‘O que faz uma criança ler é o exemplo dos adultos’

A escritora Ana Maria Machado durante a 18ª edição da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, em 2017. Uma mulher de vestido preto está em frente a um púlpito branco

A escritora Ana Maria Machado durante a 18ª edição da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, em 2017

A literatura infantojuvenil está entre os gêneros mais populares do Brasil. De acordo com a mais recente pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, da CBL (Câmara Brasileira de Livros), mais de 31,8 milhões de exemplares de títulos voltados para crianças e adolescentes foram vendidos no país em 2024.  

A escritora Ana Maria Machado é uma das principais autoras do gênero do Brasil. Ativa desde a década de 1970, publicou títulos como “História meio ao contrário” (1978), “Menina bonita do laço de fita” (1986) e a série “Mico Maneco” (1982), que contribuíram para a alfabetização de brasileiros. A obra da carioca também é composta por romances para adultos e ensaios. 

Machado conquistou três prêmios Jabutis ao longo da carreira. Assumiu a presidência da ABL (Academia Brasileira de Letras) no biênio 2012-2013, tornando-se a segunda mulher a ocupar o cargo na história. “A ABL está mais diversa, mas são conquistas lentas”, afirmou. 

A autora estará presente na quinta edição d’A Feira do Livro, festival literário que acontece em São Paulo entre 30 de maio e 7 de junho, com cobertura especial do Nexo. Nesta entrevista, ela fala sobre sua carreira na literatura infantojuvenil e analisa a importância do acesso à leitura.  

Ao mesmo tempo que começou sua carreira na literatura infantojuvenil, a sra. iniciou uma trajetória como pintora, foi exilada pela ditadura militar por sua atuação como professora universitária, trabalhou como jornalista correspondente na França e foi orientanda de Roland Barthes. Por que, no fim, decidiu escrever para crianças?

Ana Maria Machado Publiquei meu primeiro livro infantil [“Bento que Bento é o frade”] no meio dos anos 1970. Mas estava escrevendo para crianças na Recreio desde o fim de 1969, quando a revista estava fazendo o número zero ainda. 

Estava fazendo minha tese de mestrado ao mesmo tempo que era jornalista e dava aula na Escola de Comunicação e na Faculdade de Letras da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. Também estava começando minha pesquisa sobre Guimarães Rosa quando fui para o exílio, em janeiro de 1970. 

A revista Recreio ia começar e procurou autores que pudessem escrever para crianças de uma maneira nova, que não fosse dando aulinha, nem falando bobinho. Quando me contataram, pediram para fazer histórias que não fossem numa linguagem tatibitate [infantilizada].

Eu e outros autores, como Ruth Rocha, entramos na mesma semana para fazer esse projeto. Fomos aprendendo a fazer histórias que não eram numa linguagem boba, que falavam de problemas muito concretos, com muito humor, com muita poesia, nos dirigindo à inteligência da criança.

Foi um sucesso editorial. A revista era vendida em bancas de jornal e chegou a vender 200 mil exemplares por semana. Isso me permitiu uma profissionalização. Eu publicava pelo menos uma história por mês e a Recreio pagava bem, o que me ajudou a sobreviver no exterior.

Enquanto estava no exterior, pude me concentrar na minha tese e, ao mesmo tempo, estar com um filho pequeno. A partir das histórias com ele, fui escrevendo e desenvolvendo uma carreira. 

Em 1972, quando voltei ao Brasil, a editora Abril, que fazia a revista, quis transformar essas histórias infantis em livros. Eu já estava preparada, era só mudar a edição. Em 1977, saiu o primeiro livro infantil. Um ano antes, tinha saído minha tese sobre Guimarães Rosa. 

É mais difícil escrever para adultos ou para crianças?

Ana Maria Machado É difícil fazer bem feito para os dois. Para criança é muito difícil, porque tem uma dificuldade especial, que são as alusões que podemos fazer. A criança tem pouca informação sobre o repertório cultural. E a literatura se faz sempre no diálogo com uma tradição. 

Se faço um livro para crianças em que a palavra mágica do príncipe diz “meu reino por um cavalo”, elas não sabem que estou me referindo a [William] Shakespeare e Ricardo 3º. Então, quando faço o personagem usar essa palavra mágica, digo que ele não sabia, mas ela encantava tudo por anos. Mais tarde, quando a criança encontrar a expressão em Shakespeare, vai fazer essa relação. 

A grande dificuldade de escrever para criança não é só ter uma linguagem inteligente, acessível e humorada. É preciso ter um diálogo com um repertório que é naturalmente mais limitado. Alusões ajudam a compor um tecido literário que se sustenta. 

Quando escrevo para adultos, posso fazer diferentes alusões. Meu primeiro romance se chama “Alice e Ulisses” (1983). É uma história de adultério, um tema clássico da literatura universal. Mas apresento [a personagem] como uma Alice disposta a explorar todas as coisas de um país das maravilhas. Já ele [o outro personagem] é como Ulisses, que entra em todas as aventuras, mas volta para casa porque tem uma Penélope esperando por ele.

Essas alusões a “Alice no País das Maravilhas” e à “Odisseia” de Homero ajudam a compor um romance para adultos. 

Como incutir o hábito da leitura nas crianças?

Ana Maria Machado Como mãe e com a experiência de livreira para crianças, estou convencida de que o que faz uma criança ler é a mesma coisa que a faz não comer com a mão. É o exemplo do que estão fazendo. Se uma criança vê adultos lendo, ela vai ter curiosidade.

