
Papa Leão 14, durante cerimônia de canonização de Carlos Acuti e Pier Giorgio Frassati, no Vaticano
O papa Leão 14 completa o primeiro ano de pontificado nesta sexta-feira (8). O cardeal Robert Prevost foi escolhido para suceder o papa Francisco, que morreu em 21 de abril de 2025, vítima de um quadro de AVC (acidente vascular cerebral) e insuficiência cardíaca.
Atualmente com 70 anos de idade, Leão 14 é o primeiro papa americano da história. Em seu ano inaugural, o pontífice teve embates com a política de Donald Trump, especialmente em relação ao tratamento dado a imigrantes nos EUA e à atuação em conflitos armados. O líder da Igreja Católica também se posicionou em temas como o uso de inteligência artificial.
Neste texto, o Nexo fala com especialistas sobre os principais pontos do primeiro ano de Leão 14 como líder da Igreja Católica.
A escolha do conclave em eleger Robert Prevost como novo papa foi vista como a adoção de um tom mais moderado e conciliador que Francisco. A liderança carismática e as ações progressistas do pontífice argentino resultaram em resistências de alas da Igreja Católica com um viés mais conservador e focado na liturgia.
De acordo com o vaticanista Filipe Domingues, doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, na Itália, a escolha de um papa depende do contexto sociopolítico mundial. Ele disse ao Nexo que, na eleição de Francisco, em 2013, a Igreja queria transmitir as ideias de reforma clerical e transparência, após denúncias de corrupção e de abuso sexual e de poder acumuladas nas décadas anteriores.
“Quando chega o papa Leão 14, essas reformas já estão em andamento. A eleição [de Prevost] acontece em um contexto de a Igreja querer ser uma voz de estabilidade, porto seguro e autoridade moral”, afirmou Domingues.
Apesar de o atual papa ter uma maior disposição a dialogar com a ala tradicionalista, sua escolha não representa um recuo significativo em relação às propostas de Francisco. “Eu diria que é uma distensão controlada: ele escuta e atende a reivindicações, mas não abre mão do que seriam restrições para os grupos extremistas dentro da Igreja”, afirmou Brenda Carranza, professora do IFCH-Unicamp (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas), ao Nexo.
Para Tabata Tesser, socióloga da religião e pesquisadora visitante do Iser (Instituto de Estudos da Religião), o primeiro ano de Leão 14 demonstrou a continuidade dos ideais de Francisco. “A diferença está mais no estilo pastoral, atuando de forma mais institucional, diplomática e discreta. Mas ele não representa uma restauração conservadora do catolicismo, como foi com Bento 16”, afirmou ao Nexo.
Um exemplo da continuidade da defesa da justiça social veio com a publicação da exortação apostólica “Dilexi Te” (“Eu te amei”, em latim), em 4 de outubro de 2025. Leão 14 destacou que o documento era um complemento do que Francisco estava escrevendo antes de morrer, voltando seu olhar para os mais pobres e os imigrantes.
“Alegro-me em fazer meu este documento – acrescentando algumas reflexões – e em publicá-lo no início do meu pontificado, pois partilho do desejo do meu amado predecessor de que todos os cristãos cheguem a apreciar a estreita ligação entre o amor de Cristo e o seu chamado ao cuidado dos pobres”
Papa Leão 14
em trecho da exortação apostólica ‘Dilexi Te’
O olhar para as populações mais vulneráveis foi um dos motivos por trás de uma das primeiras viagens de Leão 14 como pontífice. O papa visitou Argélia, Angola, Camarões e Guiné Equatorial, sendo que os três últimos destinos africanos têm altas taxas de crescimento da população católica.
A viagem à África também serviu para estreitar relações da Igreja com o continente e enviar uma mensagem de paz aos países.
Apesar de Leão 14 ter herdado a agenda social e religiosa do papa Francisco, Carranza afirmou que será preciso observar as próximas ações do pontífice americano para saber o quanto “ele assume as mudanças significativas dentro do Vaticano, como a presença de mulheres, a economia e a formação do clero”.
Ao longo de seus 12 primeiros meses como papa, Leão 14 já deu indicações importantes sobre essa continuidade. Em fevereiro de 2026, a irmã Simona Brambilla passou a integrar o Dicastério para os Bispos, que aconselha o pontífice.
Brambilla substituiu uma das três mulheres que faziam parte do órgão desde 2022, as primeiras a serem nomeadas para o posto na história. Prevost era prefeito do Dicastério para os Bispos antes de ser papa.
Os discursos do papa no primeiro ano do pontificado foram marcados por apelos pela paz ao redor do mundo. Desde maio de 2025, houve o agravamento da fome em Gaza, quebras de cessar-fogo entre Israel e Hamas, a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã e a continuidade da guerra na Ucrânia.
“Quando tratamos a paz como um ideal distante, deixamos de nos escandalizar quando ela é negada, ou mesmo quando a guerra é travada em seu nome”
Papa Leão 14
em mensagem em 1º de janeiro de 2026
O Vaticano costuma se posicionar de maneira contrária às guerras. Em setembro de 2014, o papa Francisco afirmou que vivíamos uma Terceira Guerra Mundial “travada aos poucos”. “Leão 14 não atua como opositor partidário, mas como uma autoridade religiosa que reivindica paz, dignidade humana e proteção dos mais vulneráveis”, afirmou Tesser.
