
Parada do Orgulho LGBT+ em 2025, na avenida Paulista
A Parada do Orgulho LGBTI+ ocorre neste domingo (7) na avenida Paulista, em São Paulo, com o mote “A rua convoca, a urna confirma”. Em sua 30ª edição, o maior evento do tipo no mundo tem projeção financeira menor que as anteriores, em parte por conta da perda de 60% em seu patrocínio.
R$ 466,2 milhões
é quanto o evento deve movimentar na economia paulistana, segundo a Associação Comercial de São Paulo; montante é 15% menor do que o injetado em 2025 (R$ 548,5 milhões)
O evento também está sob pressão legislativa. Em 20 de maio, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou em primeiro turno um projeto de lei que obriga celebrações de temática LGBTI+ a ocorrer em espaços fechados, além de proibir a participação de crianças e adolescentes de até 12 anos.
Neste texto, o Nexo explica quais as pressões contra a Parada LGBTI+ nos 30 anos do evento.
A história das paradas remonta aos anos 1960, e sua evolução acompanha as conquistas da população LGBTI+ mundo afora.
O evento teve seu embrião brasileiro em 1995, quando a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersex realizou sua 17ª conferência no Rio de Janeiro, que terminou com uma pequena marcha na praia de Copacabana. A edição seguinte, um ato na praça Roosevelt, em São Paulo, reuniu cerca de 500 pessoas reivindicando direitos LGBTI+.
Em 1997, grupos políticos julgaram que seria mais conveniente realizar a próxima manifestação na avenida Paulista. Embora a CET (Companhia de Engenharia e Tráfego) não tenha dado autorização legal ao evento, ativistas ocuparam o local no Dia Internacional do Orgulho Gay, em 28 de junho.

Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Brasília
Nos anos seguintes, a parada na avenida Paulista cresceu e passou a atrair participantes de outros estados — como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Paraná. A ApoLGBT-SP (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo), criada em 1999, ficou responsável pela organização do evento, que se tornou ponto de partida para a propagação de iniciativas semelhantes em várias partes do país.
“Conseguimos demonstrar que temos demandas e que não somos apenas uma ou duas pessoas isoladas. É uma forma de dizer ‘sou digno, tenho orgulho e estou aqui para me mostrar’”
Toni Reis
fundador do Grupo Dignidade e presidente da Aliança Nacional LGBTI+, em entrevista ao Nexo em 2019
Assim como ocorreu com outras paradas no mundo, os patrocínios que deram suporte ao evento de São Paulo tanto contribuíram para que ele ganhasse estrutura e visibilidade, como abriram um novo flanco de pressões.
Em maio, a ApoLGBT-SP informou que o patrocínio para a parada de 2026 havia caído 60% em relação à edição anterior. Segundo a associação, a queda é reflexo da onda antidiversidade intensificada pelo presidente americano Donald Trump, desincentivando empresas multinacionais a investirem em ações de orgulho LGBTI+.
“Temos um cenário de uma ofensiva transnacional global contra os direitos LGBTQIA+, que se manifesta nessa retirada de financiamento e na mudança de posição das empresas”, avaliou ao Nexo Renan Quinalha, professor de direito da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
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Outro fator se deve à falta de interesse das marcas em apoiar a pauta da diversidade. “As empresas alegam não terem valores disponíveis, não terem interesse em participar, ou apontam o risco de imagem. Ao que parece, a pauta da diversidade deixou de ser algo atrativo para o mercado e tem sido vista muitas vezes como um risco à imagem corporativa”, disse Matheus Emílio, diretor da ApoLGBT-SP, ao Nexo.
A parada recebeu patrocínios pela primeira vez em 2007, na sua 11ª edição. Além das marcas, houve o apoio das estatais Petrobras e Caixa Econômica Federal, e da prefeitura paulistana. Até então, apoiadores faziam apenas ações de marketing durante o evento, sem contribuir significativamente para a verba da organização.
O aporte da prefeitura de São Paulo tem uma particularidade: em vez de ir diretamente à organização, vai para a infraestrutura pública, pelo fato de a Parada LGBTI+ ser um evento oficial da cidade desde 2016 — assim como o Carnaval, o aniversário da cidade e a Marcha para Jesus.
Embora o número de patrocinadores tenha aumentado ao longo dos anos, a organização da parada relata recuo no orçamento dos últimos anos. A falta de investimento impacta especialmente a estrutura do evento. No domingo (7), 14 trios elétricos desfilarão pela Paulista — na edição passada, foram 17.
O patrocínio nos últimos anos

