
Luiz Inácio Lula da Silva lança novo Desenrola Brasil no Palácio do Planalto
O governo federal anunciou na segunda-feira (4) o Novo Desenrola Brasil. O programa permitirá a renegociação de dívidas de cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil). As taxas de juros são de até 1,99%, e os descontos podem chegar a 90%.
A iniciativa é uma resposta do governo ao endividamento das famílias brasileiras, que aumentou nos últimos anos, enquanto o poder de compra diminuiu. A situação, que preocupa a gestão Lula, pode ter papel relevante no pleito de 4 de outubro, quando o atual presidente planeja tentar a reeleição.
Neste texto, o Nexo fala sobre o endividamento dos brasileiros, explica como ele tem afetado a percepção sobre a economia e analisa como isso pode impactar as eleições.
O endividamento dos brasileiros atingiu nível inédito em 2026. Uma pesquisa da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) revelou que, em março, 80,4% das famílias relataram ter dívidas a vencer, como cartão de crédito, carnês de lojas e prestações de carro e casa.
77,1%
foi o endividamento registrado no mesmo mês de 2025. Índice atual supera o anterior, alcançando o maior resultado da série histórica, que começou em 2010
Esse aumento no endividamento afetou, entre março de 2025 e março de 2026, todas as faixas de renda consultadas pela pesquisa, com maior impacto sobre as famílias com renda de até três salários mínimos (82,9%). Aquelas com renda entre cinco e 10 salários também tiveram aumento considerável nas dívidas.
Além do endividamento, há o aumento no número de famílias inadimplentes – ou seja, aquelas com contas em atraso ou dívidas vencidas. De acordo com a CNC, elas eram 29,6% em março — pouco acima dos 28,6% no mesmo mês em 2025.
O cenário do endividamento

A maioria das dívidas mapeadas pela pesquisa tem origem no cartão de crédito. Cerca de 84,9% das famílias endividadas o apontam como causa de seu comprometimento financeiro. Hoje, o rotativo representa uma das linhas de crédito mais caras do mercado.
Outro fator para a alta nas dívidas das famílias é a escalada dos juros. Entre março de 2020 e março de 2026, a taxa Selic foi de 3,75% para 14,50% ao ano. O valor chegou a bater o recorde de 15% em janeiro de 2026.
Para economistas ouvidos pelo Nexo, o alto endividamento se deve a fatores como:
O governo Lula tem apresentado indicadores econômicos positivos. O PIB (Produto Interno Bruto), por exemplo, cresceu acima de 2% durante todo o terceiro mandato do petista.
Evolução nos últimos 10 anos

A inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), foi de 4,14% em março. Apesar de estar acima da meta de 3%, o valor está dentro do intervalo de tolerância — que vai de 1,5% a 4,5% — e abaixo do patamar histórico brasileiro.
Já o desemprego está em 6,1%, a menor taxa já registrada num primeiro trimestre, pouco acima do menor patamar da série histórica.
R$ 1.621
é o valor do salário mínimo
R$ 3.679
é o rendimento médio da população
Apesar disso, pesquisas de opinião mostram que a maioria dos brasileiros desaprova o governo Lula. Levantamento Genial/Quaest divulgado em 15 de abril mostra que a avaliação negativa do presidente era de 42% na época, contra 31% de avaliação positiva e 26%, regular. Apenas 1% não soube responder.
50%
dos entrevistados afirmaram que a situação da economia piorou nos últimos 12 meses
71%
afirmaram que seu poder de compra ficou menor no último ano
O descolamento entre indicadores econômicos positivos e percepção negativa da economia é chamado de vibecession, neologismo que une vibe (sensação) e recession (recessão). O termo foi cunhado em 2022 pela economista Kyla Scanlon para explicar a realidade americana sob o governo de Joe Biden (2021-2025).
Para Bruno Carazza, professor de economia da Fundação Dom Cabral, esse fenômeno tem origem numa combinação de fatores.
“O endividamento retira recursos disponíveis que as pessoas teriam para consumir. Outro fator é o fenômeno das bets, um ralo que drena recursos da economia e das pessoas. Além disso, há o efeito cumulativo da inflação passada [mesmo que a inflação esteja mais baixa, os preços ainda estão altos]”, afirmou ao Nexo.
