Nas mensagens de Trump, as bravatas vêm folheadas a ouro

Depois de enviuvar pela quarta vez, Bess de Hardwick, condessa de Shrewsbury, tornou-se a mulher mais rica da Inglaterra; só ficava atrás da rainha Elizabeth 1ª. Estamos aí por 1590. Era o momento de construir um novo e espetacular palácio.

A condessa não se contentou com a pura grandiosidade do edifício. Enfeitou seu topo com as próprias iniciais esculpidas em pedra. Vê-se um “ES” (Elizabeth de Shrewsbury), vazado dentro de uma moldura de brasão e coroinha, no cimo de cada torre do palácio. 

Não havia, naqueles tempos, nenhum escrúpulo puritano. A ostentação era natural, e provavelmente inevitável. O hábito de esbanjar dinheiro raras vezes foi reprimido. 

Mas os tempos evoluem. Era frequente que reis e imperadores (penso em Napoleão Bonaparte, por exemplo) erigissem estátuas e monumentos para si mesmos. Imagino, contudo, que mesmo os bilionários do Vale do Silício hesitem em colocar a própria efígie no casco de seus iates ou na fuselagem de seus foguetes.

Nesse ponto, Donald Trump é uma exceção. Ele personaliza ao máximo o seu poder, e não foi preciso que se tornasse presidente dos Estados Unidos para que seu nome, em letras de ouro, fosse inscrito em cada empreendimento imobiliário que tivesse construído.

É curioso o estilo das mensagens de Trump nas redes sociais. Ele distribui letras maiúsculas por onde bem entende. “Estamos próximos de um Acordo que irá finalmente trazer a Paz entre Israelenses e Palestinos.” “Meu próximo Bombardeio irá OBLITERAR toda aquela Civilização se o Regime do Irã não concordar com os Termos do Entendimento que estou negociando etc. etc.”

Trump produz ilusão da permanência num post que será esquecido um ou dois dias depois. É a colunata romana na frente de um cassino de Las Vegas

Os comentários que procurei na internet dizem apenas que esse cacoete estilístico funciona como uma maneira de enfatizar uma ou outra palavra no discurso. Mas a questão, provavelmente, não é de ênfase, mas sim de uma espécie de Solenidade Fake. A mensagenzinha impulsiva, a bravata de um dia, surge entretanto cercada de uma Autoridade Bíblica, de um Oficialismo Imperial.

Por menos que Trump seja letrado, é possível que ele tenha se inspirado nas convenções de escrita vigentes nos séculos 17 e 18. A própria Constituição americana, escrita em 1787, usa maiúsculas sem grande preocupação com a coerência.

Eis o seu preâmbulo, no original: “We the People of the United States, in Order to form a more perfect Union, establish Justice, insure domestic Tranquility, provide for the common defense, promote the general Welfare, and secure the Blessings of Liberty to ourselves and our Posterity, do ordain and establish this Constitution for the United States of America”.

“Justiça” e “Posteridade” levam maiúsculas, mas “Defesa Comum”, por algum motivo, não. Embora o texto seja obviamente republicano, e nesse sentido moderno, não tenho dúvidas de que o uso das maiúsculas provém de uma visão de mundo associada à pompa monárquica e ao senso do sagrado. 

Não por acaso, os edifícios públicos de Washington foram desenhados conforme um padrão neoclássico. Ainda hoje, textos religiosos usam maiúsculas para os pronomes que se referem a Deus. É tempo de louvá-Lo. Mas a regra de algumas décadas vai perdendo validade, acho. 

O emprego “trumpiano” de maiúsculas foi sendo abandonado aos poucos, nas primeiras décadas do século 19. Teve o destino das perucas empoadas, dos sapatos de salto alto para homens, dos mantos de arminho e dos cetros de ouro.

Não é preciso estar familiarizado com os escritos de Pope, de Addison ou de Steele para adotar, como eles faziam há 300 anos, a Caixa Alta em cada Substantivo. Mas imagino que o sistema combine com uma mentalidade pré-Revolução Francesa, adepta de um tradicionalismo fundado em verdades definitivas, a serem enunciadas com a voz da autoridade. Até o fato de que o uso das maiúsculas não segue uma regra clara parece indicar uma inclinação para o arbítrio, para a decisão injustificada.

É a ilusão da permanência num post que será esquecido um ou dois dias depois. São as letras de ouro na fachada de um prédio de plástico. É a colunata romana na frente de um cassino de Las Vegas. Trump não usa as perucas de Carlos 1º ou de Luís 16. Contenta-se, por enquanto, com um topete folheado a ouro, e continua levando a cabeça, que não pesa muito, bem presa ao seu pescoço.