As suspeitas de superfaturamento no filme de Bolsonaro

O ator Jim Caviezel como Jair Bolsonaro no cartaz do filme "Dark Horse"

O ator Jim Caviezel como Jair Bolsonaro no cartaz do filme “Dark Horse”

O valor vultoso – de R$ 61 milhões – aportado por Daniel Vorcaro para a produção de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro (PL), chamou atenção nas conversas entre o banqueiro e o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), reveladas na quarta-feira (13) pelo The Intercept Brasil. A promessa do fundador do Master era de ainda mais dinheiro: R$ 134 milhões. 

Além de aportes do banqueiro, o longa pode ter recebido verbas de emendas parlamentares e da prefeitura de São Paulo. Na sexta-feira (15), o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, que relata casos envolvendo emendas, abriu uma investigação sobre o tema. As outras conexões de Vorcaro com autoridades de Brasília estão sob investigação de André Mendonça, relator do caso Master no STF. 

Neste texto, o Nexo fala sobre o filme, elenca suas possíveis fontes de financiamento e apresenta os indícios de superfaturamento.

A produção da cinebiografia

“Dark Horse” trata da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro (PL) em 2018 e revisita a trajetória do ex-presidente da República, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado. 

O longa tem Cyrus Nowrasteh na direção e o ator Jim Caviezel – celebrado pela extrema direita por sua doutrina católica conservadora e associação aos QAnon – no papel de Bolsonaro. O roteirista e produtor-executivo é o deputado federal e ex-ator global Mário Frias (PL-SP), que foi secretário de Cultura na gestão do ex-presidente. 

A produção tem orçamento maior do que sucessos nacionais recentes, como “O agente secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho (R$ 28 milhões), e o premiado no Oscar “Ainda estou aqui” (2024), de Walter Salles (R$ 45 milhões). Também supera produções internacionais que venceram o Oscar de Melhor Filme nos últimos 20 anos

R$ 61 milhões

foi o valor desembolsado por Daniel Vorcaro para ‘Dark Horse’. O total prometido pelo banqueiro foi de R$ 134 milhões, segundo mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil 

R$ 25 milhões

foi o valor do filme ‘Nomadland’, vencedor do Oscar em 2021. Outras 15 produções que ganharam a estatueta nos últimos 20 anos custaram menos do que o filme sobre o ex-presidente 

“Dark Horse” começou a ser desenvolvido em 2023. As filmagens começaram em outubro de 2025, em São Paulo. A previsão de lançamento é no dia 11 de setembro, poucas semanas antes do primeiro turno. 

A data de lançamento pode gerar problemas junto ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que pode entender a veiculação no período pré-eleições como um instrumento de propaganda. Isso ocorreu em 2022, quando a corte suspendeu o lançamento, às vésperas do segundo turno, do documentário “Quem mandou matar Jair Bolsonaro”, da produtora Brasil Paralelo.  A exibição só aconteceu depois do pleito. 

Mesmo com aporte milionário, a produção do longa foi denunciada por condições precárias de trabalho pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo. Segundo relatório ao qual o site G1 teve acesso, figurantes e técnicos relataram alimentação insuficiente para jornadas de trabalho longas, comida estragada, atraso nos pagamentos e revistas abusivas para entrada nas locações. 

O financiamento privado

As respostas de Flávio sobre o pedido de dinheiro a Vorcaro foram marcadas por contradições e versões distintas. Até então, o pré-candidato à Presidência tentava se distanciar de qualquer conexão com o caso Master, declarando que não conhecia o fundador do banco. Ao ser questionado pessoalmente pelo The Intercept Brasil na quarta-feira (13), ele negou ter recebido dinheiro dele. 

“De onde você tirou essa informação? É mentira. [gargalha]. Pelo amor de Deus. Jornalistas, bom trabalho. Militante, aí não dá, cara”

Flávio Bolsonaro

senador e pré-candidato à Presidência, ao ser questionado pelo The Intercept Brasil na quarta-feira (13), antes da revelação de suas mensagens com Vorcaro

Após a publicação da primeira reportagem sobre o caso, Flávio divulgou um vídeo em suas redes sociais admitindo que conhecia Vorcaro, mas que não havia ilegalidade no pedido de financiamento para o filme. 

