‘Star Wars’: o dinheiro parece não ter fim, mas e o repertório?

Cena de "O Mandaloriano e Grogu" (2026). Um homem vestido com uma armadura está em uma moto, junto com um boneco verde com orelhas grandes

Cena de “O Mandaloriano e Grogu” (2026)

“O Mandaloriano e Grogu” estreou nos cinemas na quinta-feira (21) com recepção mista. O filme é uma sequência das três temporadas da série “The Mandalorian”, do Disney +, que expande a saga “Star Wars” e continua a parceria entre o caçador de recompensas Din Djarin (Pedro Pascal) e o “Baby Yoda”, como o personagem ficou conhecido entre os fãs.

61% 

é a porcentagem de avaliações positivas de “O Mandaloriano e Grogu” (2026) no Rotten Tomatoes, site agregador de críticas de cinema e TV

A recepção a “O Mandaloriano e Grogu” é um exemplo do atual momento de “Star Wars”. Desde que George Lucas vendeu os direitos para a Disney, em 2012, a saga tem tido dificuldades de emplacar sucessos de crítica nas produções para o cinema e para o streaming, apesar de uma arrecadação na casa dos bilhões de dólares.

Neste texto, o Nexo mostra a trajetória do universo Star Wars, explica como a Disney administra a saga e analisa se a fórmula da franquia se esgotou.

O universo ‘Star Wars’ 

O primeiro filme do universo “Star Wars”, “Uma nova esperança”, foi lançado em 1977, inaugurando a saga de George Lucas. O diretor teve aprovação do estúdio Fox para a ficção científica após dirigir o musical “Loucuras de verão” (1973), que obteve cinco indicações ao Oscar e a conquista de Melhor Filme de Comédia ou Musical do Globo de Ouro.

Os três primeiros lançamentos da série – “Uma nova esperança”, “O império contra-ataca” (1980) e “O retorno de Jedi” (1983) – retratam o jovem Luke Skywalker descobrindo ter o poder da Força. Também mostram seus embates com Darth Vader, que descobre ser seu pai, em meio à ofensiva da Aliança Rebelde contra o Império Galáctico.

A segunda trilogia – “A ameaça fantasma” (1999), “O ataque dos clones” (2002) e “A vingança dos Sith” (2005) – é um prequel, ou seja, se passa antes dos acontecimentos dos filmes originais. Ela conta a história de Anakin Skywalker desde a infância e explica como ele se tornou Darth Vader.

Após a venda da produção para a Disney em 2012, veio a trilogia dos anos 2010, formada por “O despertar da Força” (2015), “Os últimos Jedi” (2017) e “A ascensão Skywalker” (2019). O enredo acompanha Rey, uma jovem sensível à Força que se junta à Resistência contra a Primeira Ordem, liderada por Kylo Ren.

US$ 2,06 bilhões

foi a bilheteria mundial de “Star Wars: Episódio 7 – O despertar da Força”, maior arrecadação da história da saga

“Star Wars” também inclui três filmes fora das trilogias. Um deles é “O Mandaloriano e Grogu”, lançado na quinta (21). Os outros dois são “Rogue One” (2016), que conta a história de rebeldes tentando roubar os planos da Estrela da Morte – enredo que dá início a “Uma nova esperança” –, e “Solo” (2018), sobre a história pregressa do caçador de recompensas Han Solo, interpretado por Harrison Ford no início da saga. 

O universo de “Star Wars” não se limita aos cinemas. A história se expandiu para mais de 500 livros, séries, animações, quadrinhos e jogos de videogame

A gestão Disney

“Star Wars” é uma das propriedades intelectuais mais importantes da Disney, empresa que tem os direitos da franquia. A marca está ao lado de títulos como as adaptações da Marvel e as animações da Pixar

A Disney comprou a saga e os direitos de todas as propriedades da Lucasfilm, produtora de George Lucas, por US$ 4 bilhões em 2012. Na época, o cineasta planejava sua aposentadoria, enquanto o estúdio pretendia ampliar o merchandising dos personagens e retomar as produções de “Star Wars”, como forma de atrair um público masculino e de diferentes idades.

Um relatório da SEC (comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos) de março de 2024 mostrou que a saga teve um faturamento de US$ 12 bilhões desde então. O valor considera apenas as bilheterias, excluindo as vendas das histórias derivadas, de brinquedos e de outros tipos de produtos licenciados.

Apesar do sucesso de bilheteria, muitos fãs de “Star Wars” reclamam que a venda para a Disney resultou na perda da qualidade das produções. Desde a aquisição, o estúdio lançou seis filmes e 11 temporadas de séries live-action da saga.

