
O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, durante sessão plenária
O Tribunal Superior Eleitoral adiou na terça-feira (9) o julgamento de uma decisão do presidente da corte, Kassio Nunes Marques, que determinou a suspensão de uma pesquisa Atlas/Bloomberg com números desfavoráveis ao presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A análise foi interrompida após pedido de vista da ministra Estela Aranha. Com o adiamento, a decisão de Nunes Marques continua valendo. Para o ministro — indicado ao Supremo Tribunal Federal em 2020 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — a metodologia utilizada no levantamento da Atlas, divulgado na esteira do caso “Dark Horse“, teria induzido os entrevistados.
Neste texto, o Nexo explica e analisa a decisão do presidente do TSE.
A pesquisa Atlas/Bloomberg suspensa por Nunes Marques foi realizada entre os dias 13 e 18 de maio, logo após a revelação do que ficou conhecido como caso “Dark Horse”.
O site The Intercept Brasil publicou, no dia 13 de maio, reportagens que mostram Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, para financiar a cinebiografia do pai.
As conversas ocorreram entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, quando as suspeitas sobre as operações do Master já eram publicamente conhecidas. Nas mensagens — de texto e áudio —, Flávio chamava Vorcaro de “irmão”, citava o “momento difícil” do banqueiro e dizia que “estaria sempre com ele”.
R$ 61 milhões
foi o valor pago pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao filme, segundo o Intercept. A promessa era de R$ 134 milhões, montante três vezes maior que o do filme premiado no Oscar ‘Ainda estou aqui‘ (2024)
Depois da repercussão, Flávio e outras pessoas envolvidas no filme deram uma série de declarações contraditórias. Primeiro, o senador disse que não conhecia Vorcaro. Na sequência, admitiu as mensagens e disse em vídeo que as conversas tratavam de financiamento privado. Também afirmou que havia um contrato de confidencialidade sobre o filme, o que explicava a omissão da relação com o banqueiro.
A conexão de Flávio com o pivô da maior fraude ao sistema financeiro da história do país gerou mal-estar imediato em sua campanha, no seu partido, o PL, e no eleitorado.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante sessão conjunta do Congresso Nacional
Foi nesse contexto que a pesquisa da Atlas foi realizada. O instituto utiliza uma metodologia chamada RDR (Recrutamento Digital Aleatório), que seleciona entrevistados durante a rotina de navegação na internet. Para o levantamento de maio, a empresa recrutou 5.032 eleitores.
Foram feitas 49 perguntas, das quais oitos, apresentadas em sequência, abordavam o Banco Master. Também houve questões sobre a avaliação do governo Lula e as intenções de voto em todos os pré-candidatos.
Os resultados, divulgados em 19 de maio, mostraram o impacto do caso “Dark Horse”. Flávio caiu seis pontos percentuais no segundo turno em comparação ao levantamento anterior da Atlas, do fim de abril, quando ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareciam tecnicamente empatados nas intenções de voto.
47,8%
foi a intenção de voto em Flávio Bolsonaro na pesquisa Atlas/Bloomberg de 28 de abril de 2026
41,8%
foi a intenção de voto em Flávio Bolsonaro na pesquisa Atlas/Bloomberg de 19 de maio de 2026
Para Lula, os números da Atlas indicaram ligeira queda na desaprovação, dentro da margem de erro — de 53% para 51,3% —, e recuperação nas intenções de voto.
47,4%
foi a intenção de voto em Luiz Inácio Lula da Silva na pesquisa Atlas/Bloomberg de 28 de abril de 2026
48,9%
foi a intenção de voto em Luiz Inácio Lula da Silva na pesquisa Atlas/Bloomberg de 19 de maio de 2026
Após a divulgação da pesquisa, o PL acionou o TSE pedindo sua suspensão. Segundo o partido, o questionário direcionou negativamente a opinião dos entrevistados contra Flávio ao incluir um áudio trocado entre o Vorcaro, divulgado pelo Intercept.