“É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”

Flávio Bolsonaro

senador e pré-candidato à Presidência, após a publicação da reportagem, na quarta-feira (13)

Segundo o Intercept, pelo menos parte do dinheiro aportado por Vorcaro foi transferido pela Entre Investimentos e Participações – que atuava em parceria com as empresas do banqueiro – para o fundo Havengate Development Fund LP, que fica no estado americano do Texas. 

Um dos controladores do fundo é o advogado brasileiro Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro (PL), deputado cassado e radicado nos EUA desde fevereiro de 2025. O endereço do Havengate Development Fund LP fica no mesmo local do escritório do defensor. 

A conexão levou à suspeita de que o dinheiro de Vorcaro pode ter sido usado para bancar a permanência de Eduardo nos EUA – hipótese sob investigação da Polícia Federal, segundo o blog da jornalista Andréia Sadi, do G1. 

Eduardo Bolsonaro em vídeo que anuncia licença do mandato de deputado federal

Na quarta-feira (13), a Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, disse que não recebeu dinheiro de Vorcaro ou de qualquer empresa ligada ao banqueiro. Mário Frias endossou a informação. Mas, horas depois, tanto a produtora quanto o roteirista voltaram atrás e disseram que parte dos recursos do filme veio da Entre. 

Em entrevista à GloboNews, Flávio disse na quinta-feira (14) que omitiu a sua relação com Vorcaro porque havia um contrato de confidencialidade sobre o financiamento do longa.

“Tenho contrato de confidencialidade. Tô falando isso neste momento porque obviamente isso veio à tona e não tem mais como negar. Por isso eu tô aqui de peito aberto, olhando no olho de todo mundo, para dizer que não tem nada de errado”

Flávio Bolsonaro

em entrevista ao programa Globo News Mais, da GloboNews

Jornalistas do programa questionaram o senador sobre detalhes do contrato, perguntando se ele poderia divulgar o documento. Mas o presidenciável não respondeu diretamente à questão, alegando que a decisão também dependia de outros investidores e do fundo envolvido. 

Flávio também disse que os recursos de Vorcaro foram repassados “integralmente” ao longa – negando, portanto, que parte do dinheiro tenha sido usada para bancar Eduardo – e que, no fim, o banqueiro deixou de “honrar o contrato”, mas “graças a Deus o filme foi concluído. Está ali nos retoques finais, graças a outros investidores”.  

Na sexta-feira (15), o Intercept Brasil publicou uma nova reportagem sobre o caso, com registros de que Eduardo trabalhou como produtor-executivo de “Dark Horse”. Um dia antes, o ex-deputado havia negado qualquer conexão com o longa, dizendo que havia cedido apenas os direitos de imagem.

De acordo com a reportagem, Eduardo assinou digitalmente um contrato com a Go Up Entertainment em janeiro de 2024. O documento dizia que o irmão de Flávio dividia a produção-executiva com Frias, lidando diretamente com o controle de orçamento e a gestão financeira da produção audiovisual. 

O financiamento público

Apesar de Flávio ter dito que não houve a aplicação de recursos públicos no longa, “Dark Horse” também tem elos com emendas parlamentares e com verba da prefeitura de São Paulo. 

“Zero dinheiro público, zero de Lei Rouanet”

Flávio Bolsonaro

senador e pré-candidato à Presidência, após a publicação da primeira reportagem do The Intercept Brasil, na quarta-feira (13)

Segundo o Intercept, a produtora do longa-metragem, a Go Up, tem como sócia-administradora Karina Gama, que também está à frente de outras três pessoas jurídicas: 

Todas as empresas controladas por Gama já foram beneficiadas por verbas públicas via emendas parlamentares, destinadas por deputados bolsonaristas como Mário Frias.  