“Tivemos uma inflação alta e persistente nos últimos anos. Por mais que os índices agora estejam mais civilizados, a sensação que as pessoas têm quando vão aos supermercados é que o custo de vida subiu muito, está muito alto. E isso é verdade. O salário das pessoas proporciona uma menor possibilidade de consumo em função dessa combinação”
Bruno Carazza
professor de economia da Fundação Dom Cabral, em entrevista ao Nexo
Esse fenômeno é chamado pelo termo em inglês affordability, que se refere à capacidade real de uma pessoa arcar com o custo de vida.
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Já para Flávia Bozza Martins, pesquisadora em ciência política do Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o endividamento é um fator relevante sobre a percepção econômica dos brasileiros, mas não explica tudo.
Ela concorda que o alto custo de vida pese no mal-estar, mas também lista as condições de trabalho — muitas vezes precarizadas —, a polarização, a desinformação nas redes sociais e a ideia de parte das pessoas de que os benefícios sociais são direitos adquiridos — ou seja, eles não podem ser retirados, e hoje são considerados insuficientes.
“Há um sentimento de privação relativa, o que gera indisposição com o governo e as instituições ”, disse ao Nexo.
Privação relativa é uma teoria sociológica e psicológica que trata do sentimento de privação de determinados indivíduos ou grupos sociais ao se comparar com outros indivíduos ou grupos. Por exemplo, o brasileiro comum pode se sentir privado de bens e serviços em relação a políticos que têm acesso a diversas benesses ou a influencers que costumam exibir uma vida luxuosa nas redes sociais.
“Isso explica que as pessoas não se sintam suficientemente contempladas pelas políticas públicas do governo”, afirmou Martins.
Para Martins, o voto econômico terá peso na eleição. “[A avaliação negativa] vai pesar. Em geral, a percepção econômica, mais do que a economia em si, está totalmente alinhada à percepção sobre o governo”, disse. Apesar disso, segundo ela, o Executivo tem tempo até a votação para reverter esse quadro.
Lula tem falado sobre o tema com frequência em agendas públicas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi encarregado de buscar uma solução para o endividamento. Diante disso, foi lançado o novo Desenrola.
O programa tem algumas novidades em relação à versão anterior. Uma delas é a possibilidade de as pessoas utilizarem até 20% do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para pagar dívidas. Outro ponto importante é que quem aderir ao programa terá o acesso a plataformas de apostas online bloqueado por um ano.
“É importante observarmos se esse Desenrola vai impactar o dia a dia das pessoas no médio prazo e fazer com que [o brasileiro] atribua responsabilidade [pela superação do endividamento] ao governo e não a si próprio”, disse Martins.
Em 2022, o endividamento das famílias apareceu na campanha eleitoral a partir de discursos do então candidato Ciro Gomes (ex-PDT, hoje PSDB), que prometeu tirar as pessoas do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), com renegociação de dívidas com juros baixos.
Eleito, Lula se inspirou na proposta do adversário. A primeira edição do Desenrola beneficiou 14,8 milhões de pessoas. A avaliação, no entanto, foi de que o programa teve alcance limitado, não atacando as causas estruturais do endividamento.
R$ 53,2 bilhões
em dívidas foram negociados entre julho de 2023 e maio de 2024, no primeiro Desenrola
Com o agravamento do endividamento em 2026, o tema voltou à tona. Pré-candidatos de oposição têm explorado o aumento do custo de vida no Brasil, responsabilizando Lula pela situação das famílias.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, divulgou um vídeo em abril criticando o custo de vida. Para isso, ele usou o trecho de um vídeo capturado em 2021, durante o governo de seu pai, em que pessoas coletavam comida de um caminhão de lixo para comer.
Já o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) disse em entrevista em abril ao canal CNN Brasil que “o desafio número um [do país] é o grau de endividamento da sociedade brasileira”.
Em entrevista ao canal Band no domingo (3), o ex-governador Romeu Zema (Novo-MG) atribuiu a Lula a culpa pelo endividamento. Ele prometeu reduzir a taxa de juros num eventual governo, mas não explicou como o faria.