Para Pedro Curi, coordenador do curso de cinema e audiovisual da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), o alto número de lançamentos se deve a uma estratégia da Disney de atrair diferentes públicos. “O sucesso de uma saga é gastar US$ 20 milhões para fazer um filme ou fazer 10 filmes valendo um décimo do valor, que, no somatório, vão ter o mesmo público?”, disse ao Nexo.

Ele exemplificou: “‘Skeleton Crew’ [2024], por exemplo, é uma tentativa da Disney de atrair de novo um público mais jovem. Muita gente reclamava que já não eram mais histórias mitológicas, de guerra e de luta, como ‘The Mandalorian’ [2019-2023]. Para quem reclama da falta de representatividade feminina, temos ‘Ahsoka’ [2023] e ‘The Acolyte’ [2024].”

A estratégia de marketing

A criação de narrativas paralelas não é exclusividade de “Star Wars”. O MCU (sigla em inglês para Universo Compartilhado Marvel) e a DC Comics são exemplos de marcas que usam essa estratégia audiovisual, marcada pelo lançamento de diferentes produções do mesmo universo.

“A Disney percebeu que ‘Star Wars’ era uma marca muito forte, com um universo que poderia ser explorado por muitos públicos. Mas não foi a Disney que a tornou comercial. ‘Star Wars’ é, por princípio, um universo narrativo criado para ser explorado comercialmente”

Pedro Curi

coordenador de cinema e audiovisual da ESPM, em entrevista ao Nexo

O lançamento de filmes e séries faz com que novos produtos de “Star Wars” sejam criados. A venda de brinquedos, por exemplo, é uma das principais fontes de renda da saga desde 1977, sendo responsável, inclusive, pela viabilização da trilogia original.

US$ 1 bilhão

é quanto a Disney arrecada por ano somente em produtos licenciados, como bonecos e sabres de luz de brinquedo, segundo reportagem da revista The Hollywood Reporter de outubro de 2024

Há ainda duas áreas voltadas para a saga “Star Wars” nos parques de diversão da Disney, em Orlando e na Califórnia. 

O possível esgotamento da fórmula

Enquanto a arrecadação de “O despertar da Força” ultrapassou US$ 2 bilhões, o encerramento da última trilogia, “A ascensão Skywalker”, teve pouco mais da metade dessa bilheteria: US$ 1,07 bilhão. Apesar de o valor ainda ser alto, ele ficou atrás dos dois filmes anteriores.

Para efeito de comparação, a franquia “Vingadores” teve um movimento contrário. “Ultimato” (2019), que colocou um ponto final na trama da Marvel até aquele momento – “Vingadores: Doutor Destino” estreia em dezembro de 2026 –, se tornou a maior bilheteria do MCU e a segunda da história do cinema, com quase US$ 2,8 bilhões.

Além de ter registrado arrecadação aquém do esperado, “A ascensão Skywalker” recebeu críticas pelas escolhas de roteiro, como o retorno do Imperador Palpatine e o beijo entre os antagonistas Rey e Kylo Ren. “Em sua ansiedade [do diretor JJ Abrams] para não ofender, o filme se tornou mais uma ‘fanfiction’ (obra escrita por fã) do que uma criação de cineastas profissionais”, afirmou Stephanie Zacharek, da revista Time.

51%

é a porcentagem de críticas positivas de “A ascensão Skywalker” no Rotten Tomatoes. É a pior avaliação entre os filmes da saga “Star Wars”

Em 2018, “Han Solo: Uma História Star Wars” já havia arrecadado US$ 392 milhões. O lucro foi de pouco mais de US$ 100 milhões, uma quantia baixa para o universo de George Lucas.

“Os produtos de nicho não têm o mesmo investimento das obras voltadas para o mainstream. Mas ainda os tratamos como se tivessem o mesmo peso diante da franquia”, afirmou Curi.

A repercussão negativa também atingiu as séries de TV e streaming do universo “Star Wars”. Apesar de elogios a “O Mandaloriano” e “Andor” (2022-atual), títulos como “O livro de Boba Fett” (2021-2022) receberam críticas pela falta de profundidade de enredo e efeitos visuais.

“The Acolyte”, por exemplo, foi cancelada ainda na primeira temporada. O seriado acompanhava uma ex-Padawan (uma aprendiz) se reunindo com seu Mestre Jedi para solucionar crimes. A justificativa da Disney para o encerramento foi que a audiência não foi suficiente para compensar o alto custo da produção.

“Hoje há uma cobrança para essa história se manter no ar o tempo todo — o que impede que as coisas sejam feitas com o cuidado que precisam”, afirmou Curi.

Para o coordenador da ESPM, a quantidade de produções num curto período pode prejudicar o encantamento com “Star Wars”. “Uma das coisas que fez com que a saga se transformasse nesse fenômeno foi o tempo que os fãs tiveram para refletir sobre esse universo”, disse.