
Sede da União Europeia, em Bruxelas, na Bélgica
O governo federal disse na quarta-feira (13) que acordou com a União Europeia o envio de informações para reverter o embargo à exportação de produtos de origem animal brasileiros. Segundo o bloco, o Brasil não cumpre as regras sanitárias europeias de controle de antibióticos na pecuária.
O embargo entra em vigor em setembro e veta a venda brasileira de carnes, ovos e mel aos 27 países membros da UE. Para analistas, a medida vai além de questões sanitárias e atende à pressão de agricultores europeus contrários ao acordo comercial com o Mercosul, assinado em janeiro.
Neste texto, o Nexo explica por que o Brasil foi excluído da lista de países autorizados pela UE a exportar produtos de origem animal, quais os interesses em jogo e como o governo brasileiro reagiu à medida. Também conta o histórico de embargos europeus à carne brasileira.
A lista atualizada pela União Europeia na terça-feira (12) reúne países que cumprem um conjunto de regras sanitárias do bloco e tornam-se aptos a seguir exportando produtos e derivados de origem animal aos países europeus.
3 de setembro
é quando começa a valer a lista da UE de países autorizados a exportar produtos de origem animal, utilizada na terça-feira (12)
Segundo a UE, a exclusão do Brasil dessa lista ocorreu porque o país não forneceu garantias de que deixou de usar antimicrobianos durante toda a vida do animal. A decisão tem o aval dos países membros do bloco e, segundo bastidores, foi tomada de forma unânime.
Com isso, exportadores brasileiros não poderão vender produtos como:

Cartela de ovos brancos e vermelhos
Os antimicrobianos são medicamentos usados para prevenção e tratamento de infecções por bactérias, fungos, vírus ou parasitas em animais. Também são usados para melhorar o crescimento e a produtividade na pecuária.
“É para ter um aumento do ganho de peso animal. Ou seja, para que ele produza mais carne, tenha mais condições de produzir mais músculo para ser vendido no mercado consumidor”, explicou ao Nexo o zootecnista José Francisco da Silva Neto, doutorando em zootecnia pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp (Universidade Estadual Paulista).
No entanto, o uso indiscriminado do componente pode prejudicar a saúde humana e incentivar o que a OMS (Organização Mundial da Saúde) classifica como resistência antimicrobiana — quando o microrganismo deixa de responder a antibióticos e outros antimicrobianos, tornando as doenças mais difíceis de tratar.
1,27 milhão
de mortes no mundo ocorrem anualmente devido à resistência antimicrobiana, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde)
Desde 2017, a União Europeia tem investido no mote “One health” (ou “Uma só saúde”) para preservar a saúde das populações humanas com medidas que também incluam a preservação do ambiente e dos animais. Uma delas é a proibição de antimicrobianos como o virginiamicina e a avoparcina, usados na pecuária.
“Nossos agricultores seguem alguns dos padrões de saúde e antimicrobianos mais rigorosos do mundo. Portanto, é legítimo que os produtos importados estejam sujeitos aos mesmos requisitos. A decisão tomada hoje demonstra que o sistema europeu de controle funciona”, declarou na terça (12) o comissário europeu para a Agricultura, Christophe Hansen, segundo a Agence France-Presse.
De acordo com Neto, mercados mais exigentes (como o europeu) têm incentivado o setor agropecuário a procurar alternativas menos prejudiciais aos consumidores, o que inclui aditivos naturais e fitoterápicos, embora seu uso ainda enfrente resistências devido ao custo.
A União Europeia representa o terceiro principal parceiro do Brasil no setor de carnes, atrás dos Estados Unidos e da China. Segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil exportou aos países do bloco cerca de 128 mil toneladas de carne vermelha em 2025. Já o frango foi responsável por 233 mil toneladas de carne branca exportadas naquele ano, como calculou a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal).
US$ 1,048 bilhão
foram arrecadados pelo Brasil em 2025 com a exportação de carne bovina aos países que integram a União Europeia, de acordo com o Ministério da Agricultura
US$ 302 milhões
foram arrecadados com o frango brasileiro exportado à UE, oitava maior compradora do produto, segundo a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal)
A exclusão do Brasil da lista de exportadores à União Europeia ocorre após a entrada em vigor provisória do acordo de livre comércio UE-Mercosul, negociado há 26 anos e assinado em janeiro. O trato busca reduzir ou eliminar tarifas aduaneiras de cerca de 90% dos produtos comercializados de forma imediata ou gradual, a depender do setor.
