez em 10 anos que o texto de uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi derrubado

A CPI ocorreu num momento de crescimento da chamada “bancada das bets”, grupo que atua para favorecer as plataformas de apostas online. Ciro Nogueira é considerado o líder do grupo. Os parlamentares atuaram pela regulação das apostas e pela retirada da tributação às empresas de bets no PL Antifacção.

A bancada tem deputados e senadores de partidos de direita, esquerda e do centrão. Segundo reportagem do Estadão de setembro de 2024, integrantes do grupo eram, naquela época: 

Reportagem de 2025 do portal UOL ainda identificou o deputado Gabriel Mota (União-RR) e o senador Jorge Kajuru (PSB-GO) como membros da bancada das bets.

Para o advogado Miguel Godoy, professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e da UnB (Universidade de Brasília), a regulação de 2023 tirou o Brasil de um vazio normativo sobre as bets, mas precisa amadurecer.

Devem ser tomadas medidas como “o jogo responsável efetivo, com mecanismos mais robustos de limite de perdas e autoexclusão; a fiscalização, especialmente contra operadores ilegais; a regulação da publicidade; e a coordenação federativa, para evitar conflitos entre União, estados e municípios”, afirmou ao Nexo.

“Quando o volume de gastos com apostas cresce nesse nível, a discussão deixa de ser ‘se regula’ e passa a ser ‘como regular melhor’. O desafio agora não é arrecadar com bets, mas evitar que a arrecadação venha às custas do superendividamento das famílias”

Miguel Godoy

professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e da UnB (Universidade de Brasília), em entrevista ao Nexo

Apesar desses desafios, o poder de barganha das bets fez com que as plataformas comprassem “efetivamente a consciência e a ideologia de uma porção de gente que está no Estado”, afirmou ao Nexo Jean Menezes de Aguiar, advogado e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas).

“O que se está vendo é uma cambalhota total nesta gestão política para que essas bets sejam autorizadas. Isso é um fenômeno que talvez seja irreversível”

Jean Menezes de Aguiar

advogado e professor da FGV 

Para Godoy, casos como o da suspeita no voo de Fernandin OIG podem impactar as relações entre o setor público e privado. “Precisamos encarar de forma serena a regulação do lobby no Brasil e participação regulatória. Se bem conduzidos, episódios como esse podem fortalecer a regulação, ao exigir mais transparência e controles institucionais”, afirmou.