
Trecho do ‘Hino de Caedmon’ digitalizado pela Universidade de Cambridge
Os pesquisadores Elisabetta Magnanti e Mark Faulkner, da universidade Trinity College, em Dublin, divulgaram em abril a descoberta de uma das versões do manuscrito “Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum”, escrito pelo monge Beda, que conta a história da Inglaterra do século 8. O texto contém uma cópia antes considerada perdida do “Hino de Cædmon”, primeiro poema conhecido em língua inglesa.
Teólogo medieval considerado o pai da história inglesa, Beda registrou o “Hino de Cædmon” – originalmente escrito no século 7 – no século 8. Os pesquisadores acreditam que a cópia encontrada agora tenha sido transcrita por um monge no norte da Itália entre 800 e 830 d.C – o que faria dela a terceira versão mais antiga do poema a sobreviver até os dias de hoje.
Neste texto, o Nexo explica a importância do “Hino de Cædmon” e as transformações que o poema documentou sobre a evolução do inglês.
Cædmon, autor do poema, era um pastor inglês que trabalhava no século 7 na Abadia de Whitby, no norte de Yorkshire. Ele recebeu a inspiração para a criação do hino em seus sonhos, quando uma figura lhe pediu para que cantasse sobre a criação divina, segundo Beda.
“Agora, louvemos o guardião do Reino Celestial,
o poder do Criador e os pensamentos de sua mente,
a obra do pai da glória – de todas as maravilhas,
Senhor eterno. Ele estabeleceu um princípio.
Ele primeiro moldou para os filhos dos homens
O céu como um teto, o Criador sagrado;
então o guardião da humanidade na Terra Média,
Senhor eterno, preparado posteriormente
a terra para os homens, o Senhor Todo-Poderoso”
Hino de Cædmon
traduzido do inglês antigo por Roy M. Liuzza
A versão encontrada em Roma é a terceira mais antiga do “Hino” a sobreviver até a atualidade, depois de cópias guardadas em Cambridge e em São Petersburgo.
As outras versões apresentam o poema em latim, com o texto em inglês antigo – o inglês usado no início da Idade Média – aparecendo à margem ou ao final. Já a encontrada em Roma coloca o inglês antigo no corpo principal do texto.
3 milhões
é a quantidade de palavras em inglês antigo que sobreviveram, a maioria presente em textos dos séculos 10 e 11
“O ‘Hino de Cædmon’ nos conecta aos estágios mais antigos da escrita inglesa. Como o poema mais antigo conhecido em inglês antigo, ele é hoje celebrado como o início da literatura inglesa”, disse Faulkner em comunicado à Trinity College.
Magnanti e Faulkner detalharam as descobertas do poema num artigo publicado em 28 de abril na revista científica Early Medieval England and its Neighbours.
No texto, os autores sugerem que, antes de chegar à Itália, o poema passou por regiões mais ao sul da Inglaterra, como o norte da Mércia. Isso é observado na grafia de certas palavras, como a escolha de “a” em vez de “o” em palavras como “and” e “modgeðanc”, uma das características do dialeto da Mércia.
Os pesquisadores também destacam a pontuação do texto. No manuscrito, há um ponto final seguido de um espaço para separar quase todas as palavras, prática desconhecida em qualquer outro manuscrito sobrevivente em inglês antigo, segundo eles.
Isso representa uma inovação da segunda metade do século 8 ou início do século 9, que marca um afastamento da “scriptio continua”, prática antiga de escrever textos sem nenhum espaço entre as palavras.
O fato de o poema em inglês antigo estar no corpo principal mostra o quanto o idioma crescia em importância na Europa do século 9, segundo os pesquisadores.
A “Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum” gerou cerca de 160 cópias. Ao site The Conversation, Magnanti e Faulkner escreveram que é comum que estudiosos se concentrem nas versões mais antigas do texto – provavelmente mais próximas do que o autor original escreveu –, mas que eles gostariam de dar mais atenção a cópias posteriores.
A busca por essas versões fez com que Magnanti localizasse uma cópia do manuscrito na Biblioteca Nacional Central de Roma em fevereiro de 2025. O texto encontrado, até então considerado perdido, foi escrito na Abadia de Nonatola, no norte da Itália, menos de um século após a morte de Beda, em 735.
“Encontrei referências contraditórias sobre a ‘Historia Ecclesiastica’ de Beda em Roma, algumas apontando para sua existência e outras indicando que estava perdida. Quando sua existência foi confirmada pela biblioteca e o manuscrito foi digitalizado para nós, ficamos extremamente entusiasmados ao descobrir que ele continha a versão em inglês antigo do ‘Hino de Cædmon’ inserida no texto em latim”, disse Magnanti à Trinity College.
Segundo a pesquisadora, em meados do século 17, o manuscrito foi transferido da Abadia de Nonatola para a igreja de Santa Croce in Gerusalemme, em Roma. Durante as Guerras Napoleônicas, na década de 1810, o texto foi novamente realocado, desta vez para a igreja romana de San Bernardo alle Terme. Depois, foi roubado junto com outros manuscritos.
O documento reapareceu no acervo particular do colecionador inglês de livros Sir Thomas Phillipps. Após a sua morte, em 1872, ele foi para a coleção do bibliófilo suíço Martin Bodmer. O texto encerrou sua viagem nos anos 1970, quando a biblioteca de Roma comprou o manuscrito.