
John Travolta nos bastidores de ‘Propeller One-Way Night Coach’
O filme “Propeller One-Way Night Coach” teve sua primeira exibição no Festival de Cannes nesta sexta-feira (15). É a primeira vez de John Travolta como diretor. O longa é uma adaptação do livro homônimo de 1997, que retrata a paixão do ator pela aviação. Ele estará disponível na Apple TV+ a partir de 29 de maio, com o nome “Aventuras nas alturas”.
A carreira de John Travolta foi marcada por grandes sucessos, como “Grease – Nos tempos da brilhantina” (1978) e “Pulp Fiction – Tempo de violência” (1994), mas também por fracassos como a ficção científica “A reconquista” (2000). O ator tem duas indicações ao Oscar e o mesmo número de estatuetas do Framboesa de Ouro, premiação dada aos piores filmes e intérpretes do ano.
Neste texto, o Nexo mostra os altos e baixos da carreira de John Travolta até virar diretor.
John Travolta nasceu em 1952, em Nova Jersey. “Venho de uma família da classe trabalhadora. Meu pai ganhava a vida fazendo o que amava, mas nunca tivemos muito dinheiro”, afirmou o ator em entrevista à revista Youth Time em 2014. Seu interesse pelas artes cênicas veio da mãe Helen, atriz e professora de teatro.
Travolta atuou em peças escolares na infância e aprendeu sapateado. Ele abandonou os estudos aos 17 anos, quando se mudou para Nova York para tentar a carreira de ator. A partir de então, começou a trabalhar no teatro musical, incluindo um papel menor em “Grease” e em peças da Broadway.
Após pequenas participações em filmes para TV e séries, seu primeiro papel de destaque foi na sitcom “Welcome Back, Kotter” (1975-1979). Travolta interpretava Vinnie Barbarino, líder de um grupo de estudantes em aulas de reforço. Ele também foi o namorado da vilã Chris Hargensen no filme de terror “Carrie, a estranha” (1976).
A ascensão da carreira de Travolta foi em musicais. Em “Os embalos de sábado à noite” (1977), ele interpretou Tony Manero, jovem descendente de italianos do Brooklyn que usa concursos de dança em discotecas como escapismo. A trama foi inspirada numa reportagem de 1976 da New York Magazine sobre a juventude da época – décadas depois, o repórter Nik Cohn confessou ter inventado parte do texto.
US$ 94,2 milhões
foi a arrecadação de “Os embalos de sábado à noite” nos Estados Unidos
“Os embalos de sábado à noite” foi a quarta maior bilheteria dos EUA em 1977, atrás de títulos como “Star Wars: Episódio 4 – Uma nova esperança” e “Contatos imediatos de terceiro grau”. Travolta foi indicado à categoria de Melhor Ator no Oscar de 1978. O filme também ajudou a recolocar em alta a banda Bee Gees, responsável pela trilha sonora.
Em crítica à revista The Hollywood Reporter em 1977, Arthur Knight definiu Travolta “como uma personalidade magnética, cheia de energia, com considerável charme pessoal e um bom senso de realidade”. O ator retornou ao papel de Tony Manero na sequência “Os embalos de sábado continuam” (1983).
Entre os dois filmes, Travolta foi o galã Danny na comédia romântica musical “Grease – Nos tempos da brilhantina”, ao lado de Olivia Newton-John, que interpretou seu par, Sandy. Na trama, que retrata a vida adolescente do fim da década de 1950, eles vivem um romance de férias e passam a estudar na mesma escola, tendo de lidar com a popularidade de Danny e sua repulsa a assumir um relacionamento.
“Grease” foi a maior bilheteria doméstica de 1978, arrecadando US$ 190 milhões nos Estados Unidos. Até 2012, com o lançamento de “Os miseráveis”, o filme havia sido o musical em live-action com maior arrecadação da história do país.
Travolta não teve o mesmo sucesso dos anos 1970 na década seguinte. O ator voltou a contracenar com Newton-John em “Embalos a dois” (1983) e protagonizou como um taxista em “Olha quem está falando” (1984), com Bruce Willis dublando um bebê.
Uma reportagem do jornal Los Angeles Times de 1989 comentou a queda na carreira do artista. No texto, Pat H. Broeske questionou se o ator era um símbolo da década de 1970 e se “foi afetado pelas mudanças de época – e de gosto”.
“Seriam as escolhas cinematográficas – e as decisões de gestão que as levaram a serem tomadas – as culpadas? Será que ele foi prejudicado pelo próprio sucesso, que, por sua vez, transformou cada filme em um ‘evento’? Será que sua ânsia de agradar à imprensa resultou em publicidade indesejada, numa imagem que parecia cada vez mais ridícula? Será que seu público – que incluía muitas adolescentes – cresceu e se distanciou dele?”
