O que é ‘math rock’. E por que som é tão singular

Angine de Poitrine

A banda canadense Angine de Poitrine vem fazendo sucesso nas redes sociais desde que o vídeo de uma de suas apresentações foi postado na página do YouTube da rádio americana KEXP, em fevereiro. Formado pela dupla de nomes artísticos Khn de Poitrine, na guitarra e baixo, e Klek de Poitrine, na bateria e vocais, o grupo chamou atenção pela excentricidade sonora e visual de suas produções. 

12 milhões

é o número de visualizações acumuladas pela apresentação do Angine de Poitrine na rádio KEXP, postada no YouTube em 5 de fevereiro

Usando um visual atípico, com roupas pretas e brancas de bolinhas e máscaras de papel machê, a banda toca músicas majoritariamente instrumentais, com pedais de loop (que repetem a melodia executada anteriormente) e breves vocais distorcidos. Utilizam também recursos incomuns e complexos, como ritmos dissonantes e microtonalidade, numa exploração da teoria musical característica do subgênero que tocam, o math rock.

Neste texto, o Nexo explica o que é math rock, mostra o há de diferente nas músicas e apresentações do Angine de Poitrine e elenca outras bandas do subgênero musical. 

O que é math rock

O math rock é uma das ramificações experimentais do rock. Começou a ter alguma visibilidade na década de 1990, com a popularidade de outros gêneros do rock alternativo, mas já existia como prática desde décadas antes, segundo o jornalista musical Igor Miranda, editor especial da Rolling Stones Brasil.

Em entrevista ao Nexo, Miranda explicou que as raízes do math rock estão no rock progressivo, que surgiu no fim da década de 1960, no momento em que diferentes artistas com bagagem teórica estabelecida por meio do estudo formal de música entraram em contato com influências de bandas como os Beatles e os Beach Boys

Segundo ele, o rock and roll americano e o rock clássico, no início, eram geralmente tocados por músicos autodidatas, com composições instintivas, enérgicas e simples. Já bandas progressivas como King Crimson, Yes e Genesis começaram a experimentar sonoridades de sistemas musicais não ocidentais e da música erudita e do jazz, abandonando estruturas clássicas e repetitivas.

O math rock faz experimentações especificamente na matemática das músicas, ou seja, em elementos estruturais da teoria musical: complexificação de ritmos, contrapontos, notas musicais, padrões de compasso, tempo e tecnicidade instrumental.

“A música popular e massificada segue padrões que se repetem em diferentes composições. Isso acaba deixando os nossos ouvidos acostumados cada vez mais com um tipo de som, e o que muda gera estranheza. Mas música é matemática, e a matemática é infinita”, disse Miranda. 

A música microtonal no Angine de Poitrine

O sistema musical que usamos hoje se baseia no desenvolvimento da música europeia e é formado basicamente por escalas musicais que incluem 12 notas: sete tons (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si) e cinco semitons (bemóis e sustenidos, que ficam em alguns intervalos entre um tom e outro).

Esse é o alfabeto musical com o qual a maioria dos músicos ocidentais trabalha. Isso porque os principais instrumentos da música popular são fabricados com essas divisões: pianos têm teclas brancas para tons e teclas pretas para semitons, enquanto violões e guitarras têm trastes que delimitam a marcação quase precisa de cada som. 

Miranda explicou que esse não é o único alfabeto musical possível. No intervalo entre cada semitom, por exemplo, há a possibilidade de alcançar notas da chamada microtonalidade.

Cada nota musical, em cada altura específica (mais aguda ou mais grave), tem uma frequência de som. Para mostrar um exemplo, no conjunto de notas de uma altura intermediária, a quarta oitava, o dó tem 261,63 Hz, o ré tem 293,66 Hz e o intervalo entre eles, o dó sustenido, tem 277,18 Hz. Entre esses números, há uma infinidade de possibilidades (263 Hz, 274,62 Hz, etc.). O que a música microtonal do Angine de Poitrine faz é uma segunda divisão entre os tons e os semitons: entre o dó e o dó sustenido, como no exemplo, existe um segundo intervalo com aproximadamente 269,3 Hz.