O material foi incluído no fim da pesquisa, que pedia ao entrevistado que rolasse um botão indicando se ele estava se sentindo bem ou mal ao ouvir a conversa. Não havia possibilidade de o eleitor alterar respostas anteriores.
De acordo com o pedido do partido, a inclusão do áudio incitou “medo eleitoral”, e a sequência de perguntas proposta pela Atlas “produziu contexto, não mera mediação”.
Nunes Marques deferiu liminar favorável ao PL na segunda-feira (8), determinando que a Atlas não promova nova divulgação, impulsionamento, republicação ou manutenção da pesquisa em seus canais oficiais.
Na decisão, o presidente do TSE afirmou que há indícios de indução nas perguntas formuladas pelo instituto. O ministro argumentou ainda que as outras 27 pesquisas anteriores da empresa não incluíam perguntas semelhantes às do levantamento de maio, nem nunca haviam veiculado áudios.
“Esses estímulos são aptos a contaminar as respostas subsequentes relativas à imagem, rejeição e intenção de voto, reforçando a plausibilidade jurídica da tese de que a pesquisa possa ter extrapolado os limites da regular aferição estatística”
Kassio Nunes Marques
presidente do TSE, em decisão que determinou a suspensão da pesquisa Atlas
Em nota à imprensa, a Atlas negou a indução dos entrevistados, mas disse que respeita a decisão do ministro e está colaborando com a Justiça Eleitoral.
A empresa ressaltou que o áudio de Flávio não foi reproduzido durante a aplicação do questionário principal, concluído integralmente antes de qualquer contato do participante com o conteúdo audiovisual.
“Todo o desenho metodológico do questionário, bem como a dinâmica de aplicação do teste de áudio, foi conduzido com o rigor técnico e científico que caracteriza o trabalho da AtlasIntel, sempre orientado pelos princípios de imparcialidade, transparência, integridade metodológica e qualidade estatística dos dados produzidos”, afirmou a nota.
A Atlas explicou ainda que, após a reprodução do áudio, os participantes foram redirecionados para uma página separada do questionário, que os convidou a registrar suas reações.
“O teste de áudio tem finalidade analítica distinta: medir, segundo a segundo, a reação de uma amostra representativa da população a conteúdos audiovisuais, com segmentação demográfica”, afirmou a empresa.
“Pesquisas de opinião realizadas posteriormente por diferentes institutos identificaram o mesmo padrão de impacto do episódio [as revelações da relação de Flávio com Vorcaro] sobre as intenções de voto do candidato do Partido Liberal, em alguns casos apontando efeitos de magnitude ainda superior à observada pela AtlasIntel. Esse fato reforça que os resultados captados pela pesquisa refletiam uma dinâmica real da opinião pública naquele momento, e não qualquer forma de contaminação metodológica”
AtlasIntel
Em nota sobre a decisão de Kassio Nunes Marques
A Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) classificou a decisão do presidente do TSE como inconstitucional e a acusou de censura.
Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o presidente da Comissão de Opinião Pública da Abep, João Francisco Meira Caldas, disse que há desconhecimento de Nunes Marques sobre o tema, e é “lamentável que um juiz jovem, recém-ingressado na mais alta magistratura, desconheça as próprias decisões do tribunal sobre esse assunto. Ele teve tempo para se preparar para esse cargo”.
Para o advogado Fernando Neisser, professor de direito eleitoral da FGV (Fundação Getulio Vargas), a explicação possível para a decisão de Nunes Marques é que ele tenha sido induzido ao erro.
“Ele parte de premissas factualmente erradas na decisão. Ele diz textualmente que poderia ter havido influência nas respostas relativas à intenção de voto porque as perguntas sobre o envolvimento do senador Flávio com Vorcaro teriam sido feitas antes das perguntas sobre intenção de voto, quando foram feitas depois”, disse ao Nexo.
As regras sobre pesquisas eleitorais estão previstas na Lei das Eleições, de 1997, e na resolução nº 23.600 do TSE, de 2019. Segundo Neisser, não há previsão legal de que não possam ser realizadas perguntas sobre outros assuntos em levantamentos de intenção de voto, nem vedação de exibição de materiais audiovisuais.
