
Neymar Jr. em partida entre Brasil e Venezuela, pelas Eliminatórias da Copa de 2026, na Arena Pantanal, em Cuiabá
Neymar Jr. está está entre os 26 convocados por Carlo Ancelotti para a disputa da Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México. O anúncio dos nomes que vão representar o Brasil no torneio da Fifa aconteceu no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (18).
A convocação ou não do jogador do Santos para a Copa do Mundo se tornou tema de debate público nas semanas que antecederam a lista final do treinador italiano. O retorno de Neymar ao futebol brasileiro foi um movimento para recuperar a forma física e técnica. A passagem na Vila Belmiro é marcada por lesões, polêmicas e um desempenho oscilante.
Neste texto, o Nexo apresenta os convocados para Copa de 2026, explica a instabilidade do ciclo de preparação da seleção brasileira e de Neymar e mostra como está a passagem do jogador pelo Santos. Além disso, conversa com jornalistas esportivos para entender os motivos para a convocação do craque brasileiro.
Os nomes convocados por Carlo Ancelotti para representar o Brasil na Copa do Mundo de 2026 foram:
Além de Neymar, a convocação do goleiro Weverton, do Grêmio, e do atacante Rayan, do Bournemouth, foram surpresas na lista final. João Pedro, do Chelsea, esteve em muitas convocações de Ancelotti, mas não foi para a lista da Copa do Mundo de 2026.
O Brasil está no grupo C da Copa do Mundo de 2026. A seleção brasileira enfrenta:
Os dois primeiros colocados de cada grupo se classificam para a fase de mata-mata, assim como os oito melhores terceiros colocados. A final da Copa do Mundo de 2026 acontecerá em 19 de julho, no estádio de Nova York/Nova Jersey.
Um dos últimos momentos de brilho de Neymar com a camisa da seleção brasileira aconteceu em 9 de dezembro de 2022, na Copa do Qatar. Já na prorrogação, ele fez um belo gol que abriu o placar na partida contra a Croácia. O Brasil levou o empate e foi eliminado nos pênaltis, nas quartas de final da competição.
Em outubro de 2023, ele sofreu uma ruptura no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo em partida contra o Uruguai, pelas eliminatórias para a Copa de 2026. Neymar ficou mais de um ano sem jogar e, desde então, não esteve mais em campo pelo Brasil. O treinador Dorival Júnior o convocou para a seleção brasileira em março de 2025, mas foi cortado após uma lesão muscular.
O tratamento da lesão aconteceu enquanto Neymar era jogador do Al-Hilal, que havia o contratado dois meses antes do Paris Saint-Germain, da França. Após o tratamento, ele jogou cinco partidas pelo time saudita e novamente se contundiu, em novembro de 2024.
“É um jogador que não deixa dúvidas a ninguém, um jogador top mundial. Mas a verdade é que, fisicamente, ele não tem conseguido acompanhar a equipe”
Jorge Jesus
treinador do Al-Hilal, em entrevista para jornalistas em janeiro de 2025
A instabilidade também marcou o ciclo de preparação da seleção brasileira. O Brasil teve o seu pior pós-Copa já registrado, com cinco derrotas nos nove primeiros jogos. Além disso, 2023 foi a primeira vez em que o Brasil teve três derrotas consecutivas desde 2001 e que perdeu uma partida de eliminatórias para a Copa do Mundo em território nacional, contra a rival Argentina, no Maracanã.
Nos anos seguintes, o Brasil foi eliminado pelo Uruguai nas quartas de final da Copa América de 2025. Apesar da classificação para a Copa do Mundo, foi o pior desempenho da seleção brasileira nas eliminatórias sul-americanas, ficando na quinta colocação.
4 a 1
foi o placar da derrota para a Argentina nas eliminatórias da Copa, em março de 2025. Foi o pior resultado da seleção brasileira no torneio classificatório
O ciclo para a Copa do Mundo também foi marcado pela troca de treinadores da seleção. Antes da chegada de Carlo Ancelotti, Ramón Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior exerceram o cargo.
A vinda de Ancelotti era um desejo antigo do ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Ednaldo Rodrigues. Por isso, Menezes e Diniz treinaram o Brasil interinamente: a intenção era fazer a transição do trabalho para o italiano, que cumpria seu contrato no Real Madrid, da Espanha. O estrangeiro recusou uma primeira investida da seleção – que terminou contratando Dorival Júnior em 2024 –, e assumiria o cargo em maio de 2025.
Não foi só a comissão técnica que trocou de comando. Rodrigues foi destituído da presidência da CBF em dezembro de 2023, após a Justiça identificar erros em sua eleição. Ele foi reconduzido ao cargo no mês seguinte, após liminar concedida pelo ministro Gilmar Mendes, do STF.
O cartola viria a se reeleger em março de 2025, mas foi afastado do cargo dois meses depois após ser acusado de falsificar assinaturas em um acordo que ratificou o resultado da eleição de 2022, quando foi eleito pela primeira vez. Samir Xaud assumiu como presidente da CBF em maio de 2025.
O Santos anunciou o retorno de Neymar em 31 de janeiro de 2025. A equipe do litoral paulista o revelou para o futebol profissional em 2009, e lhe serviu de casa até 2013, quando se transferiu para o Barcelona, da Espanha.
“E só o Santos Futebol Clube pode me proporcionar o carinho que preciso para me preparar para os desafios que tenho nos próximos anos. E todos vocês, independentemente do clube que torcem, sabem bem do que estou falando. Espero que todos me acompanhem nessa nova etapa da minha vida”
Neymar Jr.
jogador de futebol brasileiro, em publicação no Instagram em 30 de janeiro
Neymar estreou em 5 de fevereiro de 2025, em partida contra o Botafogo de Ribeirão Preto, pelo Campeonato Paulista. O primeiro gol veio em seu quarto jogo pelo Santos, contra o Água Santa, de Diadema.