Pat H. Broeske
repórter do LA Times, em reportagem sobre a carreira de John Travolta
A volta ao estrelato veio em “Pulp Fiction: Tempos de violência”, de Quentin Tarantino. Travolta interpreta um assassino de aluguel que atua junto de Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) para Marsellus Wallace (Ving Rhames). Algumas de suas cenas se tornaram icônicas na cultura pop, como a dança com Uma Thurman, que interpreta Mia Wallace.
“Pulp Fiction” esteve em sete categorias do Oscar de 1998, vencendo como Melhor Roteiro Original. Uma das indicações foi de Travolta como Melhor Ator – mas o vencedor foi Tom Hanks em “Forrest Gump: O contador de histórias”.
92%
é a porcentagem de avaliações positivas de “Pulp Fiction” no Rotten Tomatoes, site agregador de críticas de cinema e TV
“[Tarantino] meio que reacendeu a ideia de que eu era considerado um ator muito bom”, afirmou Travolta em entrevista à época. Após a parceria, o ator protagonizou produções bem avaliadas, como “Get Shorty” (1995) e “Segredos do poder” (1998).
A carreira de Travolta voltou a declinar quando o ator protagonizou “A reconquista” (2000). A ficção científica se passa no ano 3000, um futuro distópico em que uma raça alienígena domina a Terra por mais de 1.000 anos e a humanidade tenta reavê-la. Para muitos especialistas, o filme é considerado um dos piores da história.
3%
é a porcentagem de avaliações positivas de “A reconquista” no Rotten Tomatoes, site agregador de críticas de cinema e TV
“A reconquista” era um projeto próprio, adaptado de um livro de L. Ron Hubbard, fundador da Igreja da Cientologia, conhecida como “a religião das celebridades”. Criada em 1954, a religião afirma ter técnicas de “aprimoramento pessoal” para a libertação de traumas e a experimentação da realidade. O ator se aproximou dessas ideias após a morte da então namorada Diana Hyland, em 1977.
O excesso de câmera lenta e atuações exageradas estão entre os motivos para a rejeição de “A reconquista”. “Depois de uns 20 minutos desse filme amador, a extinção não parece uma ideia tão ruim assim”, disse o crítico Elvis Mitchell, do jornal The New York Times, sobre o longa.
Com um orçamento entre US$ 65 milhões, “A reconquista” arrecadou cerca de 33% do valor usado na produção nos Estados Unidos. Alguns atores pediram desculpas pelo filme, que venceu sete das nove categorias possíveis da Framboesa de Ouro, incluindo Pior Filme e Pior Ator.
Após o longa, a carreira de Travolta se voltou para filmes de ação, mas com pouco apelo comercial. Alguns dos poucos sucessos desde então foram “Hairspray – Em busca da fama” (2007) e a animação “Bolt – Supercão” (2008), da Disney.
Travolta também precisou lidar com problemas em sua vida pessoal, como a morte de seu filho, Jett, aos 16 anos, em 2009. O adolescente teve uma convulsão em decorrência da síndrome de Kawasaki, uma inflamação dos vasos sanguíneos. Já em 2020, a atriz Kelly Preston, casada com Travolta desde os anos 1990, morreu em decorrência de um câncer de mama.
Em 2012, o ator foi acusado por três homens de abuso sexual. As queixas foram arquivadas após Travolta provar seu álibi.
Apesar dos momentos de baixa em sua carreira, Travolta conquistou o Emmy de 2016 por seu papel como coadjuvante na primeira temporada de “American Crime Story”, que retrata o julgamento do jogador de futebol americano O.J. Simpson. O ator voltou a ser indicado em 2021, como protagonista da minissérie “Die Hart”.
Em 2018, ele foi homenageado no Festival de Cannes em função dos 40 anos de “Grease”. Muitos de seus principais filmes foram lançados no festival de cinema, com “Pulp Fiction” conquistando a Palma de Ouro de 1994.
Nesta sexta (15), Travolta recebeu uma Palma de Ouro honorária por sua carreira.
O retorno do ator a Cannes com “Aventuras nas estrelas” também marca uma homenagem ao seu interesse pela aviação, que surgiu na infância. “Havia várias pessoas interessadas em dirigir e produzir o filme, mas uma parte de mim se perguntava: ‘Será que elas realmente capturariam o que eu vivi quando criança?’”, afirmou à revista Entertainment Weekly em entrevista publicada em 5 de maio.
A trama semibiográfica mostra a viagem de uma criança com sua mãe rumo a Hollywood. A filha de Travolta, Ella, é uma das comissárias de voo no filme. “Quando Ella está em cena neste filme, é como se uma estrela tivesse nascido”, disse o ator e diretor à EW.