Uma história singular no resumido do sertão é desmedida, tão vasta que é maior que o mundo. Tem tantas camadas, que uma coisa esconde a outra num jogo perpétuo. Uma mulher esconde a própria força e só indo pro masculino se permite revelar esse poder.
Um homem acostumado ao feroz do homem que luta a seu lado se surpreende com ele e aprende a ver a delicadeza das coisas. Através dele descobre o sutil e se admira.
Rosa faz um estudo dessa inversão dos papéis que nos aprisionam. Dentro dessa vivência brutal do sertão disparam inesgotáveis ideias e sentimentos dentro de mim.
Tem tanta abrangência de assuntos que minha mente não tem como abraçar.
Escrevo pra não enlouquecer. Pra tentar organizar tudo o que quero absorver. Preciso de outros canais para incorporar tudo isso até conseguir me tornar tanta sabedoria.
Todos os dias, durante muitas horas, percorremos a vastidão desse lugar. Entre o que vejo e o que sinto. Entre o que carrego e o que vivencio, uma corrente invisível e contínua entre a energia de fora e a que trago de mim.
Um outro sertão. Um sertão dentro desse.
“Sertão: estes seus vazios.”
O magnífico do mestre Guimarães Rosa é que, além de perscrutar o sertão, de ir pro fundo de um Brasil que ninguém visita, além de mostrar a beleza do jeito avesso, na secura do lugar e da sua gente, ele tem a medida de revelar o amor na sutileza, tudo o encobre.
O amor secreto.
E ele mistura os opostos.
Medo e coragem, machismo e delicadeza, mostra que até na guerra pode ter nobreza. Mostra tudo o que se esconde por trás de cada palavra.
O significado oculto do que se diz e da maneira que se diz.
Viaja pra dentro do sertão e da alma de quem o habita. Pra dentro do homem e da mulher e inverte as suas dessemelhanças. O medo de ser quem a gente é, esse é o verdadeiro perigo.
O perigo maior não é o de se jogar na guerra, é o de se lançar pra dentro.
Essa é uma qualidade da mulher, entende ligeiro não só aquilo que se esparrama na sua frente, mas tem a intuição de perceber o encoberto de cada pessoa.
“A gente sabe mais de um homem é o que ele esconde.”
Diadorim tem esse olhar secreto do feminino que penetra nas coisas. Ao mesmo tempo conhece a arte masculina da dissimulação. Mulher se derrama mais facilmente, deixa a emoção transbordar. Mas Diadorim é pura contenção, aprendeu a se fechar pra dentro e não demonstrar, como faz o bom jogador de baralho.
Tem homem que afunda tanto o sentimento dentro dele, que nunca mais o acha. Mas a mulher consegue enxergar até nessa fundura.
“Diadorim […] vigiou o ar de todos […] tinha gateza para contador de gado.”
Posso ser esquisita, feia e até medonha, aqui nesse resumido de sertão nenhuma vaidade veio comigo. Nunca mais me olhei no espelho. Me sinto plena no descaso da feiura, com uma maquiagem pra reforçar. Vavá me passa óleo escuro na cara e no cabelo que é pra poeira ficar grudada, às vezes barro. Me escurece os dentes, cria manchas e penugem pra tirar qualquer vestígio de mulher.
Sempre que empresto a alma pra um personagem, isso me faz mudar muito fisicamente. Muda meu jeito de andar, de falar, a cara se transforma, muda cabelo, personalidade, cada um tem uma, meu processo é descobrir quem vou ser.
Sempre escolhi personagens fortes e marcantes que possibilitam essa transformação. Mas no caso de Diadorim a coisa é drástica.
Além da loucura dessa persona, dessa aparência radical, desse estado primitivo do existir, ser tomada pelo espírito de Diadorim é um contínuo desassossego.
Quando a beleza se apresenta assim frontal e sem enfeite nenhum, tem uma certa insolência.

Diário do Grande Sertão
Bruna Lombardi
Autêntica
81 páginas