Um canto coletivo por uma escola do jeito indígena

“Educação é um direito, mas tem de ser do nosso jeito.” Com frequência, vozes se somam em uníssono em mobilizações para repetir a frase, criada na luta do FNEEI (Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena) para sintetizar a defesa de escolas que respeitem e perpetuem os modos de vida indígenas. Uma educação essencial não só para enfrentar injustiças históricas contra esses povos, mas para apontar caminhos para responder a crises que afetam toda a sociedade, como a climática. Se as possibilidades que emergem dessas experiências têm potencial de beneficiar a todos, a efetivação desse direito, que segue sistematicamente negligenciado, também exige que mais gente se some ao canto coletivo — uma oportunidade especialmente relevante para o investimento social privado.

Historicamente, a educação escolar foi (e, em muitos casos, segue sendo) um espaço de tentativa de apagamento de conhecimentos indígenas, seus vínculos com os territórios, sua espiritualidade e suas línguas. Durante séculos, escolas impuseram a esses povos, por exemplo, a língua portuguesa e o cristianismo. A Constituição de 1988 representou um ponto de virada ao garantir no papel o direito a uma educação escolar que valorize também conhecimentos e práticas tradicionais. Isso inclui aprender línguas maternas, usar materiais próprios, contar com professores indígenas e respeitar os calendários de cada povo, assim como acessar conhecimentos não indígenas.

Fortalecer a educação escolar indígena é proteger ecossistemas dos quais depende o futuro comum

No entanto, muitos dos direitos conquistados não chegaram a se concretizar nos territórios. São poucas as escolas indígenas que realmente possuem a autonomia de definir seus currículos, materiais pedagógicos, horários, entre outros. De acordo com relatório do FNEEI de 2025, cerca de 80% dos professores de escolas indígenas estão em contratos temporários. Apenas 16% das escolas indígenas são de ensino médio, o que força muitas famílias a se deslocarem para buscar estudo, deixando os territórios esvaziados e facilitando invasões. São frequentes os relatos de ausência de infraestrutura e transporte adequados. Há, ainda, casos de racismo, intimidação e bullying com base em identidade étnica, como os de alunos impedidos de entrar em escolas com pinturas tradicionais. 

Esse quadro impede não somente a correção de injustiças históricas, mas também o fortalecimento de um tipo de educação que oferece lições e inspiração para o sistema educacional de maneira mais ampla. Isto é, uma educação que articula práticas pedagógicas e vida comunitária, incorporando dimensões de coletividade e sociobiodiversidade que hoje são tão necessárias.

O movimento focado na educação escolar indígena tem se unido para enfrentar os desafios e teve conquistas significativas nos últimos anos. Em 2025, foi lançada a Política Nacional de Educação Escolar Indígena nos Territórios Etnoeducacionais, com o compromisso do governo de investir R$ 1,17 bilhão para construir 249 novas escolas. No mesmo ano, foi anunciada a Unind (Universidade Federal Indígena), baseada num modelo educacional que fortalece identidades e saberes tradicionais em diálogo com o conhecimento acadêmico não indígena.

A defesa de direitos e a concretização de uma educação mais ligada ao território e às comunidades só é possível com a continuidade da luta de organizações indígenas. Ela depende de financiamento adequado para coletivos, redes, associações e fóruns que lideram essas articulações. No entanto, dados indicam um contraste entre a centralização de recursos filantrópicos na área da educação e a dificuldade de acessar financiamento encontrada por organizações que atuam especificamente no fortalecimento da educação escolar indígena. 

Segundo o Censo do Gife – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, a educação concentrou mais de um terço dos investimentos sociais no Brasil em 2024, liderando com folga os aportes entre todas as áreas temáticas analisadas. No total, somando aqueles que trabalharam com a educação formal com aqueles que atuaram na não formal, 67% dos respondentes empreenderam ou apoiaram iniciativas nessa temática. 

Por outro lado, um estudo recente produzido pelo INPPEI (Instituto Plurinacional de Pesquisadores e Pesquisadoras Indígenas) e pela Imaginable Futures, em parceria com o FNEEI, indicou que nove em cada 10 das organizações que atuam na educação escolar indígena afirmam ter dificuldade de acessar financiamento, e sete em cada 10 operam com menos de R$ 50 mil anuais. O levantamento envolveu 40 organizações, distribuídas em 21 estados e representando mais de 120 povos.  

Há desafios também nos modelos de apoio. A filantropia ainda prioriza projetos pontuais, com foco de curto prazo e execução por intermediários não indígenas. É preciso adaptar práticas para atender a modos de gestão de longo prazo, orientados pelos territórios e saberes indígenas, e com articulação da agenda de educação com outras agendas, principalmente a de defesa dos territórios. 

Se o investimento social privado reconhece a educação como o principal caminho para a construção de um país mais próspero, é fundamental que direcione esse olhar para a educação escolar indígena — não como nicho, mas como uma possibilidade de bem viver coletivo. Fortalecer essas iniciativas é, ao mesmo tempo, garantir a continuidade de saberes ancestrais, a permanência dos povos em seus territórios e a proteção de ecossistemas dos quais depende o futuro comum.

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Dioclécio Mendonça é membro da coordenação executiva do FNEEI (Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena) e professor indígena na Escola Municipal Indígena Saramandaia.

Paulo Shinji Carvalho Yoshimoto coordena o projeto de apoio à educação escolar indígena.

Samuel Emílio é gerente de programas da Imaginable Futures.