Queridinho e alvo dos EUA: a trajetória do Pix em 7 pontos

Área Pix em aplicativo bancário no celular

Área Pix em aplicativo bancário no celular

O Pix, sistema de pagamentos do Banco Central utilizado por 80% da população brasileira, está entre as justificativas do USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) para propor uma nova rodada de tarifas contra o Brasil.

Segundo o órgão, o Pix seria uma prática comercial “irrazoável” que tem prejudicado “injustamente” empresas americanas que atuam em serviços de pagamento eletrônico, como Visa, Mastercard e Whatsapp Pay. 

Neste texto, o Nexo retoma o histórico de criação do Pix, explica os argumentos dos Estados Unidos e mostra como o assunto já virou tema eleitoral para outubro. 

O lançamento

A ideia de criar o Pix surgiu de servidores públicos do Banco Central, que se basearam em meios de pagamentos usados em países como a Austrália e a Índia para formatar um sistema acessível ao cidadão comum. 

O projeto começou a ser pensado em 2014, quando Alexandre Tombini era presidente do BC, no governo Dilma Rousseff (PT). O início do seu desenvolvimento de fato foi em 2016, já com Ilan Goldfajn, indicado por Michel Temer (MDB), na presidência da autarquia. Goldfajn assumiu o cargo tendo como ponto central de sua agenda modernizar o sistema financeiro nacional e estimular a inclusão financeira. 

A partir de então, o órgão passou a realizar pesquisas sobre o tema, mas os avanços mais concretos ocorreram em maio de 2018, quando o BC lançou um grupo de trabalho sobre pagamentos instantâneos, que elaborou as bases do Pix pensando em temas como velocidade das transações e segurança. 

Em 21 de dezembro de 2018, no final do governo Temer, o Banco Central divulgou um documento com as bases do Pix, que trazia detalhes sobre o funcionamento do sistema. 

Em agosto de 2019, já sob o governo Jair Bolsonaro (então no PSL, hoje no PL) e com Roberto Campos Neto na presidência da autarquia, o BC comunicou que a base de dados estava desenvolvida e que assumiria a administração do sistema. 

O nome “Pix” foi lançado em fevereiro de 2020, um mês antes da pandemia de covid-19. Em outubro do mesmo ano, uma resolução do Banco Central estabeleceu a gratuidade do meio de pagamento para pessoas físicas, e os bancos começaram a aderir. Depois de testes internos, o Pix foi lançado oficialmente em novembro.

A adesão 

O Pix rapidamente se tornou o meio de pagamento preferido dos brasileiros – é instantâneo, sem custo e está disponível 24 horas por dia. 

Logo no primeiro mês de implementação, Pix já tinha 73 milhões de chaves cadastradas, e a adesão rápida transformou a forma como a população movimenta dinheiro. Formas de transação como o DOC e o TEC, por exemplo, acabaram desaparecendo e foram extintas em 2024. 

170 milhões

de pessoas físicas no Brasil usam Pix em 2026, o que corresponde a 80% da população, segundo dados do Banco Central

7 bilhões 

número de transações com Pix realizadas apenas em janeiro de 2026, segundo dados do Banco Central

313,3 milhões

recorde de transações com Pix em um único dia, atingido no dia 5 de dezembro de 2025, segundo dados do Banco Central

O Pix influenciou diretamente na bancarização da população adulta no Brasil. Em 2020, antes do lançamento do meio de pagamento, essa porcentagem era de 83% em média. Atualmente, 96,4% da população adulta no país tem uma conta bancária, segundo o relatório “Cidadania Financeira”, lançado pelo Banco Central em 2025, que leva em conta dados de 2024.

A ferramenta foi ainda um vetor da inclusão da população de baixa renda, de acordo com o BC. O acesso e utilização de serviços bancários formais é reconhecido internacionalmente como elemento crucial para desenvolvimento econômico e redução da pobreza. 

Em dezembro de 2023 – três anos após o lançamento do Pix –, 74% dos adultos inscritos no CadÚnico haviam registrado ao menos uma chave Pix, o que demonstra o uso expressivo nas transações do dia a dia. 

“A diferença entre registro da chave e uso efetivo caiu de sete pontos percentuais em 2022 para apenas dois pontos em 2023, indicando maior engajamento e confiança no sistema. O Pix consolidou-se como parte da rotina financeira desse público”, diz o relatório

A aclamação 

O Banco Central ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais após a criação e implementação do Pix. No exterior, o meio de pagamentos venceu: 

O Pix conseguiu elogios até do Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman. O economista americano escreveu um artigo em julho de 2025 dizendo que o Brasil pode ter “inventado o futuro do dinheiro” com o sistema. No texto, Krugman chama a atenção para pontos como a velocidade das operações, baixo custo e aceitação do Pix por parte dos brasileiros. 