Em um ano e três meses, Neymar esteve em campo pelo Santos em 45 oportunidades, marcando 18 gols – uma média de 0,4 gol por jogo. No mesmo período, o alvinegro praiano fez 79 partidas.
Uma das atuações mais relevantes da atual passagem aconteceu contra o Juventude, pela 37ª rodada do Brasileirão de 2025. Ele marcou três gols no estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul (RS), e ajudou o Santos a fugir do rebaixamento.
56,9%
é a porcentagem de jogos do Santos em que Neymar esteve presente
De acordo com levantamento feito pelo site Globo Esporte, Neymar esteve 158 dias afastado dos jogos do Santos por causa de lesões desde sua reestreia. Ele teve problemas musculares e fez uma cirurgia para correção no menisco do joelho esquerdo em dezembro de 2025.
O jogador também ficou de fora de praticamente todas as partidas do Santos em gramados sintéticos, como no Nubank Parque (antigo Allianz Parque). Neymar é um dos líderes do movimento de atletas contra o piso, que alega que a grama artificial altera a dinâmica do esporte e aumenta o risco de lesões.
A segunda passagem de Neymar pelo Santos é marcada por controvérsias. Entre elas, já discutiu com torcedores do próprio time e de adversários; indignou-se com substituição e se recusou a ficar no banco de reservas; teve uma fala misógina ao dizer que o árbitro “acordou de chico” (uma referência ao ciclo menstrual); e agrediu Robinho Jr., filho do ex-jogador Robinho, durante um treino.
No domingo (17), o jogador se revoltou com a arbitragem ao ser substituído por engano, em partida contra o Coritiba, na Neo Química Arena, em São Paulo. Os paranaenses venceram o jogo por 3 a 0.
Além disso, em meio ao calendário de treinos e jogos, Neymar participou de torneios de pôquer e, mesmo em finais de semana nos quais o Santos jogava (e em que ele estava de fora por lesões), prestigiava seu time na Kings League, uma modalidade gamificada de futebol.
Desde que assumiu o cargo de treinador da seleção brasileira, Ancelotti não havia convocado Neymar. Na convocação para os amistosos contra França e Croácia, em março, o italiano afirmou que o jogador precisava estar 100% para ser convocado para a Copa do Mundo.
Ancelotti passou a ser perguntado rotineiramente sobre as condições de jogo de Neymar e se ele pretendia convocá-lo para a Copa, especialmente após boas partidas do jogador pelo Santos. “Ele [Neymar] teve problemas e está trabalhando duro para se recuperar. Ele melhorou muito recentemente e está jogando regularmente”, afirmou o treinador à agência de notícias Reuters, em 12 de maio.
“Não sofri pressão de ninguém para convocar o Neymar. Tenho total autonomia. A decisão será 100% profissional. Levarei em consideração apenas o seu desempenho como jogador de futebol. Nada mais”
Carlo Ancelotti
treinador da seleção brasileira, em entrevista à Reuters
De acordo com Pedro Ramiro, repórter da TV Record, a convocação de Neymar passa por seu talento e por sua história no futebol. “O que está acontecendo dentro de campo, talvez não o coloque na seleção brasileira. Mas a possibilidade de seleção vem de seu diferencial como atleta”, afirmou ao Nexo.
Bruno Bonsanti, jornalista e um dos integrantes do MeioCampo, podcast especializado em futebol, a justificativa da convocação passa por Neymar ser o jogador brasileiro de maior talento dos últimos 15 anos. “Existe a esperança de que o Neymar seja capaz de resolver uma partida, mesmo que ele entre nos últimos 30 minutos e não esteja em condições físicas plenas. Essa esperança não é totalmente infundada, porque ele fez isso a maior parte da carreira dele”, disse ao Nexo.
A melhor qualidade do elenco da seleção brasileira em relação ao do Santos também é um dos motivos para justificar a convocação: “Atuando ao lado de jogadores em melhores condições pode fazer com que o Neymar potencialize o futebol que a gente sabe que ele tem”, afirmou Ramiro.
Alicia Klein, colunista do UOL, disse ao Nexo que é preciso atenção com os enfrentamentos do Brasil na Copa: “Ao mesmo tempo que ele vai estar, teoricamente, cercado de jogadores melhores do que os que ele tem no Santos, ele também vai enfrentar adversários muito melhores”.
Um dos motivos para a pressão popular para a convocação de Neymar seria a falta de ídolos na seleção brasileira, de acordo com Klein. “Se o Vinícius Júnior tivesse já se alçado a esse patamar, talvez não houvesse uma cobrança muito grande. Se o Brasil for sem o Neymar esse ano, não tem um grande ponto de referência”, afirmou.
Além dos torcedores, os jogadores demonstraram admiração e pediram pela convocação de Neymar. Em entrevista recente, o atacante Raphinha, do Barcelona, afirmou que ele é “o cara do hexa”. Enquanto isso, o atacante João Pedro, do Chelsea – que foi preterido na convocação – colocou-o no mesmo patamar de Lionel Messi.
Para Bonsanti, a escolha de Ancelotti passaria pela percepção de que a presença de Neymar ajudaria no moral do elenco. “Seria benéfica para os outros jogadores em termos de confiança. Talvez o italiano, como um mestre de gestão de vestiário, tenha chegado à conclusão de que o Neymar pode ter esse efeito”, disse o jornalista.
Klein, no entanto, contesta, diante do histórico recente do astro. “Será que, diante de um ambiente tenso como a Copa do Mundo, ele vai se comportar muito bem e ser o líder que a seleção brasileira espera?”, afirmou a colunista do UOL.