O que este estudo diz do desenvolvimento infantil no Brasil

Crianças caminhando em jardim

Crianças caminhando em jardim

As condições socioeconômicas de uma criança impactam sua aprendizagem já na pré-escola. Essa é uma das conclusões de um estudo internacional sobre desenvolvimento infantil divulgado em maio pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), viabilizado pela primeira vez no Brasil pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

O levantamento, chamado em inglês pela sigla IELS (International Early Learning and Child Well-Being Study), avalia três áreas-chave do desenvolvimento de crianças a partir de atividades lúdicas realizadas por alunos de cinco anos matriculados em pré-escolas públicas e privadas do Ceará, do Pará e de São Paulo.

2.598

crianças, distribuídas por 210 escolas, foram ouvidas pelo IELS no Brasil, com apoio de pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Neste texto, o Nexo conta as conclusões do IELS em cada uma das três áreas do desenvolvimento infantil avaliadas, explica como o estudo foi feito e mostra como as desigualdades apareceram nos resultados.

O que o estudo diz sobre aprendizagens fundamentais 

Os pesquisadores do estudo olharam para três áreas consideradas chaves para o desenvolvimento infantil. A primeira delas é formada por aprendizagens fundamentais — habilidades que sustentam a aprendizagem escolar antes mesmo do ensino fundamental, construídas na escola e no ambiente familiar. A área foi medida por dois domínios:

Em literacia, as crianças brasileiras atingiram uma média de 502 pontos, muito próxima ao valor internacional (500 pontos). Os resultados, no entanto, variaram ao se isolar o nível socioeconômico das famílias — alunos mais pobres somaram 487 pontos, enquanto os mais ricos pontuaram 521.

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A discrepância causada pelas desigualdades socioeconômicas ficaram mais evidentes em numeracia, categoria em que o Brasil marcou a média de 456 pontos (ante a média internacional de 500 pontos). Crianças com renda familiar baixa somaram 429 pontos; já as de renda mais alta, 484.

“Um dos principais desafios é ampliar e qualificar as oportunidades de aprendizagem em numeracia, para reduzir desigualdades e fortalecer as trajetórias educacionais desde a primeira infância [período que vai até os 6 anos de idade]”, concluíram os pesquisadores brasileiros do IELS.

O que o estudo diz sobre habilidades socioemocionais 

Os pesquisadores também analisaram as habilidades socioemocionais das crianças, importantes para o engajamento em atividades escolares e em interações com colegas e adultos. Segundo os autores, elas são construídas a partir das relações familiares, escolares, comunitárias e culturais. 

O estudo avaliou a área com base em cinco domínios:

“Competências como autorregulação, empatia e cooperação favorecem processos fundamentais, como a atenção às atividades, a persistência diante de desafios e a qualidade das interações na escola”, afirmaram os pesquisadores no estudo.

491

foi a média de pontuação das crianças brasileiras no indicador de empatia em comparação com a média internacional, de 500

Na comparação por gênero, as meninas pontuaram mais que os meninos em todos os domínios — com maior diferença no comportamento pró-social, ou seja, a capacidade de agir de forma cooperativa, ajudar e compartilhar. Elas alcançaram média de 507 pontos, enquanto eles atingiram 463. 

O padrão também se repetiu em outros países. Para pesquisadores, isso reflete as diferentes formas de desigualdade de gênero da sociedade.

“Os resultados reforçam a importância de práticas pedagógicas que promovam oportunidades para que todas as crianças desenvolvam a capacidade de reconhecer emoções, compreender diferentes perspectivas e lidar de forma construtiva com situações sociais”, afirmaram.

O que o estudo diz sobre funções executivas 

Outra área analisada entre as crianças foi a das funções executivas, um conjunto de habilidades consideradas fundamentais para “tomar decisões com independência e responsabilidade”, como explicado por pesquisadores em texto do Nexo Políticas Públicas.

Três domínios foram monitorados pelos pesquisadores:

Entre eles, a memória de trabalho teve maior discrepância na comparação por renda. “Esse resultado é particularmente relevante, pois a memória de trabalho está diretamente relacionada a diversas atividades escolares”, explicaram os autores brasileiros do IELS.