Além de ter estrutura física menor, o evento também deve injetar menos recursos na economia de São Paulo, segundo projeções. A Associação Comercial de São Paulo estima que o evento movimente R$ 466,2 milhões, 15% menos do que em 2025 (R$ 548,5 milhões).
“Movimentamos a cidade e toda a estrutura de serviços durante o fim de semana prolongado, agregando valor econômico. Mesmo assim, as empresas avaliam que não é interessante investir num evento que gera meio bilhão de reais para São Paulo”, afirmou Emílio.
Segundo o diretor, a alternativa buscada pela organização foi o apoio de parlamentares por meio de emendas. “Este ano nós não tivemos o êxito que esperávamos. Muitos parlamentares não responderam e outros informaram que não tinham mais verbas disponíveis. É uma tentativa, contudo, que pretendemos ampliar para o ano que vem”, afirmou.
A parada também lida com uma ofensiva no Legislativo paulistano, que questiona sua realização na avenida Paulista.
Em 20 de maio, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou em primeiro turno, com votação simbólica, o PL nº 65/2026 — apresentado em fevereiro pelo vereador Rubinho Nunes (União Brasil) —, que obriga eventos LGBTI+ a serem realizados em espaços fechados, sob pena de multa.
R$ 50 mil
é o valor da multa por descumprimento previsto pelo PL nº 65/2026
A escolha do local é alvo de críticas desde a origem do evento e também foi motivo de intenso debate na edição de 2007, quando a prefeitura e o Ministério Público de São Paulo tentaram mudar o endereço do desfile.
Como mostrou o site CNN Brasil, a justificativa de Nunes para o PL é que a parada “causa distúrbios no trânsito e constrangimento ao público que não se identifica com as pautas propostas pelo dito movimento”.

Casal com criança na Parada do Orgulho LGBT+ de 2025
Outro argumento de quem defende sua remoção é a possibilidade de que a temática LGBTI+ cause prejuízos ao desenvolvimento de crianças e adolescentes. Por isso, o PL também proíbe a participação de menores de 12 anos em eventos como esse.
Tentativas de barrar crianças e adolescentes de eventos de orgulho LGBTI+ já ocorreram em outros lugares do Brasil, como o estado do Amazonas, que tem uma lei sobre o tema contestada no Supremo Tribunal Federal. Até agora, cinco ministros votaram pela inconstitucionalidade da norma.
Um deles foi Gilmar Mendes, relator do caso, que considerou que o texto “subverte o pluralismo e compromete o ideal de convivência democrática ao estigmatizar manifestações legítimas de identidade”.
Para Amanda Souto, advogada e coordenadora da área jurídica da Aliança Nacional LGBTI+, o resultado do julgamento do Supremo sobre a lei amazonense pode ter efeito cascata sobre outras propostas semelhantes. Para ela, embora os projetos argumentem proteger crianças e adolescentes, “o que se busca é uma segregação e demonização de um público”.
Investidas de parlamentares contra a agenda LGBTI+ não são novidade. Um levantamento do jornal Gazeta do Povo mostrou outras dezenas de projetos semelhantes tramitando na Câmara dos Deputados. Um deles é o PL nº 906/2025, do deputado federal Marcos Pollon (PL-MS).
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projetos de lei na Câmara dos Deputados querem impedir crianças e adolescentes de participar de eventos LGBTI+
De acordo com Quinalha, o argumento de proteção às crianças e adolescentes é antigo e utilizado em outros países, como nos EUA, na Rússia e na Hungria.
“Temos precedentes do Tribunal Europeu de Direitos Humanos recentes dizendo que não há evidências de que a presença de crianças em ambientes assim possa levar a uma exposição. Ou seja, não há dano na convivência com a diversidade e a pluralidade das identidades e formas de vida”, disse ao Nexo.
Tanto para a Souto quanto para Emílio, da ApoLGBT-SP, o fator eleitoral de 2026 dá tração a agendas anti-LGBTI+. “Esse tipo de projeto de lei não tem fundamento em dados reais. São espantalhos que surgem, especialmente em períodos eleitorais, para demonizar um grupo em busca de votos”, afirmou a advogada.