Passado e futuro por Paulliny Tort e Ian McEwan

No princípio, eram o Homem, a Mulher, a Velha, o Velho. Parentes dividiam-se entre caçadores, jovens, crianças, cozinheiras, doentes. Papéis que se intercambiavam ao longo do percurso e do tempo. 

Juntos, marchavam por vastos territórios em busca de comida e abrigo, interrompendo apenas quando um ou outro estavam disponíveis – o que quase nunca ocorria ao mesmo tempo. A migração guiava-se pela possibilidade de encontrar a manada de cavalos cuja carne e sangue poderiam restabelecer as forças do clã por muitos dias. 

Centenas de milhares de anos depois, em 2119, a circulação se restringe ao perímetro de ilhotas, abrigo das 4 bilhões de pessoas que compõem a população mundial, após o Desarranjo que devastou a superfície do planeta. 

Com o colapso da União Europeia e os Estados Unidos fragmentados e governados por milícias e facções armadas, a Nigéria emerge como uma superpotência financeira e digital. Os raros deslocamentos são feitos em embarcações, e o alimento, bolos de proteína sintética, é produzido a partir de dióxido de carbono e bactérias. 

É assim que a brasileira Paulliny Tort e o britânico Ian McEwan imaginam respectivamente passado e futuro do ser humano em dois livros que estão entre os melhores lançados neste primeiro semestre. 

Escalada para a programação principal da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em julho, a jornalista brasiliense Paulliny dá voz, feição e sentimentos a nossos ancestrais pré-históricos em “Os imortais” (Fósforo). Tratada como um acontecimento pela crítica desde sua publicação, em março passado, a obra – que, a não ser por marmelada, certamente estará na lista das principais premiações literárias – impressiona pelo ineditismo do tema e a maneira como a autora fantasia o cotidiano de um clã de neandertais, num momento em que a espécie dá indícios de caminhar rumo a sua extinção.

Se em ‘Os imortais’ os indícios da extinção de um modo de viver prenunciam tempos de violência, mas também de belezas e novidades, ‘O que podemos saber’ expõe a necessidade de compreender o passado, que, no entanto, jamais se desnuda totalmente

O extermínio de parte da humanidade foi também o que inspirou Ian McEwan a escrever “O que podemos saber” (Cia. das Letras), romance futurista no qual o autor britânico reflete sobre a sociedade contemporânea, sob a perspectiva de uma geração no século 22, remanescente dos que escaparam da hecatombe climática que destruiu o planeta em 2030, quando ocorreu o grande Desarranjo,  uma inundação causada por múltiplos fatores.

Na fábula pautada por evidências científicas, um grupo de neandertais tenta resistir às dificuldades que a vida em meio à natureza selvagem lhes impõe. Guiados pelo Homem e pela Mulher, seguem numa interminável peregrinação à procura do que comer e de lugares para se protegerem das intempéries, transpondo estações do ano e regiões que visualizamos pela minuciosa descrição da autora a respeito de fauna, flora e geografia locais.

Nessa jornada, atravessamos “Os imortais” conduzidos por uma narração onisciente, que revela tudo o que ocorre no entorno e também a subjetividade de personagens que não possuem uma linguagem constituída, comunicando-se por meio de gestos e sons rudimentares. O que não os impede de desenvolver ponderações profundamente humanas sobre amor, inveja, violência, medo e questionar o sentido de suas existências. 

Nesse sentido, Paulliny nos provoca a conceber junto aos personagens a complexidade de ser um humano, numa odisseia cujo contraponto se dá no encontro entre neandertais e Homo sapiens, com consequências que supõem estar na origem de nossas intolerâncias e visão de mundo.

Curiosidade semelhante leva o narrador de “O que podemos saber”, o crítico literário Tom Metcalfe, a investigar a literatura feita entre os anos 1990 e 2030, décadas que, para ele, concentram alguns dos mais interessantes textos já publicados. É nessa época que McEwan afirma ter ocorrido uma “crise do realismo na ficção”, frente à ameaça de um desastre climático, que se concretiza a despeito de todos os alertas científicos.

Mais do que um período, o que interessa a Tom em 2119 é desvendar o mistério em torno de uma lenda: um poema escrito em 2014 pelo célebre autor Francis Blundy, inspirado por sua companheira, Vivien, e jamais publicado. Recitados por Blundy uma única vez, no jantar que celebrou o aniversário de Vivien, os versos permaneceram um segredo guardado pelo petit-comité que esteve presente ao encontro e entraram para a história como uma obra-prima.

Obcecado por revelar o poema, Tom se embrenha numa tentativa quixotesca de remontar todos os detalhes da noite em que Blundy o apresentou, por meio de mensagens trocadas entre o poeta, Vivien e outros personagens no entorno da dupla. À sua disposição, uma biblioteca guarda centenas de terabytes de conversas trocadas por email e aplicativos que, no século 22, perderam a frágil proteção da criptografia.

O desejo de vislumbrar o passado e o futuro nos persegue desde sempre, inspirando artistas, cientistas e criadores das mais variadas esferas a compor cenários que acumulam muito mais dúvidas do que certezas. 

Se em “Os imortais” os indícios da extinção de um modo de viver prenunciam tempos de violência, mas também de belezas e novidades, “O que podemos saber” expõe a necessidade de compreender o passado, que, no entanto, jamais se desnuda totalmente.

Nesse contexto, Paulliny e Ian aparecem como duas faces da mesma moeda, ao considerarem os impactos do Homo sapiens no planeta. Com tudo de bom e de terrível que isso envolve.