“Sendo [as perguntas] feitas depois, esse debate não pode nem existir, não faz sentido. É uma interpretação nova, que não está prevista em lei. Costumeiramente, pesquisas fazem diversas perguntas sobre percepção política, sobre o que está acontecendo. Desde que as primeiras perguntas sejam relativas à intenção de voto, é impossível presumir que o resto vá influenciar o eleitor”, afirmou.
Para o professor, a determinação da retirada do conteúdo perpetua a má percepção de que a decisão foi adotada apenas porque a pesquisa foi ruim para determinado pré-candidato. “E ainda fora do tempo. Essa pesquisa já foi consumida, não estava mais nas notícias. Acaba revivendo um tema que nem estava mais na atenção das pessoas”, disse.
Ainda de acordo com ele, é comum haver derrubada de pesquisas em eleições municipais por causa de institutos locais que fazem levantamentos deliberadamente fraudulentos ou com metodologias anticientíficas. Em eleição presidencial, no entanto, não há precedente.
“Existe uma má vontade difusa em geral com relação às pesquisas eleitorais, que teriam influência negativa para o eleitor. Temos que entender que pesquisa é informação valiosa para o eleitorado, para o mercado, para os atores políticos, para os partidos”
Fernando Neisser
professor de direito eleitoral da FGV, em entrevista ao Nexo
Para o advogado Waldir Franco Felix Junior, também especialista em direito eleitoral, no entanto, a liminar de Nunes Marques “não se trata de censura, muito menos de uma decisão inconstitucional”.
“O entendimento sobre a liberação de pesquisas é muito próprio de cada composição de uma corte eleitoral. Seja um tribunal regional, seja o próprio TSE”, disse ele ao Nexo.
O TSE iniciou o julgamento da decisão de Nunes Marques na terça-feira (9), com a presença de advogados do PL e da AtlasIntel, que apresentaram seus argumentos.
Nunes Marques votou para manter sua decisão, repetindo os argumentos apresentados na liminar.
O julgamento, no entanto, foi adiado após pedido de vista da ministra Estela Aranha. O presidente do TSE perguntou aos demais ministros se eles queriam antecipar seus votos, mas nenhum deles o fez.
Houve manifestações de Dias Toffoli e André Mendonça. Toffoli disse que as pesquisas “são para medir opinião, e não para formar opinião”, e que o impacto do julgamento será para todas as campanhas. “Quanto mais proibição, mais tutela ao eleitor. Eu deixaria as pesquisas livres, se eu fosse parlamentar, mas parlamentar não sou. E o povo decide quais são os institutos sérios e os não sérios”, afirmou.
Já Mendonça não fez sinalizações sobre o voto, mas disse que o pedido de vista de Estela Aranha vai permitir diálogo com os institutos de pesquisa e “regramento justo e equânime” para o processo eleitoral.
Para Neisser, o momento de absoluto início da gestão de Nunes Marques, que assumiu a presidência do TSE em maio, pode levar outros ministros a confirmar a decisão.
“Uma eventual confirmação não significa necessariamente que a corte está nas mãos de Kassio, ou que ele tem maioria no TSE. Pode ser quase que uma gentileza de os outros ministros não o derrotarem em plenário no seu primeiro desafio. Manter a decisão é ruim, mas não significa que o tribunal irá sempre nesse sentido”, disse.
Não validar a decisão, por outro lado, passaria o recado de que o tribunal vai seguir a legislação e jurisprudência independentemente da presidência. “Seria um sinal positivo do ponto de vista institucional”, afirmou.
Já Felix Junior avalia que, se o colegiado mantiver a liminar, isso significa que o TSE irá adotar uma posição mais restritiva sobre pesquisas eleitorais, “entendendo-se por uma maior tutela e proteção do eleitor”.
Seria quase inédito se os outros ministros entendessem que não cabe a suspensão, segundo ele. “Não é comum a decisão da presidência do TSE não ser referendada. Pode significar um entendimento da corte de que há maior entendimento por parte do eleitor em relação às pesquisas”, disse.