
Estúdio de rádio
A rádio Eldorado vai encerrar as atividades na sexta-feira (15), após quase 70 anos. Fundada em 1958, a emissora paulista se credibilizou pela curadoria musical diversa e pela prestação de serviços. A rádio Bandeirantes, atualmente na frequência 90.9 FM no dial de São Paulo, assumirá o 107.3 FM.
De acordo com o grupo Estado – dono do jornal O Estado de S. Paulo –, o encerramento da Eldorado se deu por mudanças nos hábitos de consumo da audiência e pelo fim da parceria com a Fundação Brasil 2000, detentora da frequência. A marca segue no digital, com a adaptação de programas para formatos ligados a serviços de streaming.
“O crescimento acelerado das plataformas de streaming musical e a transformação no uso dos meios lineares têm impactado de forma estrutural o papel das rádios FM tradicionais”
Grupo Estado
empresa de comunicação, em nota enviada ao jornal Folha de S.Paulo em 23 de abril
Neste texto, o Nexo apresenta a história da Eldorado, explica a decisão pelo encerramento e mostra o momento do rádio brasileiro.
Os irmãos jornalistas Júlio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita abriram a rádio Eldorado em 4 de janeiro de 1958. Ambos eram diretores de O Estado de S. Paulo e pretendiam torná-la uma extensão do jornal.
A emissora estreou no 700 AM e, em 1973, passou a operar também na 92.9 FM. A mudança da Eldorado para a frequência 107.3 FM aconteceu em 2011, com o fim das operações da Brasil 2000, especializada em rock.
De acordo com o cantor e compositor Maurício Pereira, que apresenta o programa “Música falada” na Eldorado, a emissora se caracterizou por ser alternativa e ter uma audiência reduzida, mas cativa. “Ela sempre ofereceu um repertório musical, uma abordagem de cultura e de jornalismo diferentes”, afirmou ao Nexo.
Tradicionalmente, as frequências AM (Amplitude Modulada) eram voltadas para a prestação de serviços e transmissões esportivas, pela menor qualidade de áudio, mas maior alcance. Enquanto isso, o FM (Frequência Modulada), com melhor qualidade de áudio, dedicava-se à programação musical.
A transição das emissoras jornalísticas para o FM se intensificou nos anos 2010, a partir de marcos legais promulgados pelo Ministério das Comunicações.
Luciano Maluly, professor da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), afirmou que a programação musical da rádio Eldorado também ajudou em sua longevidade. “A seleção musical ia desde a MPB [Música Popular Brasileira] a músicas eruditas, ou mesmo pop internacional”, disse ao Nexo.
Entre a década de 1970 e 1980, a Eldorado também teve uma gravadora, com enfoque em música clássica. Além disso, a rádio criou o Prêmio Eldorado de Música em 1985, uma das principais premiações do gênero, que ajudava a revelar novos talentos.
A emissora do grupo Estado trouxe elementos pioneiros ao setor, segundo Marcelo Cardoso, professor e pesquisador de rádio: “No início dos anos 90, a Eldorado FM começou a impor um jornalismo mais participativo, com equipe de repórteres internacionais. Nessa época, isso não era normal”, afirmou ao Nexo. Nomes como o humorista Jô Soares, o jornalista William Bonner e a roteirista Fernanda Young passaram pela emissora.
A Eldorado foi uma das primeiras a ter um repórter a bordo de um helicóptero para dar notícias. Além disso, o engajamento com demandas sociais a credenciou a ser chamada de “rádio cidadã”. A emissora promoveu um abaixo-assinado pela despoluição do rio Tietê, em São Paulo, em 1990 – a iniciativa angariou mais de 1,2 milhão de assinaturas e deu início ao Projeto Tietê, em que o governo estadual se comprometeu a limpar o curso d’água e melhorar o tratamento de esgoto.
A transferência da rádio Eldorado para a frequência 107.3 FM em 2011 aconteceu com o surgimento da rádio Estadão/ESPN, parceria com a emissora esportiva que se desfez em 2012. O grupo Estado manteve até 2017 o dial 92.9 FM.
O fim da operação da Eldorado faz parte de uma mudança de prioridades do grupo Estado, direcionando-se para produtos digitais. Em outubro de 2025, houve a aquisição da NZN, dona de sites de notícias de tecnologia e cultura digital, como o TecMundo e a Voxel. “O foco será na expansão da capacidade de produção de conteúdo audiovisual, na infraestrutura física e na monetização de audiência”, afirmou o conglomerado de mídia em nota à época.
A estrutura da NZN passou a abrigar a gravação de conteúdos audiovisuais do Estadão, como podcasts, vídeos e lives de diferentes editorias do jornal. De acordo com o grupo de comunicação, a manutenção da marca Eldorado continuará nos formatos digitais, com a adaptação de programas de sucesso da emissora, como Som a Pino e Clube do Livro.
