
O casamento de Connie em “O poderoso chefão”
A editora americana Random House anunciou o lançamento de “Connie”, livro que conta os eventos de “O poderoso chefão” sob o ponto de vista de Connie Corleone Rizzi, filha do patriarca Don Vito Corleone. A obra, que será publicada no segundo semestre de 2027, é a primeira da franquia escrita e protagonizada por uma mulher.
“‘Connie’ é um livro sobre como uma mulher trabalha para construir seu próprio caminho num mundo que já decidiu quem ela é, o que ela é e como ela deverá ser tratada”
Adriana Trigiani
autora de “Connie” em anúncio do lançamento
Ao longo das décadas, críticos de cinema e de literatura questionaram em diversas ocasiões o retrato de personagens femininas de “O poderoso chefão”, argumentando que frequentemente elas caem em estereótipos e não têm suas histórias aprofundadas em comparação com seus pares masculinos.
Neste texto, o Nexo mostra de que maneira as personagens femininas foram representadas no livro e nos filmes da franquia “O poderoso chefão”, e como o retrato se compara com o papel de mulheres na máfia da vida real.
O livro “O poderoso chefão” foi lançado em 1969. O escritor americano Mario Puzo, filho de imigrantes ítalo-americanos pobres, havia escrito dois romances antes, sem tanto sucesso comercial.
A obra acompanha a família Corleone, liderada por Don Vito, e a ascensão de Michael, filho de Vito, a chefe de máfia. O livro tornou-se um sucesso de vendas em países como Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha.
Apesar de tratar do mundo da máfia, Puzo era estranho a esse espaço. Em “The Godfather Papers and Other Writings” (“Os documentos do poderoso chefão e outros escritos”), livro de 1972, o autor explica que escreveu “O poderoso chefão” inteiramente baseado em pesquisas. “Nunca conheci um gângster de verdade. Conhecia bem o mundo das apostas, mas só isso.”
A primeira adaptação do livro aos cinemas foi lançada em 1972. “O poderoso chefão” foi dirigido por Francis Coppola, com roteiro de Coppola e de Puzo.
O filme superou o livro em popularidade e aclamação da crítica. O primeiro longa foi classificado como o segundo melhor filme do cinema americano (atrás de “Cidadão Kane”) pelo American Film Institute em 2007.
10
foi a quantidade de indicações ao Oscar que “O poderoso chefão” (1972) recebeu, vencendo três, incluindo Melhor Filme
Continuações foram feitas nos anos seguintes: “O poderoso chefão 2” (1974) e “O poderoso chefão 3” (1990) – este último não obteve a aclamação dos outros longas.
Mario Puzo morreu em 1999. Desde então, os cuidados das obras estão a cargo do espólio.
Nos dois primeiros longas-metragens, Kay Adams e Connie Corleone são as principais personagens femininas.
Kay (Diane Keaton) começa “O poderoso chefão” como namorada de Michael e termina como sua esposa. Já Connie (Talia Shire) se casa no início da obra com Carlo Rizzi, numa união que se prova turbulenta e gera problemas para a família Corleone.

A atriz Diane Keaton em ‘O poderoso chefão’
Em 2020, o jornalista Jonathan Freedland afirmou que uma das maiores falhas do livro é a misoginia. “Nenhuma das mulheres nessas páginas é apresentada em três dimensões: elas são estrelas em ascensão ou mães, uma gatinha sexy muda ou uma noiva apaixonada e infinitamente indulgente”, escreveu Freedland ao jornal The Guardian.
Em 1997, a crítica de cinema americana Molly Haskell escreveu ao jornal The New York Times sobre como as personagens femininas são construídas em “O poderoso chefão” e como a masculinidade aparece nos longas.
“Os Corleones são tão idealizados quanto os gregos na ‘Ilíada’ de Homero, com destaque à bravura masculina, à honra e ao poder encantador de um sobrenome. Os homens são soldados e capitães em uma guerra contínua, enquanto as mulheres continuam em casa, tornam-se mães e viúvas enlutadas, enterram e lamentam. E se ressentem”, escreveu Haskell.
Por outro lado, Nicholas Barber, crítico de cinema, disse em 2022 que “O poderoso chefão” de Coppola não é uma homenagem ao “chauvinismo masculino”, mas uma crítica a ele.
“Coppola rejeita a ideia de que as mulheres da máfia da metade do século 20 eram namoradas armadas, ‘femme fatales’ ardilosas ou matriarcas adoradas por uma multidão de filhinhos da mamãe. Em vez disso, ele insiste, era mais provável que elas fossem deixadas de lado por seus homens machistas, que estavam mergulhados em sangue e traição”, escreveu Barber à BBC.
Para ele, também há diferenças na maneira como Puzo e Coppola representam as mulheres. Enquanto no livro a personagem Kay está disposta a aceitar sua posição na família, como esposa de um chefe do crime, o diretor apresenta outra visão: a de que isso é uma imposição, já que ser um líder da máfia significa estar isolado da influência feminina.
Ao site Screen Rant, o jornalista Guy Howie escreveu em 2025 que as mulheres têm pouca representatividade nos dois primeiros filmes, mas que isso muda no terceiro. Kay, Connie e Mary, filha de Michael, têm papéis de destaque e são apresentadas como personagens importantes para a trama.
Felia Allum, cientista política e pesquisadora da presença feminina na máfia, escreveu ao site The Conversation em 2018 sobre como as personagens de “O poderoso chefão” são vistas como não combativas, ficando protegidas quando as gangues vão à guerra e escondidas de todas as atividades criminosas e decisões.
“Mas, na vida real, as mulheres da família dos mafiosos não vivem em completa ignorância – elas convivem diariamente com a atividade criminosa, e acreditar que [elas] não sabem o que acontece é ingenuidade”, disse Allum.
No livro “The Godmother: Murder, Vengeance, and the Bloody Struggle of Mafia Women”, de 2022, a jornalista americana Barbie Latza Nadeau aborda os papéis que as mulheres exercem na máfia. Em entrevista ao site da rede americana de televisão Arts & Entertainment, Nadeau afirmou que as mulheres passaram a assumir papéis de destaque no crime organizado nos anos 1990, quando cada vez mais homens passaram a ser presos.
“Se você é um jovem tentando ascender na hierarquia de uma organização criminosa, precisa seguir certos passos. Para uma mulher, se o marido ou irmão está morto ou preso, ela é a herdeira da família por ser o membro de mais alta posição. Se ela recebe o mesmo respeito, é difícil saber”, disse a escritora.
Ao longo dos anos, alguns filmes, livros e séries sobre a máfia escolheram dar mais destaque às personagens femininas.
Há personagens que participam ativamente da máfia, como Ginger McKenna em “Cassino” (1995), de Martin Scorsese, ou as protagonistas Kathy, Ruby e Claire em “Rainhas do crime” (2019), de Andrea Berloff.
Anthony Puzo, filho do autor de “O poderoso chefão”, disse em anúncio sobre o novo livro que o objetivo da obra era contar a história sob uma nova perspectiva.
“Adriana [Trigiani, autora de ‘Connie’] ficou chocada quando eu contei a ela que o personagem de Vito Corleone era inspirado em minha avó. Nós conversamos sobre como as mulheres geriam nossas famílias, mas por trás das cenas”, afirmou Puzo.
Autora de 21 livros de não ficção e ficção, Adriana Trigiani retrata em suas obras as experiências de famílias ítalo-americanas e o papel das mulheres dentro de estruturas familiares tradicionais.