Tenho uma neta de 1 ano com uma enorme curiosidade por livros. Tem histórias de que ela gosta mais, que ela prefere. Se o adulto com quem a criança convive está com livros e lê, isso vai fazê-la ler. Se ela nunca vê ninguém mexendo com livros, vai ter muita dificuldade de chegar ali. 

Muitas vezes isso é uma violência social. Pelas circunstâncias socioeconômicas brasileiras, a maioria dos lares brasileiros não tem condições de apresentar livros para crianças. Por isso, a escola tem que fazê-lo. Todas as campanhas do governo têm que ajudar a fornecer livros de qualidade para as escolas e reforçar bibliotecas populares.

Como a sra. vê a política pública de incentivo à leitura no Brasil? O que temos como pontos fortes e fracos?

Ana Maria Machado Acho que [o país] está certíssimo em querer incentivar bibliotecas públicas comunitárias, que são menores, mais modestas e podem atuar nos bairros. 

4.693

era o número de bibliotecas públicas e comunitárias abertas no Brasil em 2025, de acordo com informações confirmadas pelo Ministério da Cultura ao Nexo 

Mas essas bibliotecas têm de ter acervos atualizados e profissionais incentivando e apoiando, que possam orientar sobre o uso dos livros. Elas não podem ser só lugares aonde as pessoas vão para aproveitar a internet grátis, por exemplo. 

Tem de ter apoio, tem de ter permanente atualização e tem de abrir em horários compatíveis com as possibilidades dos frequentadores. Se as bibliotecas fecham no fim da tarde e não abrem no fim de semana, nas horas em que as pessoas têm lazer, não adianta ter.

A sra. é uma das 13 mulheres a ocuparem uma cadeira na Academia Brasileira de Letras na história e foi a segunda a presidir a instituição. Qual é a importância da ABL e como a sra. vê a forma como ela lida com a diversidade hoje?

Ana Maria Machado Quando as pessoas chegam à Academia Brasileira de Letras, elas já estão ligadas à literatura. A ABL não tem que incentivar a literatura, mas defender o que é de qualidade e ter uma atuação institucional que indique ao país como fazer a proteção da cultura brasileira e da língua portuguesa

Ela é uma instituição de consagração, portanto, de indicação do que merece ser visto. É uma vitrine. Ela tem que fazer dicionário, ajudar iniciativas que promovam o contato da população com a literatura. Mas não pode gerar literatura, porque ela não é uma instituição voltada para o ensino nem o apoio à iniciação em literatura.

O conceito de diversidade hoje é diferente do que era quando a ABL foi criada [em 1897]. Como toda instituição, ela reflete sempre a sociedade da sua época. Machado de Assis, que era mestiço, foi seu primeiro presidente e teve Joaquim Nabuco como secretário-geral. Ele foi o autor da Lei Áurea.

A diversidade que ela tinha era a possível, a permitida ou a que refletia a sociedade da época, Um exemplo aconteceu com João do Rio, escritor negro e homossexual [que ocupou uma cadeira na ABL]. Ao mesmo tempo, ela é uma consagração de uma elite, tinha um ar aristocrático, refletindo o fardão [uniforme da ABL], a própria linguagem e o que era a sociedade. 

A sociedade brasileira só consagrava homem, só tinha cargos de chefia para homens. A ABL vai acompanhando as conquistas da sociedade, embora sempre um pouquinho atrás. 

Hoje em dia, a ABL está mais diversa, reconhecendo isso e abrindo espaços, como toda a sociedade brasileira. Mas são conquistas lentas. Somos só 40 cadeiras, e alguém tem que morrer para outros mais diversos entrarem. Faço votos de que sejam bem-vindos e bem-aceitos.

Recentemente, a sra. deu uma entrevista ao jornal Estado de Minas dizendo que os encontros com leitores são “insubstituíveis”. Qual a importância do público na vida e na carreira de uma escritora?

Ana Maria Machado São os leitores que dizem como aquele texto lhe tocou e influenciou sua vida. Às vezes, questionam o destino que damos para certos personagens, revelam como se identificam com uns, não aceitam o que escrevemos para outros e contam de seus problemas. 

Eles fazem uma relação do livro com sua própria vida. Isso alimenta um contato com a realidade. Tenho um livro que publiquei durante a pandemia, “Rastros e riscos” (2021), que são memórias de meus encontros com leitores. 

Isso é muito bom, porque escrever romances ou ficção é muito solitário. Ficamos trancados na frente do computador escrevendo. A chance que temos de conversar com os leitores é nesses encontros. Por isso acho que são insubstituíveis, porque eles nos trazem a possibilidade de observação da realidade.

O que a sra. tem lido ultimamente?

Ana Maria Machado Leio muito e vorazmente tudo. Como estou com 84 anos, releio muitas coisas. Um deles é “Sagarana” (1946), de Guimarães Rosa, que é um autor que conheço muito.

Tenho procurado ler muito a ficção brasileira contemporânea. Tenho lido muito novos autores, romancistas e contistas. Muitas mulheres escrevendo e emergindo. Acho que a voz feminina está muito forte: Micheliny Verunschk, Luciany Aparecida, Eliana Alves Cruz. E os homens também, como Jeferson Tenório

Nem posso nem dizer que são novos, porque vários deles já estão construindo o seu quarto, quinto romance. Eles vêm manifestando uma dicção e construindo uma carreira literária muito interessante. Vejo que estamos vivendo um momento de grande vitalidade nesse setor.