Segundo Cardoso, o grupo Estado demorou a adaptar a Eldorado para o formato digital: “As emissoras de rádio estão investindo há muito tempo em podcasts. Elas também deixam os seus produtos nos portais das emissoras de rádio, trabalhando com YouTube e mídias sociais”.
Já para Pereira, a mudança dos programas para o formato de podcast teria o mesmo conteúdo, mas eles não seriam capazes de traduzir a dinâmica da rádio. “Tem essa beleza que é a surpresa do noticiário, um estalo que vem dos apresentadores. O telefone aberto com os ouvintes. Afetivamente, falta a coloquialidade”, disse o compositor e apresentador.
Uma reportagem de 23 de abril da Folha de S.Paulo mostrou que o fator financeiro foi preponderante para a decisão de encerrar a operação da rádio Eldorado. A frequência 107.3 FM é classificada como educativa, o que restringe os investimentos publicitários. Além disso, toda a equipe foi avisada que será demitida.
Segundo relatos anônimos de funcionários da Eldorado à Folha, não havia uma área comercial somente da rádio. Ela era unida à do jornal Estadão – de maior atração publicitária. A direção do grupo também não teria buscado parcerias ou “naming rights” para manter a emissora.
Para Maluly, a decisão de encerrar a Eldorado foi um erro de planejamento e de gestão da comunicação do grupo Estado: “A rádio poderia ter utilizado o conteúdo do próprio jornal e se retroalimentado, ela estaria dentro da redação”. O professor exemplificou com o caso da Rádio USP, em que toda a produção jornalística da universidade está em um único portal.
Com o anúncio do encerramento das operações, a hashtag #NãoÉAlgoritmoÉEldorado começou a circular em publicações nas redes sociais de fãs e de funcionários da rádio, assim como no perfil oficial da rádio. A campanha reforça a curadoria musical da emissora em detrimento das recomendações feitas por inteligência artificial nos serviços de streaming.
“A emissora de rádio tem o fator surpresa, de tocar uma música que o ouvinte não escuta há muito tempo. No outro meio [serviços de streaming], você escolhe o que quer ouvir”, disse Maluly.
Os atores Dan Stulbach e Alessandra Negrini, assim como a cantora Tulipa Ruiz, foram alguns nomes que lamentaram o fim da Eldorado. Petições contra o encerramento das operações da emissora acumularam milhares de assinaturas. Em 3 de maio, uma manifestação com mais de 400 pessoas ocorreu na avenida Paulista.
“O público é muito próximo e dialoga com a Eldorado. A rádio expressa muito dos pensamentos e curiosidades desse público. Acho que por isso houve tamanha comoção”
Maurício Pereira
cantor, compositor e apresentador da Eldorado, em entrevista ao Nexo
Um ato para celebrar as quase sete décadas de histórias da Eldorado está previsto para acontecer no centro de São Paulo no domingo (10). “Aquilo que sempre foi transmitido à distância volta para o encontro físico como celebração”, afirmou a emissora em publicação.
Uma pesquisa de 2025 da Fifty 5 Blue (antiga Kantar Ibope Media) revelou que conteúdos em áudio como um todo têm grande audiência no Brasil. A pesquisa mostrou que nove em cada 10 brasileiros consomem alguma mídia do tipo, como rádio, podcasts e audiolivros. Mesmo com o avanço do streaming, as emissoras de rádio seguem com relevância no cenário nacional.
79%
é o percentual de respondentes que disseram ouvir rádio de maneira recorrente
A média de consumo de rádio pelo brasileiro é de quase quatro horas diárias, segundo a pesquisa. As entrevistas foram feitas em 13 das principais regiões metropolitanas do Brasil.
A edição de 2023 dessa mesma pesquisa detalhou o consumo dos ouvintes de rádio: a maioria (58%) ouve em casa, enquanto 27% afirmaram escutar as emissoras em veículos particulares.
Além disso, o hábito de sintonizar nas frequências AM e FM segue em alta no país: 70% dos respondentes afirmaram consumir rádio dessa forma. O YouTube vem na sequência, com 33% – era possível dar mais de uma resposta.
Maluly afirmou que a convergência entre as mídias foi benéfica para as empresas de rádio. “Muitas emissoras ressurgiram porque conseguiram mais um canal de acesso, inclusive com propagandas sendo vendidas nos dois canais, tanto pelo digital quanto pelo analógico”, disse o professor da USP.
Para 60% dos respondentes, o acesso à informação é um dos principais destaques do rádio. Para Cardoso, as empresas de comunicação precisam resgatar a linguagem do jornalismo para aumentar sua credibilidade.
“Elas precisam explorar um pouco sobre o que levou o rádio a se firmar. A linguagem correta, os efeitos sonoros, a plástica e a estética sonora”, disse o pesquisador.