A palavra “peptídeo” anda aparecendo com frequência nas redes sociais. Como costuma acontecer com termos científicos que caem no gosto popular, a expressão é real, e a ciência por trás dela é importante, mas seu uso viralizado virou uma mistura de simplificação excessiva e promessa exagerada que caracteriza a pseudociência.
Peptídeos são moléculas formadas por aminoácidos (os “tijolos” que compõem as proteínas) ligados em sequência. Quando temos sequências longas de aminoácidos, que se dobram em estruturas complexas, falamos em proteínas. Quando a sequência é menor, nós as chamamos de peptídeos. Assim como as proteínas, suas estruturas são muito diversas, e suas funções são bastante abrangentes.
Muitos peptídeos são moléculas sinalizadoras: uma célula as produz, elas são transportadas pelo corpo, se ligam a receptores em outras células e alteram seu comportamento. Um exemplo é a insulina, um dipeptídeo (dois peptídeos ligados quimicamente) essencial para controlar a glicose no sangue. A ocitocina, produzida no cérebro e sinalizadora no parto, na lactação e no estabelecimento de vínculo afetivo inicial entre mãe e bebê, também é um peptídeo.
Não há, portanto, nada de místico ou especificamente saudável na palavra “peptídeo”, a despeito de sua fama nas redes sociais
Mas o exemplo provavelmente mais famoso de peptídeos sinalizadores envolve moléculas atualmente usadas no tratamento da obesidade. Medicamentos que imitam a estrutura e ação do GLP-1, um peptídeo produzido pelo intestino, ajudam a regular a sensação de saciedade, limitando a fome. Essas substâncias peptídicas foram estudadas em ensaios clínicos com milhares de pessoas antes de serem aprovadas para suas indicações específicas, para as quais sua segurança e eficácia são bem estabelecidas.
Não há, portanto, nada de místico ou especificamente saudável na palavra “peptídeo”, a despeito de sua fama nas redes sociais. Pelo contrário, existem vários peptídeos que são potentes venenos, como aqueles produzidos por serpentes peçonhentas. Peptídeos são apenas um conjunto grande e diverso de moléculas naturais ou sintetizadas em laboratórios que têm efeitos biológicos tão diversos quanto suas fascinantes estruturas. Não são soluções mágicas.
Mas essa realidade não impede algumas pessoas na internet de usar o termo para tentar vender frascos de conteúdo duvidoso, supostamente para “otimizar” o corpo, no mercado nebuloso associado ao movimento “biohacking” — a perigosa prática de usar pseudociência para supostamente otimizar o próprio corpo. Dentro dessa tendência, com apenas algumas buscas rápidas, encontrei pelo menos meia dúzia de supostos “peptídeos otimizadores” sendo vendidos ou promovidos com promessas miraculosas de regenerar tecidos, aumentar músculos, melhorar o sono, “acelerar a recuperação”, rejuvenescer, “modular hormônios” ou “otimizar a performance”. Não vou mencionar o que são esses peptídeos propagandeados aqui, para não dar forças à pseudociência, mas é óbvio que nenhum deles está sendo aplicado para uso médico comprovado (se estivessem, seriam medicamentos, não produtos comercializados em sites questionáveis). Assustadoramente, existem peptídeos rotulados para uso exclusivo em pesquisa não humana sendo vendidos e usados por pessoas que acreditam nessas promessas.
O movimento “biohacking” costuma fazer uso da teoria conspiratória de que a ciência já sabe como otimizar sua saúde, mas não quer lhe contar. Essa maquinação é extremamente frustrante para uma cientista como eu, pois pesquisadores do mundo todo trabalham muito, justamente para descobrir tratamentos melhores, mais seguros, mais eficazes e mais acessíveis. Quando algo funciona de forma comprovada, queremos que chegue às pessoas, portanto, difundimos esses tratamentos (junto com o conhecimento exato de para que e para quem são úteis). A consequência disso é que a população humana hoje já se “biohackeou” por meio da boa Ciência, tendo melhor expectativa de vida e mais saúde.
Peptídeos são moléculas fascinantes e certamente servem para muitas coisas, dos mais perigosos venenos aos mais modernos tratamentos médicos. Continuaremos, como cientistas, a estudar e conhecer melhor cada um desse vasto conjunto de moléculas. Mas o fato de eles serem interessantes cientificamente não significa que possamos permitir que sejam transformados em modismos. Quando algum deles se provar útil para você, confie na Ciência para lhe avisar e oferecer soluções de forma controlada e segura. Seguir modismos e tentar “hackear” o cuidadoso e comprovado método científico é arriscar sua própria saúde!