39 pontos 

foi a diferença entre as médias de memória de trabalho calculadas entre as crianças mais pobres (448) e as mais ricas (487)

“Do ponto de vista pedagógico, os resultados indicam que crianças em contextos socioeconômicos mais vulneráveis podem enfrentar maiores dificuldades em processos cognitivos essenciais à aprendizagem”, acrescentaram.

Qual o papel das desigualdades nos resultados brasileiros

Para Beatriz Abuchaim, doutora em educação pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e gerente de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, o levantamento do IELS conversa com outros dados oficiais brasileiros e evidencia que as desigualdades socioeconômicas do país estão presentes desde o início da vida. 

“Temos cerca de 300 mil crianças que ainda estão fora da pré-escola, com perfil de nível socioeconômico mais baixo. Em geral, são pretas e pardas, filhos de mães mais jovens e com menor escolaridade. É um perfil que de alguma forma está sendo deixado para trás”

Beatriz Abuchaim

doutora em educação pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e gerente de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em entrevista ao Nexo

Além de fazer comparações por país, renda e gênero, o estudo brasileiro do IELS avaliou o desenvolvimento das crianças sob o recorte racial. A decisão contribuiu para que os pesquisadores compreendessem o impacto de desigualdades acumuladas. Meninos pretos, pardos e indígenas mais pobres, por exemplo, enfrentam maiores dificuldades em diferentes domínios.

“Precisamos lembrar que esses meninos, que hoje têm cinco anos de idade, são os que, ao longo da sua trajetória escolar, têm maior probabilidade de reprovar e abandonar a escola”, explicou ao Nexo Tiago Bartholo, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos responsáveis pela aplicação do estudo.

Outros dados do IELS no Brasil mostram os desafios nas rotinas e no ambiente de aprendizagem em casa. “Temos uma janela de oportunidade gigantesca para fazer um debate público transparente e franco sobre a importância da união entre família e escola para a promoção de hábitos mais saudáveis para crianças”, afirmou Bartholo.

53%

das famílias entrevistadas pelo IELS relataram nunca ler para as crianças  ou fazê-lo menos de uma vez por semana

14% 

das famílias participantes do estudo relataram ler para as crianças no mínimo três vezes por semana; na média internacional, o percentual é de 54%

Segundo Abuchaim, o estudo pode indicar caminhos para que o Brasil aperfeiçoe diretrizes e políticas públicas que reduzam as desigualdades e promovam o desenvolvimento infantil. 

Um exemplo seria fortalecer o programa Criança Feliz, que surgiu em 2016 e foi reintitulado como Primeira Infância no Suas (Sistema Único de Assistência Social). Nele, assistentes sociais visitam famílias de baixa renda e monitoram o desenvolvimento infantil — o que pode ser uma oportunidade para orientar cuidadores sobre a importância do vínculo com as crianças.

Como o estudo foi feito

O IELS também foi aplicado na Inglaterra (onde a primeira edição do estudo começou a ser desenvolvida, em 2018), no Azerbaijão, na Bélgica, na China, na Coreia do Sul, nos Emirados Árabes Unidos, na Holanda e em Malta. No Brasil, a aplicação inédita começou em 2022, seguindo etapas.

Bartholo, da UFRJ, disse ao Nexo que a escolha do Ceará, de São Paulo e do Pará para a amostra do estudo buscou ser diversa e levar em conta o papel dos estados e municípios na implementação de políticas municipais de primeira infância.

“Mesmo a pesquisa [brasileira do IELS] sendo concentrada em três estados, ainda assim é o estudo mais robusto e de larga escala que temos no Brasil, o que é um grande farol para pensarmos políticas públicas para a primeira infância”

Tiago Bartholo

professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais, ao Nexo

Abuchaim, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, disse que o estudo já foi apresentado a diferentes pastas do governo federal — que, a partir dos dados, pode direcionar a implementação de novas ações por meio da Política Nacional Integrada da Primeira Infância, instituída em 2025. 

Os resultados das pesquisas também serão detalhados separadamente nos estados participantes, com o fim de subsidiar ações e programas locais voltados ao desenvolvimento infantil.

Pebio-FCMCSV

Este conteúdo é parte da cobertura especial “Primeira infância primeiro”, feita com o apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, organização que atua pela promoção do desenvolvimento pleno de todas as crianças brasileiras e no combate às desigualdades sociais desde o começo da vida.