Na época da publicação do texto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia recém-ordenado a investigação sobre práticas comerciais do Brasil – e fez críticas públicas ao Pix por prejudicar empresas americanas. Por isso, o artigo de Krugman é repleto de críticas a decisões do governo Trump e do parlamento dos Estados Unidos, que aprovou um projeto de lei proibindo o Federal Reserve, que é o banco central dos EUA, de criar uma moeda digital – que remete, de certo modo, ao Pix. 

“Outras nações podem aprender com o sucesso do Brasil no desenvolvimento de um sistema de pagamento digital. Mas os EUA provavelmente permanecerão presos a uma combinação de interesses pessoais e fantasias com criptomoedas”, escreveu Krugman. 

O efeito colateral

Edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que há uma transformação nas dinâmicas da criminalidade e segurança pública no Brasil. E isso passa pela concentração de várias atividades no celular, pela expansão da bancarização e pelo Pix. 

Enquanto se vê redução de mortes violentas intencionais e de outros crimes violentos que ocorrem no espaço público, tem crescido o registro de crimes patrimoniais, como o de fraudes e golpes envolvendo o uso de celulares roubados, um dos principais problemas de segurança nos centros urbanos. Segundo dados do Fórum, a taxa de celulares furtados ou roubados é de 827,4 a cada 100 mil habitantes em cidades com 500 mil habitantes ou mais. 

Outro crime que cresceu foi o estelionato – aumento de 360% desde 2018, de acordo com o Fórum. As novas tecnologias facilitaram a aplicação dos golpes online e, segundo a instituição, investigações policiais mostram que facções criminosas como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho já criaram centrais telefônicas para dar golpes. E o Pix é o principal meio usado pelos criminosos. 

Celulares apreendidos na Operação Big Mobile, em São Paulo

Celulares apreendidos na Operação Big Mobile, em São Paulo

Essas alterações no modus operandi do crime mudou a maneira como as pessoas usam o celular, sobretudo nos grandes centros urbanos como São Paulo, que passa por constantes ondas de furtos. Muitas pessoas adotaram um celular “reserva” quando precisam se locomover a pé em determinadas regiões e deixaram de usar o Pix na rua, mantendo a função bloqueada no celular. 

Por isso, o Banco Central desenvolveu medidas de segurança como o MED (Mecanismo Especial de Devolução), ferramenta para ajudar pessoas que foram vítimas de fraudes a recuperar o dinheiro enviado indevidamente via Pix – é só acionar o botão MED no aplicativo do banco e seguir as instruções. Os recursos da conta do cliente são bloqueados temporariamente e o caso é analisado pelas instituições envolvidas, para confirmar a fraude e devolver o valor. 

O Banco Central ficou mais rígido em relação aos limites disponíveis. Uma instrução normativa de julho de 2024 determina que pessoas que compram um novo celular tem limite reduzido de R$ 1.000 por dia, com transações máximas de R$ 200, caso não realizem uma autenticação obrigatória com biometria facial. Isso dificulta que criminosos “esvaziem” uma conta bancária. O BC criou a possibilidade de redução automática do limite Pix à noite – algo que o usuário pode ajustar no aplicativo do banco. 

As fake news 

Em janeiro de 2025, boatos nas redes sociais começaram a circular dizendo que o governo Lula iria “taxar o Pix”. Rapidamente, a população ficou desconfiada de que teria de pagar taxas e começou a evitar o sistema. Comerciantes passaram a negar o Pix para pagamento. 

O rumor foi impulsionado por um vídeo de enorme repercussão do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) dizendo que o governo queria tratar trabalhadores informais como grandes “sonegadores” – em três dias, o conteúdo alcançou mais de 300 milhões de visualizações

Mesmo depois das explicações oficiais de que não haveria nova taxa ou imposto, e sim uma maior fiscalização sobre transações para evitar a sonegação de impostos e lavagem de dinheiro, o estrago estava feito. A “crise do Pix” abalou a gestão petista e o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad. 

FERNANDO HADDAD FALA EM ENTREVISTA A JORNALISTAS EM BRASÍLIA

Fernando Haddad durante entrevista coletiva em Brasília

O que de fato ocorreu foi que, em setembro de 2024, a Receita Federal publicou a Instrução Normativa nº 2.219/24, que amplia a fiscalização sobre as transações financeiras e o limite do valor a ser reportado pelas instituições ao Fisco. 

A norma entrou em vigor em 1º de janeiro de 2025 e estabeleceu que todos os bancos tradicionais, bancos digitais, operadoras de cartão e instituições de pagamento teriam de repassar dados de movimentações mensais acima de R$ 5.000 (pessoa física) e R$ 15 mil (pessoa jurídica).

Antes da nova regra, a Receita Federal recebia informes dos bancos tradicionais (como Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) sobre transações mensais que superassem R$ 2.000 (pessoa física) e R$ 6.000 (pessoa jurídica). 