Em sua mensagem de ano novo, Leão 14 destacou que o gasto militar mundial alcançou um patamar recorde em 2025. O pontífice afirmou que a paz deve ser desarmada e desarmante: “A paz existe; ela deseja habitar em nós. Ela tem o poder suave de iluminar e expandir nossa compreensão; ela resiste e vence a violência”.
US$ 2.887 bilhões
foi o gasto militar mundial em 2025, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo. O valor representou um aumento de 2,9% em relação ao ano anterior
Muitas das falas de Leão 14 se voltaram para Gaza. Ele fez críticas às “punições coletivas” de Israel contra palestinos e o abandono forçado das terras da região.
Desde o início de seu pontificado, Leão 14 deu indícios de que se distanciaria do discurso de Donald Trump, presidente dos EUA. Apesar de ter nascido em Chicago, foi no Peru que Robert Prevost viveu a maior parte de sua trajetória religiosa, marcada pela experiência pastoral.
“Ele mostra que ser dos EUA não significa aderir ao nacionalismo cristão americano. Sua trajetória latino-americana ajuda a sustentar uma visão mais global, menos imperial e mais próxima da Doutrina Social da Igreja”, disse a socióloga da religião Tabata Tesser.
Os EUA têm registrado uma onda conservadora do catolicismo, principalmente entre padres recém-formados, que estão apresentando visões mais tradicionalistas tanto em relação às interpretações litúrgicas quanto em relação à política.
Antes de se tornar papa, Prevost fazia publicações nas redes sociais contrárias à política anti-imigração de Trump. Em abril de 2025, por exemplo, ele repostou em seu perfil no X (antigo Twitter) uma postagem contra a decisão do presidente americano de enviar estrangeiros deportados a prisões de El Salvador.
Em 29 de março, na tradicional missa de Domingo de Ramos – uma semana antes do domingo de Páscoa –, Leão 14 afirmou que Jesus rejeita as orações daqueles que fazem guerra. O discurso ocorreu dias após o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, ter direcionado uma oração aos iranianos, pedindo por uma “violência avassaladora contra aqueles que não merecem misericórdia”.
A escalada da tensão entre as lideranças do Vaticano e dos EUA ocorreu após Trump ameaçar dizimar a população iraniana, em 7 de abril. Em declaração no mesmo dia, Leão 14 pediu por uma paz urgente, dizendo que a ameaça era “inaceitável”.
Trump retrucou Leão 14 na rede social Truth Social no dia 12 de abril, afirmando que Prevost era “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”. O presidente americano também disse que ele deveria “se comportar como papa” e “parar de ceder à esquerda radical”, pois isso estaria “prejudicando a Igreja Católica”.
No mesmo dia, o presidente americano publicou uma imagem gerada por IA com vestes semelhantes às de Jesus Cristo. Após ser acusado de blasfêmia por cardeais americanos, ele apagou a montagem, afirmando que achava se tratar de um médico da Cruz Vermelha.

Imagem gerada por IA de Donald Trump com as vestimentas de Jesus Cristo
Leão 14 não recuou. Em declaração a jornalistas em 13 de abril, disse que não tinha “medo do governo Trump nem de proclamar em voz alta a mensagem do Evangelho, que acredito ser o que estou aqui para fazer”.
“O papa não está aqui em função de nenhum governo, ele tem a sua própria missão, o seu próprio carisma e caráter. Ninguém pode se pautar somente pelas ações de um governo, por mais importante e poderoso que seja. Mas, ao mesmo tempo, ele não se esquiva de responder”, afirmou Domingues.
Na visão de Carranza, os ataques de Trump deram força pública ao pontífice. “Ele estava meio escondido na sua timidez, na sua performance de trabalho nos bastidores. Foi obrigado a se colocar no cenário mundial e angariar, por parte do mundo e da esfera pública, a resposta ao que foi atacado”, disse a professora da Unicamp.
Na terça-feira (5), Trump fez novas acusações contra Leão 14 num programa de rádio dos EUA, alegando que o pontífice apoia que o Irã tenha bombas nucleares – algo nunca dito pelo papa. “Acho que ele está colocando em perigo muitos católicos”, afirmou o presidente americano.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, se encontrou com o papa dois dias depois. De acordo com comunicado do governo americano, a reunião serviu para debater a situação no Oriente Médio e ressaltar “a forte relação entre os Estados Unidos e a Santa Sé e seu compromisso comum com a promoção da paz e da dignidade humana”.
A inteligência artificial apareceu nos discursos de Leão 14 em seu primeiro ano de pontificado. A própria escolha do nome demonstra sua vontade de estar na vanguarda das discussões tecnológicas: Leão 13 (1878-1903) foi responsável por refletir sobre as condições trabalhistas dos operários durante a Revolução Industrial.
“Em nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro de sua doutrina social em resposta a mais uma revolução industrial e aos desenvolvimentos no campo da inteligência artificial, que representam novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”
Papa Leão 14
em reunião com cardeais em maio de 2025
Em carta à Cúpula da Inteligência Artificial para o Bem, realizada em julho de 2025 em Genebra, na Suíça, Leão 14 afirmou que o desenvolvimento da tecnologia “deve andar de mãos dadas com o respeito pelos valores humanos e sociais, a capacidade de julgar com consciência limpa e o crescimento da responsabilidade humana”.
A preocupação ética com o uso da IA é constante em suas declarações. “Leão 14 tem falado sobre inteligência artificial como um grande desafio antropológico, não apenas tecnológico, e tem se dirigido a comunicadores, missionários digitais e influenciadores católicos”, afirmou Tesser. A aproximação da Igreja com as gerações mais jovens também é uma motivação para o enfoque no tema.