Como e por que o Brasil deve aliar economia e ecologia

A economia e a ecologia sempre compartilharam mais do que as origens etimológicas. A interdependência direta e positiva entre economia e meio ambiente tem sido reforçada por obras importantes, como a proposta do economista Robert Costanza sobre capital natural, publicada em 1997, e o livro do economista Partha Dasgupta sobre a economia da biodiversidade, lançado em 2021.

Essa relação também mereceu destaque no último relatório do Fórum Econômico Mundial, que reafirmou como as questões ambientais representam um risco para a estabilidade da economia mundial. Portanto, a importância da ecologia – e, consequentemente, da biodiversidade – extrapolou os debates acadêmicos e unidisciplinares.

Por razões históricas (incluindo as paleoclimáticas e geológicas) e pela grande heterogeneidade ambiental, o Brasil é um dos poucos países com megadiversidade no planeta, e a ecologia é a área do conhecimento com capacidade para entender como essa biodiversidade (fauna e flora) foi gerada, e como elaborar estratégias para sua conservação.

Colocar em prática todo o conhecimento já acumulado pelos pesquisadores brasileiros é o caminho para a melhor gestão dos nossos recursos naturais

Basicamente, a ecologia – por meio de múltiplas abordagens e métodos – estuda a variação espacial e temporal das abundâncias das espécies da fauna e flora. Também estuda a importância dessa variação para os serviços ecossistêmicos e, consequentemente, para o funcionamento dos ecossistemas, o que representa qualidade de vida para nossa sociedade.

A biodiversidade pode, por exemplo, ter um papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas. Esse efeito amenizador pode ser maximizado pelo sequestro e estoque de carbono nas áreas com vegetação nativa e elevada biodiversidade da flora e fauna; e ainda pela restauração com árvores nativas e típicas de cada ecossistema e biodiversidade parecida com a das áreas de referência. Apesar de ser a prática ideal, as restaurações no Brasil não têm sido feitas com alta riqueza de espécies, de modo geral.

Existem algumas iniciativas que têm juntado a economia com a ecologia, entre elas os créditos de carbono. No Brasil, o mercado de carbono começou de forma voluntária, mas foi regulamentado no final de 2024 pela lei 15.042, que deve levar ao crescimento desse mercado nos próximos anos.

Outra iniciativa são os denominados créditos de biodiversidade, que são unicamente comercializados de forma voluntária, e sobre os quais ainda existem dúvidas conceituais e de método de estimativa.

Uma terceira abordagem é o PSA (Pagamento por Serviços Ambientais), que foi regulamentado pela lei 14.119 em 2021. Existem dezenas de projetos de PSA feitos ou em andamento no Brasil, sendo a maioria relacionada aos recursos hídricos. Curiosamente, a biodiversidade – que é nosso destaque como capital natural – não está sendo avaliada nos projetos de PSA.

Existe, no entanto, um nível de conhecimento que aumentou, mas ainda é insuficiente sobre a biodiversidade e processos ecológicos-evolutivos. Um dos gargalos que poderia ser aventado para explicar esta lacuna poderia ser uma suposta baixa capacidade técnico-científica dos pesquisadores brasileiros nessas áreas. Entretanto, existem evidências contrárias a isso. Recentemente foi divulgado um levantamento feito por equipe da Universidade de Stanford sobre os pesquisadores mais influentes do mundo em várias áreas, e 165 nomes do Brasil entraram na categoria “ecologia e evolução”. Além do número expressivo de pesquisadores (maior até do que de alguns países com mais tradição e orçamento para pesquisa), esse levantamento feito em Stanford mostrou que os pesquisadores brasileiros da área de ecologia e evolução conseguiram um destaque que poucos brasileiros de outras áreas alcançaram.

Cabe ainda destacar o periódico brasileiro denominado “Perspectives in Ecology and Conservation, que é uma das três publicações do país com maior índice de impacto, e listada entre as 10 melhores pela indexadora científica internacional “Clarivate”, na área de biodiversidade e conservação. Em resumo, as pesquisas feitas sobre ecologia no Brasil são motivo de orgulho nacional.

Todo este conhecimento acumulado por pesquisadores brasileiros pode – e deve – ser usado para aprimorar a gestão dos nossos recursos naturais. Além dos ganhos mais óbvios já listados acima, a manutenção das florestas e outras vegetações naturais traz ainda a vantagem de reduzir as chances de termos surtos de zoonoses, que são doenças infecciosas da fauna silvestre, tais como febre amarela, gripe aviária, peste bubônica, raiva, covid-19, leishmaniose entre outras. Essas zoonoses podem ser transmissíveis tanto para os seres humanos como para alguns animais de interesse comercial (ex. frango, porco, gado, cavalo), sendo, portanto, um tema de interesse da saúde pública e de importantes setores da economia brasileira, como o agronegócio.

Cabe salientar que a maior parte das zoonoses não afeta os seres humanos, tendo ocorrência restrita às espécies da fauna silvestre que são os vetores (como várias espécies de mosquitos) e seus hospedeiros que são principalmente espécies de morcegos, primatas e roedores silvestres. Contudo, isso não as torna menos perigosas, uma vez que elas também podem ter seus ciclos epidemiológicos modificados em decorrência da degradação ambiental e, consequentemente, causar impactos negativos na saúde humana.

No entanto, temos conhecimento para desenvolver políticas públicas que reduzam os perigos de novos surtos de zoonoses – e isso tem uma importância econômica enorme, já que a prevenção custa 20 vezes menos do que os tratamentos e consequências mais graves que as zoonoses podem causar. Portanto, trata-se de mais uma evidência das vantagens econômicas de se conservar as florestas.

O relatório mais recente da IPBES, plataforma internacional para biodiversidade e serviços ecossistêmicos, destacou a necessidade de pensarmos no nexo entre biodiversidade, segurança alimentar, segurança hídrica e clima, fazendo uma relação clara entre ecologia e economia.

O ponto central é que devemos estruturar um nexo entre economia e ecologia. Colocar em prática todo o conhecimento já acumulado pelos pesquisadores brasileiros é o caminho para a melhor gestão dos nossos recursos naturais, e cuidar do meio ambiente é a melhor forma de assegurar qualidade de vida para nosso povo e ainda alcançar relevância internacional.

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Carlos Eduardo de Viveiros Grelle é professor do Departamento de Ecologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), coordenador do Programa de Pesquisas em Biodiversidade (BioMA) do CNPq/MCTi e pesquisador do Centro de Conhecimento em Biodiversidade INCT/CNPq.