As mais de 9.500 pessoas desalojadas ou desabrigadas após as chuvas em Pernambuco no começo de maio de 2026 mostram, mais uma vez, como os efeitos das mudanças climáticas estão provocando um fenômeno cada vez mais frequente no Brasil e no mundo: a mobilidade humana impulsionada por fatores ambientais. À medida que eventos extremos se intensificam, comunidades inteiras são obrigadas a abandonar temporária ou definitivamente seus territórios, muitas vezes de forma abrupta e sem condições adequadas de reassentamento.
A mudança do clima não é uma tendência passageira e as políticas de adaptação precisam considerar de forma transversal o deslocamento de populações. Eventos recentes evidenciam a urgência de incorporar a migração climática a esse debate.
Em 2024, por exemplo, as enchentes no estado do Rio Grande do Sul provocaram cerca de 775 mil deslocamentos, no maior episódio do tipo já registrado no país. No mesmo ano, a seca extrema levou aproximadamente 35 mil pessoas a deixarem suas casas no estado do Amazonas, enquanto incêndios florestais no Pará provocaram cerca de 10 mil novos deslocamentos.
Políticas de adaptação que integrem Soluções Baseadas na Natureza ajudam a tornar os territórios mais resilientes. Isso permite que comunidades possam continuar vivendo, produzindo e gerando renda
De acordo com o Atlas Digital de Desastres no Brasil, o país acumulou, nos últimos 25 anos, mais de 10 milhões de deslocamentos internos provocados por desastres, incluindo eventos climáticos extremos.
Quando comunidades são obrigadas a abandonar seus territórios, os impactos vão muito além da emergência humanitária. A conta inclui reconstrução de cidades, recuperação de estradas, recomposição de serviços públicos e perda de atividades econômicas locais. Além de uma questão humanitária, os desafios relacionados aos fatores adversos da migração também representam um impacto econômico relevante. O Relatório de Riscos Globais 2026, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, aponta os deslocamentos forçados entre os dez principais riscos à economia mundial no curto prazo, considerando os próximos dois anos. Os eventos climáticos extremos também fazem parte dessa lista.
É nesse ponto que ganham relevância as Soluções Baseadas na Natureza (SBN). Diante da nova realidade climática, a adaptação e a busca por respostas para os desafios relacionados à mobilidade humana devem se tornar prioridade para os gestores públicos, especialmente no nível local.
Mais do que iniciativas ambientais, as SBN representam uma forma inteligente de investimento público. Ao restaurar manguezais, recuperar florestas, proteger recifes de coral ou ampliar áreas verdes urbanas, aumentando a proteção costeira e a permeabilidade e infiltração da água no solo, governos podem reduzir gastos com respostas emergenciais e reconstrução de infraestrutura após desastres climáticos. Trata-se de uma estratégia de adaptação que combina proteção ambiental, eficiência econômica e responsabilidade fiscal.
Ecossistemas conservados funcionam, na prática, como infraestrutura natural de proteção. Recifes de coral, por exemplo, atuam como barreiras contra a força das ondas e tempestades, oferecendo proteção costeira estimada em R$ 160 bilhões, segundo o estudo “Oceano sem mistérios: Desvendando os recifes de corais”, realizado pela Fundação Grupo Boticário. Para cada quilômetro quadrado de recifes, são economizados R$ 941 milhões em danos evitados. Os manguezais também são necessários para a proteção costeira: a força das ondas é reduzida em 60% ao encontrar 100 metros de manguezal pela frente. Além disso, ajudam a reduzir o aquecimento global graças à sua grande capacidade de armazenar carbono.
Políticas de adaptação que integrem Soluções Baseadas na Natureza ajudam a tornar os territórios mais resilientes. Isso permite que comunidades possam continuar vivendo, produzindo e gerando renda em seus próprios territórios com mais segurança, se assim desejarem.
Apesar desse potencial, o país ainda enfrenta desafios importantes para ampliar essas soluções. Segundo a Confederação Nacional de Municípios, apenas 22% dos municípios brasileiros afirmam estar preparados para lidar com os efeitos das mudanças climáticas. Dados da plataforma AdaptaBrasil indicam ainda que 66% das cidades apresentam baixa ou muito baixa capacidade adaptativa diante de eventos extremos. Em muitos casos, faltam instrumentos técnicos, recursos financeiros e marcos regulatórios que permitam incorporar as SBN aos planos diretores e às políticas urbanas.
Superar essas barreiras exige investimento em conhecimento, governança e cooperação institucional. Um exemplo recente vem do processo de elaboração do Plano Clima Adaptação pelo governo federal, apoiado pelo Projeto ProAdapta, no contexto da cooperação Brasil-Alemanha, implementado pela agência de cooperação GIZ Brasil. A iniciativa capacitou 1.275 gestores federais e contribuiu para incorporar as Soluções Baseadas na Natureza e a temática de mobilidade humana tanto na estratégia geral quanto em seus 16 planos setoriais e temáticos, ampliando a capacidade técnica do governo para transformar esse conceito em políticas públicas concretas.
Em linha com esse esforço de qualificação das políticas públicas, uma Nota Técnica elaborada em parceria pela OIM, Agência da ONU para as Migrações e pela Fundação Grupo Boticário, destaca que a adaptação climática precisa considerar, antes de tudo, as especificidades de cada território. Não existem soluções únicas nem automaticamente replicáveis: os impactos das mudanças climáticas sobre a mobilidade humana variam conforme o tipo de evento extremo, as características ambientais e sociais da região e a capacidade de resposta das comunidades locais. Por isso, uma abordagem transversal de justiça climática que inclua identificar vulnerabilidades específicas e garantir a participação das populações afetadas é fundamental.
O debate sobre adaptação climática precisa avançar além da lógica emergencial. Ao tratar a conservação e a restauração de ecossistemas como parte da infraestrutura estratégica do país, as SBN reduzem riscos, evitam perdas econômicas e ajudam a prevenir e mitigar o deslocamento por desastres, uma das consequências mais profundas da crise climática.
Gestores públicos precisam incorporar essas soluções no planejamento territorial e nas políticas urbanas, mas o desenvolvimento de conhecimento técnico e a mobilização institucional também dependem do envolvimento de toda a sociedade, incluindo a colaboração com universidades e organizações da sociedade civil. Fortalecer essa agenda de forma colaborativa é essencial para aumentar a resiliência dos territórios e garantir que mais comunidades possam permanecer onde vivem, com segurança e dignidade.
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Débora Castiglione é oficial nacional de Migração, Meio Ambiente, Mudança do Clima e Redução de Riscos de Desastres da OIM, Agência da ONU para Migrações.
Juliana Baladelli Ribeiro é gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e especialista em Soluções Baseadas na Natureza.