Bancos digitais (como Nubank e Banco Inter), assim como operadoras de cartão de crédito e instituições de pagamento, não eram monitorados, e ficavam ao largo da fiscalização. 

Só que a mudança não foi comunicada previamente à população – havia o entendimento na equipe econômica do governo que se tratava de algo sem grandes impactos. E, embora a norma não citasse o Pix especificamente, a falta de clareza abriu brecha para as fake news de “taxação” do sistema.

A repercussão negativa fez Haddad recuar e a medida foi revogada. 

O governo publicou uma medida provisória para garantir a não taxação e o sigilo do Pix além de vedar a incidência de impostos, taxas ou contribuições sobre o uso do sistema de pagamento. 

 A investigação dos EUA

O Pix está presente no novo tarifaço de Trump contra o Brasil. 

No dia 1° de junho, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) aplicou uma taxa de 25% sobre produtos brasileiros, sob o argumento de que o país mantém práticas comerciais “irrazoáveis”. Um dia depois, incluiu o Brasil em uma lista de 60 países que serão alvo de uma tarifa de 10% a 12,5% por falhas no combate a trabalho forçado.

A recomendação do USTR é fruto de uma investigação aberta pelo governo americano contra o Brasil em julho de 2025, sob a Seção 301 da Lei de Comércio, de 1974, que autoriza o presidente a tomar providências sobre países que adotam práticas consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA. 

Segundo o  texto, o Brasil “parece se envolver em uma série de práticas desleais em relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a favorecer seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo”. 

Além da investigação, relatório divulgado pela Casa Branca em abril disse que o Pix prejudica empresas de cartões de crédito dos EUA, como a Visa e Mastercard, e que cria “desvantagens” para as empresas, gigantes mundiais do setor. 

US$ 6,1 bilhões

lucro líquido da Visa no quatro trimestre de 2025, o equivalente a cerca de R$ 30 bilhões 

US$ 4,1 bilhões

lucro líquido da Mastercard no quatro trimestre de 2025, o equivalente a cerca de R$ 20 bilhões 

Em nota divulgada na terça-feira (2), a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) defendeu o Pix e apresentou argumentos que rebatem a visão dos EUA de que o sistema prejudica o comércio americano. A federação afirma que o Pix não é um produto comercial, e sim uma ferramenta que facilita transações financeiras, e opera de modo aberto, ou seja, não restringe a participação de bancos, fintechs e instituições financeiras brasileiras ou estrangeiras. 

Na quarta-feira (3), o governo brasileiro divulgou nota dizendo que manifesta “profunda discordância” em relação às conclusões da investigação dos EUA. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, disse na quinta-feira (4) que o Brasil mantém conversas com o governo Trump sobre o assunto,  mas que os argumentos apresentados pelos EUA “não são legítimos”. 

A disputa eleitoral

Por ter sido disponibilizado de fato ao público no final de 2020, Jair Bolsonaro e o PL reivindicam o título de “criadores” do Pix. Na terça-feira (2), o partido fez uma publicação sobre o tema utilizando uma foto de Lula: 

O URL do post não é válido.

A imagem acabou gerando uma onda de comentários resgatando um vídeo de Bolsonaro, de outubro de 2020. Na época, ao ser parabenizado por um apoiador no Palácio do Alvorada pelo Pix, ele confundiu a ferramenta com “carteira de habilitação para piloto de avião”, e, depois de receber mais informações do apoiador, disse que não tinha “tomado conhecimento” do assunto. 

O meio de pagamento do Banco Central será assunto central na campanha de 2026. Segundo o portal Metrópoles, o entorno de Lula foi orientado a explorar o tema para que se torne um revés eleitoral para Flávio. 

Em julho de 2025, no primeiro tarifaço ao Brasil, anunciado às vésperas do julgamento de Bolsonaro, que acabou condenado por tentativa de golpe de Estado em 2022, a medida foi atrelada à família Bolsonaro, e a postura de Lula de não se submeter às condições dos Estados Unidos alavancou a popularidade do governo petista.  Pesquisas eleitorais realizadas no período mostraram recuperação nos índices de aprovação e queda na desaprovação e melhora fora das bases que já apoiam o PT tradicionalmente. 

Na terça-feira (2), Lula apareceu com um cartaz escrito “O Pix é do Brasil”, durante um evento em Contagem (MG), e disse que os Estados Unidos têm “medo” no sistema de pagamento instantâneo brasileiro. 

Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente e presidenciável em 2026, vai focar em propagar que seu pai criou o meio de pagamento do Banco Central – que foi pensado e desenvolvido por técnicos da autarquia muito antes de Bolsonaro ser presidente. Flávio também têm mostrado cartazes ou usado camisetas com a frase “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro” durante viagens e eventos do PL.