Enquanto o mundo decide se ou como vai banir o acesso a redes sociais por crianças e adolescentes, observamos um movimento paralelo que tem dado um sentido maior à questão: muitos governos e instituições públicas e privadas estão ouvindo a parte mais interessada no resultado final, o público infantojuvenil. Finalmente parece haver uma compreensão da importância de ouvi-los, uma vez que, a cada banimento ou tentativa de regulação mais restrita, eles conseguem burlá-las e seguir nas redes, para o bem e para o mal, cheios de justificativas. Há um consenso de que eles têm o que dizer, e mais que isso: o que demandar. Por incrível que pareça, o que eles querem não é tão diferente do que toda a sociedade entende que é “o melhor interesse da criança”, ou seja, o direito de usufruir de uma internet mais segura, ética, amigável, não viciante e, sobretudo, uma internet que entretenha, ensine e lhes permita a livre expressão.
O Reino Unido já está colocando em prática uma consulta pública a dezenas de adolescentes que participarão de testes para avaliar como seriam impactados por futuras restrições ao uso de redes sociais. Aproximadamente 150 pessoas de 13 a 15 anos serão acompanhadas e terão a qualidade do sono, o humor e os níveis de atividade física avaliados, para auxiliar a decisão final do governo.
Meninos e meninas querem aprender mais sobre o universo digital, para poder estar ali com consciência e agência
Recentemente, o Unicef Innocenti, centro de pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância, lançou um documento intitulado “Children’s Voices to Action” (em tradução livre, “Das vozes das crianças à ação”), baseado em consultas realizadas com mais de 200 crianças em sete países (incluindo o Brasil, além de Espanha, EUA, Índia, Malásia, Serra Leoa e Uganda). O propósito foi entender as possíveis lacunas entre o que as políticas públicas dizem sobre o “melhor interesse da criança” e o que elas realmente entendem por isso quando estão na internet e usando a inteligência artificial. De uma maneira resumida, podemos afirmar que as crianças não se sentem protegidas na internet, apesar de saberem usar algumas ferramentas de proteção, além de perceberem que seus dados são coletados sem que saibam para que serão utilizados. Elas também reclamam que as plataformas não se preocupam em lhes oferecer conteúdos de qualidade, que realmente acessam muita coisa inadequada e que não se sentem empoderadas nesse ambiente. Além disso, elas relatam que não conhecem seus direitos no ambiente digital, revelando uma preocupação com a educação digital para que se tornem mais conscientes, informadas e capazes de fazer escolhas mais inteligentes.
O documento enfatiza que, ao “serem solicitadas a imaginar futuros desejáveis, as crianças visualizaram um mundo digital inclusivo, seguro e que lhes desse poder, (…) (um mundo) no qual a tecnologia não é apenas acessível, mas projetada em torno dos melhores interesses da criança; onde o bem-estar se tornou um princípio de design; onde uma cultura de responsabilidade compartilhada entre crianças, pais, professores, empresas e governos se consolidou; e onde os padrões de privacidade e segurança foram definidos de forma clara e compreensível para todos”. A pergunta que fica é: seria esse mundo tão diferente do que imaginamos quando elaboramos regulações, como nosso ECA Digital? Então, por que será que muitas crianças e adolescentes seguem acessando as redes proibidas e continuam protestando contra esse tipo de regulação?
Ouvi-los pode trazer alguns insights para pensarmos em como incluí-los de fato e de direito nas decisões sobre a regulação das redes sociais. Estive recentemente com diversas crianças e pré-adolescentes entre 10 e 14 anos numa escola particular e eles foram unânimes em dizer que sabem quão viciantes são as redes sociais e qual o potencial danoso do seu uso indiscriminado; por outro lado, eles também afirmaram que é importante saber usar as plataformas para ter consciência dos cuidados que devem ter e usufruir dos benefícios da comunicação entre seus pares, incluindo-se nos grupos de conversa que os fazem sentirem-se pertencentes a uma comunidade e informando-se sobre o que acontece ao seu redor de maneira divertida e interessante.
Quando perguntamos se é importante ensinar educação midiática e digital na escola, todos afirmaram que sim, sugerindo, inclusive, que a disciplina seja obrigatória no currículo, abordando como as redes funcionam e como se pode navegar por elas com mais segurança. Mesmo com a proibição dos celulares no ambiente escolar, eles não conseguiram apontar muitos benefícios no aprendizado sobre o uso desses dispositivos, afirmando que, ao chegarem em casa, ficam mais ansiosos pelo aparelho (“dá vontade de usar mais, dá abstinência”) e se veem de novo presos aos feeds que só distraem e não agregam conhecimentos importantes para sua vida. Os meninos e meninas querem aprender mais sobre o universo digital, para poder estar ali com consciência e agência.
Num dos grupos, chamou-me atenção o projeto de uma aluna de criar um clube de leitura. A conversa ia na direção de entender por que as redes sociais viciam e como buscar alternativas para lidar com essa questão. A escola já tinha um clube de leitura, mas ficou evidente que o clube da aluna teve adesão surpreendente. Os participantes revelaram o segredo do sucesso: “precisávamos descobrir qual era o nosso livro, porque não é qualquer livro que prende a atenção”.
A menção à “atenção” levou a algo interessante: “o que atrai seu foco?”. A pergunta encaminhou a conversa para a conclusão de que, sejam os livros – uma aluna relatou que facilmente abre mão da balada sábado à noite para ficar lendo seu romance predileto – ou as redes sociais, os games e artefatos digitais, é preciso entender o que interessa e motiva a curiosidade de cada um, ou seja, o que desperta o desejo de “querer mais”. Para eles, nem sempre é um conteúdo “educativo”ou “informativo”, mas sobretudo algo que fala sobre o que estão experienciando, o que os angustia ou simplesmente os diverte. O que importa e interessa está relacionado ao seu cotidiano, à inserção no grupo ao qual querem pertencer (“preciso saber sobre o que todos estão falando”) e, principalmente, às formas de lidar com o desconhecido e o novo, que, nessa idade, se apresentam a todo instante. Para eles, é importante conversar sobre esses temas, mas, na maior parte das vezes, eles não sentem que seu interesse é levado em conta quando se decide o que é melhor para eles.
Num mundo tão instável como o que vivemos, parece que a atenção das crianças e adolescentes está nas narrativas que os ajudam a lidar com os problemas do seu tempo, na possibilidade de contar histórias sobre o que vivem e o que sonham. A maneira como essas histórias chegam até eles pode variar, mas o fundamental é que, por meio delas, eles se sintam coautores, construindo um sentido. Nas redes ou fora delas, precisamos perguntar-lhes qual é o seu melhor interesse e contemplar esse rol de lugares em que eles escolhem estar com ética, respeito, inteligência e criatividade. A resposta, como vimos, pode não ser tão diferente da nossa; mas fazer a pergunta e ouvir as respostas é o que faz a diferença e estabelece a verdadeira conexão.
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