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Isso dobra as possibilidades. Em vez de 12, os músicos têm acesso a um alfabeto ampliado de 24 notas musicais.

Entre os instrumentos comuns da música, alguns dão a possibilidade do uso da microtonalidade, como o violino e o trombone (que não têm trastes nem impedimentos físicos ao alcance de notas intermediárias), mas, na maioria dos casos, os músicos acabam reproduzindo as escalas tradicionais.

“A voz, inclusive, é o instrumento mais microtonal que existe. Não existe maneira de controlar exatamente a frequência de uma nota emitida; os cantores têm que treinar muito para conseguir. E o que nós interpretamos como desafinação não é mais do que uma microtonalidade. Um cantor pode ser apontado como desafinado quando não atinge uma nota específica, chegando apenas na trave — mesmo que isso seja intencional”, disse Miranda.

No caso do Angine de Poitrine, um dos artistas utiliza uma guitarra embutida a um baixo, de dois braços, modificada para o alcance da microtonalidade (com trastes intermediários entre tons e semitons).

Apesar de incomum no Ocidente, a música microtonal é comum em sistemas musicais como o árabe e o indiano. No Brasil, a microtonalidade foi explorada por artistas da Vanguarda Paulistana, principalmente por Arrigo Barnabé, em álbuns como “Clara crocodilo” e “Tubarões voadores”. O movimento musical do fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 buscava formas de expressão, estética e criatividade diferentes dos caminhos já trilhados pela MPB até então.

O anônimo fantasiado e os acenos à tradição do rock

Para Miranda, o fato de os integrantes do Angine de Poitrine se apresentarem com roupas e máscaras estilizadas foi um diferencial que chamou a atenção do público. “A história do anônimo fantasiado gera curiosidade há muito tempo. Dentro do rock houve bandas como Kiss, Slipknot, Ghost, President (que é mais recente). Essa é uma forma de contar uma história e se apresentar ao público mesmo antes do som. Muitos fãs comentam que o Angine se parece exatamente como soa ”, disse.

Para ele, a dinâmica das redes sociais faz com que a imagem tenha papel crucial na divulgação de uma banda. “As pessoas ouvem músicas também com os olhos. O visual sempre foi importante, mas nunca foi tão importante como hoje”, afirmou.

Apesar da excentricidade, o Angine de Poitrine tem a preocupação que muitos músicos de math rock não têm de se apoiar e fazer referências a elementos do rock clássico e do rock alternativo mais estabelecido, como timbragens tradicionais do gênero, melodias cativantes e uso da bateria — que geram conforto, certa identificação e reações convencionais no público, como vontade de dançar —, segundo o jornalista.

Outros artistas do gênero

Ao Nexo, Miranda recomendou algumas bandas de math rock para entender até onde a experimentação do gênero pode chegar. Como o que caracteriza a categoria é justamente explorar novas formas de fazer música, esses artistas podem soar muito diferentes uns dos outros.

São eles:

Horse Lords (EUA — música microtonal e experimentação na timbragem)

Covet  (EUA — alta tecnicidade no uso da guitarra)

American Footbal (EUA — math rock e emo)

Black Country, New Road (Inglaterra)

Tricot (Japão)

King Gizard and The Lizard Wizard (Austrália — música microtonal no álbum “Flying Microtonal Banana”)

Além das bandas, Miranda indicou músicas de grupos de rock tradicionais que, em alguns momentos, exploraram experimentações matemáticas. São os casos das faixas “Black Dog”, do Led Zeppelin — com compassos não convencionais —, “Tom Sawyer”, do Rush — com experimentações no ritmo —, e “Spoonman”, do Soundgarden — com compassos diferentes ao longo da música, além de um solo de colheres.