Apenas em 2024, conforme noticiou o Intercept, a ANC recebeu R$ 2,6 milhões em emendas Pix de parlamentares como Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MS). O objetivo, segundo o site, era produzir uma série documental chamada “Heróis nacionais – Filhos do Brasil que não se rende”, mas o projeto não saiu do papel. 

R$ 2 milhões

foi o valor destinado por Mário Frias em 2025, via emendas parlamentares, ao Instituto Conhecer Brasil, para ‘letramento digital e esporte

Em abril, a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) pediu providências ao Supremo Tribunal Federal sobre o envio de emendas para as entidades ligadas a Gama, sob o argumento de que o fato poderia ser considerado desvio de finalidade na aplicação de recursos públicos. Kicis nega que tenha direcionado dinheiro de emendas ao filme de Bolsonaro. 

Após a publicação das reportagens, Flávio Dino determinou, na sexta-feira (15) a abertura de uma investigação preliminar, que vai tramitar sob sigilo. 

Gama também tem conexões com a prefeitura de São Paulo via Instituto Conhecer Brasil, segundo o Intercept. Em 2024, a entidade venceu uma licitação para fornecer wi-fi em comunidades de baixa renda na capital paulista. 

R$ 108 milhões

foi valor do contrato do Instituto Conhecer Brasil com a prefeitura de São Paulo para o fornecimento de wi-fi. Dos 5.000 pontos acordados, apenas 3.200 foram instalados

Na época, o Instituto Conhecer Brasil foi o único a apresentar proposta. Como não tinha experiência prévia no fornecimento do serviço, o Tribunal de Contas paulistano recomendou que a prefeitura não seguisse com o edital. Mesmo assim, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) decidiu pela contratação. 

Gama afirma que o contrato com a prefeitura é regular e não tem ligação com “Dark Horse”, bem como as emendas parlamentares destinadas às suas empresas. 

O histórico de Flávio

A corrupção é um dos temas que rondam Flávio e sua campanha. 

Antes de se tornar senador pelo Rio, o presidenciável teve quatro mandatos consecutivos na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), onde ficou de 2003 a 2018. No último ano, foi eleito à vaga no Congresso Nacional com 4,3 milhões de votos

Flávio Bolsonaro durante sessão plenária no Senado

Cerca de um mês depois da eleição, veio à tona o caso da “rachadinha”. Na época, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) enviou um relatório de inteligência financeira ao Ministério Público do Rio de Janeiro que indicava movimentações suspeitas de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio – havia suspeita de que parte do salário de outros assessores na Alerj eram devolvidos.

O fato se desdobrou em 2019 e 2020, com Jair Bolsonaro na Presidência da República e Flávio no Senado. Com o passar dos anos, decisões judiciais anularam trechos da investigação por questões como obtenção de provas e irregularidades processuais, e Flávio não foi legalmente responsabilizado. 

Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro arquivou a denúncia. O Ministério Público do Rio recorreu ao Supremo Tribunal Federal para que o caso fosse reaberto, mas o ministro Gilmar Mendes negou o pedido para reabertura em fevereiro de 2025. 

Flávio também foi alvo de investigações de lavagem de dinheiro na ordem de R$ 1,6 milhão numa loja de chocolates da qual foi sócio. 

Segundo o Ministério Público Estadual do Rio, a movimentação em dinheiro vivo na conta da loja não se sustentava a partir do faturamento obtido, e a suspeita era de que o estabelecimento tivesse sido usado para lavar dinheiro do esquema de rachadinha.

Em maio de 2023, a investigação foi arquivada. Flávio sempre negou irregularidades. 

Também pesa sobre o presidenciável a compra de 16 imóveis parcialmente com dinheiro vivo, segundo investigações da jornalista Juliana Dal Piva reveladas em 2022. Um deles foi uma mansão de R$ 5,9 milhões adquirida em 2021. A aquisição contou com um empréstimo de R$ 3,1 milhões via BRB (Banco Regional de Brasília), também envolvido no caso Master.