Nas últimas décadas, o Brasil aumentou expressivamente a participação de mulheres no mercado de trabalho, chegando a 43,4 milhões em 2023, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Esse avanço, no entanto, não se traduziu em representação política equivalente.
O país ocupa a 133ª posição no ranking global de representação parlamentar de mulheres, sendo o pior colocado da América Latina, segundo o mapa Mulheres na Política 2025, produzido pela UIP (União Interparlamentar) e pela ONU Mulheres. Por trás dessa contradição está a distribuição desigual do tempo de cuidado, que define muito antes das urnas quem pode participar da vida pública.
Enquanto o cuidado seguir sendo tratado como responsabilidade privada das mulheres, a participação política delas seguirá limitada. Mais do que um déficit de representação, trata-se de um problema de desenho democrático: restringe quem pode disputar poder e quais experiências chegam aos espaços de decisão.
A economista Claudia Goldin, laureada com o Nobel em 2023, demonstrou que a persistência das desigualdades de gênero no trabalho está menos ligada à discriminação explícita do que à estrutura de ocupações que exigem disponibilidade irrestrita, os chamados greedy jobs (trabalhos gananciosos, em tradução livre). A política é, por excelência, uma delas: reuniões noturnas, agenda imprevisível, presença constante e ininterrupta. A pesquisa internacional sobre child penalty — a penalização econômica e de carreira associada à maternidade — mostra que o nascimento de um filho reduz de forma persistente os rendimentos e as horas dedicadas ao trabalho pelas mães, enquanto os pais praticamente não são afetados.
A ampliação da licença-paternidade de 5 para 20 dias aponta para a necessidade de redistribuir o cuidado também dentro de casa, mas seu impacto depende de mudanças mais profundas nas normas que ainda definem, desde a infância, quem é responsável por cuidar. Na política, esse efeito se amplifica: não há licença-maternidade parlamentar consolidada, não há estrutura de cuidado nas casas legislativas, e a agenda é incompatível com a rotina de quem tem responsabilidade primária por crianças pequenas.
Enquanto o cuidado seguir sendo tratado como responsabilidade privada das mulheres, a participação política delas seguirá limitada
Mas a divisão desigual do trabalho de cuidado entre homens e mulheres não começa na maternidade. Pesquisa recente com dados da PNAD, publicada na Revista Latinoamericana de Población (Jesus et al., 2026), mostra que meninas de 10 a 14 anos no Brasil realizam mais trabalho doméstico e de cuidado do que homens em qualquer faixa etária. Desde cedo é ensinado em casa — e em silêncio — quem vai cuidar e quem vai ter tempo para estudar, trabalhar e se dedicar à carreira. O mesmo estudo revela que mulheres são responsáveis por 79,7% do trabalho de cuidado não remunerado no país, e que mulheres negras, que representam 24% da população brasileira, realizam 44,2% de todo esse trabalho invisibilizado. É sobre esse tempo acumulado desde a infância que se ergue boa parte da sub-representação feminina nas casas legislativas, especialmente de mulheres negras.
Os números eleitorais traduzem essa realidade com precisão. Mulheres representam 35% das candidaturas para vereadora, mas ocupam 18% das cadeiras nas câmaras municipais. Entre mulheres negras, essa proporção de cadeiras ocupadas cai para 7,5%, e em metade dos municípios nenhuma mulher negra foi eleita, segundo dados da Rede A Ponte (2025). Quando chegam, o ambiente que encontram raramente foi desenhado para recebê-las: a violência política, que recai de forma desproporcional sobre mulheres negras, se soma à sobrecarga do cuidado para definir quem consegue permanecer. Ampliar candidaturas sem alterar as condições concretas de permanência no mandato resolve a porta de entrada sem tocar na estrutura que define quem consegue atravessá-la.
Essa estrutura começa nos próprios partidos, que definem quais candidaturas recebem apoio, recursos e espaço nas listas eleitorais – e que acabam reproduzindo a mesma lógica dos greedy jobs: reuniões em horários incompatíveis com quem cuida, redes construídas em espaços historicamente masculinos e processos que favorecem quem tem tempo irrestrito para investir na carreira política.
A literatura sobre parlamentos sensíveis a gênero mostra que transformar presença em influência exige reorganizar as instituições. Em parlamentos da Escócia, Argentina e Portugal, creches e salas de acolhimento já fazem parte da infraestrutura. No Brasil, ainda são tratadas como concessões às mulheres eleitas, quando na verdade são condição mínima para o exercício do mandato em igualdade de condições.
Muito além da educação infantil, a creche é uma questão de quem pode fazer política. Creche não é apenas política para a infância, é infraestrutura democrática. Durante a campanha, mulheres sem rede de apoio familiar ou recursos para pagar por cuidado precisam escolher entre fazer política e garantir que alguém cuide de seus filhos — uma escolha que seus concorrentes homens raramente enfrentam. Para quem já tem mandato, significa conciliar agenda parlamentar com responsabilidade primária por crianças pequenas sem nenhum suporte institucional.
Discutir orçamento para creches, transparência das filas e políticas públicas de cuidado é também discutir quem pode disputar eleições, sustentar mandatos e influenciar decisões públicas. Segundo o Todos Pela Educação, com base na PNAD Contínua, a desigualdade de acesso vem aumentando: em 2024, apenas 30,6% das crianças mais pobres tinham vaga, contra 60% entre as mais ricas. O recorte racial aprofunda o quadro, com crianças não negras tendo acesso à creche em proporção consistentemente maior do que crianças negras em quase todas as regiões do país. Sem creche acessível, a participação política segue sendo um privilégio distribuído de forma desigual, especialmente para mulheres negras.
A Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069/2024) estabelece o cuidado como direito e responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias e sociedade. É um reconhecimento importante, mas que ainda não chegou às instituições onde o problema se manifesta com mais força. O desafio agora é reorganizar essas instituições a partir desse princípio. As câmaras legislativas, que decidem o orçamento público para creches, salas de amamentação e transparência das filas, seguem sendo espaços onde mulheres negras permanecem amplamente ausentes.
Discutir cuidado como política pública não é tratar de um tema à margem da democracia. É enfrentar uma de suas condições centrais de existência. Não há democracia plena quando quem sustenta a vida cotidiana está distante dos espaços de decisão. E não haverá paridade política enquanto o cuidado seguir sendo tratado como destino feminino, e não como questão de poder.
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Amanda de Albuquerque é doutora em economia pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e co-fundadora e diretora executiva da Rede A Ponte.
Thais Ferreira é vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL e mãe de três meninos.