Benjamin Clementine traz sua poesia em performance teatral

Um lado, digamos, “menos bom” do excesso de festivais musicais é que algumas atrações muito maravilhosas não têm a atenção que deveriam. Esse é o caso do cantor, pianista, poeta e ator Benjamin Clementine, que se apresenta em 24 de maio no C6 Fest, em São Paulo.

Fosse na virada dos anos 1990 para os 2000, quando a oferta era pouca e a vontade de assistir a coisas incríveis, muita, o show de Benjamin seria celebrado como um acontecimento. Não que ele tenha passado batido. Talvez esteja me antecipando. Ainda faltam três semanas! 

Mas impressiona que, numa busca no Google, apareça um único site, o Music non Stop, com um texto que traz mais que apenas menções ao britânico. Talvez as redes o tenham “bombado”. Ou talvez a cobertura musical esteja mesmo míope. 

Fato é que finalmente teremos a chance de assistir a um dos criadores mais interessantes de sua geração. Para quem não está ligando o nome à obra, Benjamin Clementine é o autor de “Nemesis”, trilha de abertura da série “The Morning Show” (Apple TV). A música, cuja letra desfia um rosário de traições, lembrando à parceira o karma que elas carregam, é uma das faixas de seu primeiro álbum,  “At Least For Now” (2015).

Ao vencer o prêmio mais importante da indústria musical britânica, o Mercury Music Prize, na categoria disco do ano, em 2015, Benjamin projetou-se como um dos mais talentosos artistas da década. Aos 27 anos, se destacou pela poesia de suas composições, o modo incomparável de cantar, a maneira teatral de tocar piano e uma presença majestosa, que o levou a ser comparado a Nina Simone. 

Mas ainda que sua figura remeta aos jazzistas estadunidenses, suas principais referências vêm de expoentes da chanson francesa como Jacques Brel, Léo Ferré e Edith Piaf, além de Erik Satie, que ele ouvia no rádio quando era criança. 

Nada disso interessou muito à mídia quando ele apareceu. Sua biografia, em especial o período em que morou em Paris, foi o que ganhou as manchetes, com chamadas exaltando sua história de superação.

Artista se destacou pela poesia de suas composições, o modo incomparável de cantar, a maneira teatral de tocar piano e uma presença majestosa

Nascido no subúrbio de Londres, numa família de imigrantes ganeses, Benjamin encantou-se pelo piano aos 11 anos, contra a vontade do pai, que apostava numa carreira de advogado para o caçula de cinco filhos. O ambiente da casa foi descrito por ele como extremamente restrito, pautado por dogmas católicos e a proibição de ouvir música popular, uma influência que poderia “corrompê-los”, afirmou Benjamin numa entrevista ao jornal The Guardian.  

“De alguma maneira isso foi bom, porque fui protegido de certas coisas que, de outra forma, poderia ter feito. Lembro claramente do meu pai cortando nossos agasalhos e nossas roupas esportivas com uma tesoura – porque ele não queria que usássemos calças de moletom e moletons com capuz. Ele achava que isso chamaria a atenção da polícia para nós”, disse ele ao jornal. 

Na adolescência, após o divórcio dos pais, Benjamin saiu de casa e se mudou para Paris. Durante quatro anos, viveu em situação de rua, dormiu na cozinha de restaurantes onde trabalhou, dividiu quarto em abrigos públicos e pensões baratas, que pagou com os trocados que ganhava tocando música no metrô. 

Até hoje, existem vídeos das performances de Benjamin nos subterrâneos parisienses, interpretando composições de Jimi Hendrix, Bob Dylan ou Leonard Cohen. O período de precariedade se encerrou após o encontro com o editor de uma gravadora independente, pela qual gravou o EP “Cornerstone”, que traz a música “Adios”, na qual revela os motivos que o levaram a deixar Londres. 

A saga – que ele evita comentar para não ofuscar suas habilidades – foi um preâmbulo para o fenômeno. Após a estreia, Benjamin colaborou com nomes como Damon Albarn, no projeto Gorillaz (na música “Hallellujah Money”), e Charles Aznavour (de quem é fã). É famosa a história de seu encontro com Paul McCartney nos bastidores de um programa de televisão, episódio em que o ex-Beatle o segurou pelo braço e disse que ele tinha de continuar a carreira. 

Benjamin continuou, estendendo sua presença a outras searas da cultura pop, a ponto de pensar em deixar a música. Com participação de Damon Albarn, seu segundo disco, “I Tell a Fly” (2017), mescla referências de ritmos africanos a outros instrumentais, em letras que flertam com o humor e a melancolia. O mais recente, “And I Have Been” (2022), foi uma produção inteiramente independente, feita durante a pandemia de covid-19. De acordo com o artista, esse pode ser seu último trabalho na música.

Isso porque Benjamin se encantou com as possibilidades no audiovisual. Como ator, além de participações em séries televisivas, atuou na nova versão do filme “Duna” (2021), de Denis Villeneuve; no drama de guerra “Blitz” (2024), de Steve MCQueen (disponível na Apple TV); e em “In the Hand of Dante”, filme dirigido por Julian Schnabel, que estreou no Festival de Cinema de Veneza em 2025. 

Na moda, além de editoriais em diversas publicações, Benjamin foi garoto-propaganda da Gucci numa campanha ao lado da ex-mulher – a cantora Florence (também conhecida como Flo Morrissey), com quem formava um casal supercool –, além de ser o rosto da Givenchy Parfums. Benjamin deveria ter feito sua estreia no país em 2017, como atração do Rock in Rio, mas cancelou a participação. Por sorte, os palcos ainda não estão fora de seus planos.