Setores como o agrícola rechaçam o acordo. A França é um dos países que se opuseram à tratativa, sob o pretexto de que a aliança tornaria produtos sul-americanos mais baratos e abriria margem para concorrência desleal diante da produção interna.
“No fim das contas, o acordo estava servindo bastante como bode expiatório para todas as reclamações dos agricultores europeus. O que eles querem não é apenas a não existência do acordo, mas uma flexibilização das regras, das normas de economia verde, maior acesso ao crédito, com preços melhores, etc.”, disse o pesquisador Gustavo Müller, do Centro de Estudos da Governança Global da Universidade de Leuven (Bélgica), ao Nexo em janeiro.
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Na quarta-feira (13), o colunista da revista Veja Gustavo Junqueira disse que uma associação de agricultores irlandeses visitou quatro estados brasileiros e reuniu produtos agropecuários durante a votação do acordo de livre comércio no Parlamento Europeu. Segundo ele, o material foi transformado num dossiê entregue à Comissão Europeia.
Para Fernanda Brandão, doutora em relações internacionais pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e professora da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, embora a decisão da UE em excluir o Brasil tenha respaldo em normas sanitárias e de saúde pública, ela também pode ser uma resposta às tensões domésticas.
“Pelo histórico da União Europeia, o bloco utiliza muito esse tipo de medida como forma de criar entraves para certos produtos no seu mercado”, disse ao Nexo. “É claro que eles não vão admitir isso de forma explícita, ainda mais dado o contexto de celebração do acordo e da entrada em vigor”, acrescentou.
Na avaliação da professora, a reversão da medida seguirá um processo burocrático, em que recursos diplomáticos serão importantes para assegurar a reabertura do mercado europeu ao setor de proteína animal brasileira.
Uma apuração do canal CNN Brasil mostrou que a União Europeia alertava o Brasil e outros países sobre ações de prevenção à resistência antimicrobiana pelo menos desde 2023. Segundo a reportagem, o Planalto começou a negociar protocolos de qualidade fitossanitários para a venda de proteína animal ao bloco, mas as tratativas não evoluíram.
O governo brasileiro disse que foi pego de surpresa com a exclusão do país pela UE na terça-feira (12), embora tenha confirmado à CNN Brasil que discutia a questão desde o alerta do bloco europeu.
“Fomos surpreendidos. Foi uma antecipação de uma questão que estava sendo debatida tecnicamente”
André de Paula
ministro da Agricultura e Pecuária, em entrevista a jornalistas na quarta-feira (13)
Na quarta-feira (13), o Executivo se articulou em agendas simultâneas para tentar reverter a decisão da União Europeia. Um acordo entre o órgão sanitário europeu e o embaixador brasileiro Pedro Miguel da Costa e Silva definiu que o bloco vai detalhar suas exigências para a importação de carne. Com isso, o Brasil terá 10 dias para informar as garantias adotadas para resolver o impasse.
Outra decisão acordada com a União Europeia foi a de que o bloco vai analisar separadamente cada produto embargado, o que também deve acelerar o processo de revisão dos vetos.
“O Brasil colocou que bons parceiros devem ser tratados como bons parceiros. E isso envolve comunicação, não ser pego de surpresa. Esse é um recado importante”
Luis Rua
secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, em declaração ao site G1 na quarta-feira (13)
Esta não é a primeira vez que europeus embargam a importação de carne brasileira. Pelo menos desde 2005, diferentes motivos levaram países a adotarem a medida.
Naquele ano, um surto de febre aftosa (doença viral altamente contagiosa entre animais) fez a União Europeia embargar a compra de carne brasileira. Na época, o país ainda buscava espaço no mercado europeu, que centralizava suas compras nos EUA.
Em 2008, a UE voltou a suspender a compra de carne do Brasil. O bloco era o principal destino do produto, responsável por 32% das exportações brasileiras de proteína animal. Na época, técnicos europeus visitaram fazendas e alegaram uma série de problemas de rastreabilidade ou monitoramento bovino, o que impediria o cadastro de propriedades no sistema da Comissão Europeia.

Corte de carne vermelha
Para o governo brasileiro, a decisão foi classificada como “desnecessária, desproporcional e injustificada”, já que não foram identificados riscos à saúde humana e animal na visita. Na ocasião, o país cobrou “transparência e previsibilidade” da Comissão Europeia.
Em 2017, o episódio se repetiu como desdobramento da operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal após suspeitas de esquemas fiscais entre produtores rurais e frigoríficos. Com isso, a União Europeia suspendeu a compra de carne de 21 frigoríficos alvos das investigações.