
Cena de “Dia D” (2026)
“Dia D”, novo filme do diretor americano Steven Spielberg, será lançado nos cinemas brasileiros na quinta-feira (11). O longa-metragem conta a história de como a sociedade lida com a existência de extraterrestres, após a confirmação de que eles existem.
Não é a primeira vez que o Spielberg trata do assunto. O cineasta abordou a vida alienígena em outras ocasiões, passando do retrato amigável de “E.T. – O extraterrestre” (1982) até o violento em “Guerra dos mundos” (2005).
Neste texto, o Nexo mostra como Spielberg retratou extraterrestres em seus filmes, como o tema aparece em seu novo longa e por que o diretor tem fascínio pelo assunto.
A primeira vez que Steven Spielberg retratou extraterrestres foi em “Fireflight” (1964), filme amador que dirigiu quando era adolescente. O fascínio com a vida alienígena veio de casa. Em entrevista ao site do canal USA Today, o diretor explicou que sua mãe, Leah Adler, acreditava que havia vida inteligente fora da Terra.
Em 1970, depois de começar a trabalhar como diretor de TV na Universal Pictures, o diretor escreveu o enredo de um filme então intitulado “Experiências”. Ele contava a história de um grupo de jovens do meio-oeste americano que se deparava com OVNIs (objetos voadores não identificados).
A história evoluiu nos anos seguintes, e Spielberg fechou um acordo para o desenvolvimento do filme com a Columbia Pictures.
Após terminar a produção de “Tubarão” (1975), ele começou as gravações do filme, que passou a se chamar “Contatos imediatos do terceiro grau” (1977). O título faz referência à classificação de contatos imediatos com alienígenas criada pelo ufologista J. Allen Hynek, segundo quem o terceiro grau ocorre quando humanos observam extraterrestres.
No longa, o protagonista Roy Neary (Richard Dreyfuss) é casado e pai de três filhos. Sua rotina muda quando, um dia, ele entra em contato com uma nave alienígena. A partir disso, ele busca entender cada vez mais sobre os extraterrestres. Também é apresentada a história de Jillian Guiler (Melinda Dillon), cujo filho é abduzido. Ela também busca por seres de outro planeta.
“Quando fiz ‘Contatos imediatos’, precisei de muita imaginação. Eu acreditava que existia outra vida lá fora, embora não tivesse certeza se ela já havia chegado aqui. Eu era realmente curioso sobre OVNIs e UAPs [fenômenos anômalos não identificados]. Eu disse: ‘Não vou chamar ‘Contatos imediatos’ de ficção científica – vou chamá-lo de especulação científica”
Steven Spielberg
diretor, em entrevista ao site do canal USA Today
Os extraterrestres de “Contatos imediatos” não invadem ou tentam destruir a vida humana. Para o crítico Finn Morse, que escreveu sobre o filme no site Film Obsessive, não há vilões verdadeiros no longa, apenas pessoas que estão unidas em torno de um sentimento de descoberta, tanto que, por vezes, são atrapalhadas pela realidade – como no caso de Roy, que deixa de prestar atenção em sua família.
“‘Contatos imediatos do terceiro grau’ pode ser aterrorizante, especialmente quando o filho pequeno de Jillian é chamado de sua casa para uma nave espacial visitante que desaparece rapidamente. Mas Spielberg mantém um tom esperançoso. Certamente, parece dizer o diretor, nenhuma espécie ameaçadora iniciaria uma negociação com uma frase musical melodiosa, como os alienígenas fazem aqui”, escreveu Peter Tonguette ao jornal The Wall Street Journal.
Outro retrato carinhoso da vida alienígena por Spielberg ocorreu em “E.T. – O extraterrestre” (1982).

Cena de “E.T. – O extraterrestre” (1982)
O filme acompanha Elliot (Henry Thomas), uma criança que se sente deixada de lado depois do divórcio dos pais. O garoto não encontra companhia na presença da mãe Mary (Dee Wallace), do irmão Michael (Robert MacNaughton) ou da irmã Gertie (Drew Barrymore).
A situação muda quando Elliot encontra o E.T. – um alienígena deixado para trás numa noite em que seus companheiros visitaram a Terra – no quintal de sua casa.
A criatura se torna um companheiro. Em contrapartida, Elliot e seus irmãos tentam ajudá-lo a voltar para seu planeta natal enquanto procuram mantê-lo escondido de agentes do governo americano.
“Comecei a criar essa criatura imaginária, em parte inspirada nos seres que saíram da nave-mãe por 90 segundos em ‘Contatos imediatos do terceiro grau’ e depois voltaram, para nunca mais serem vistos. Então pensei: e se eu tivesse 10 anos de novo… e se ele precisasse de mim tanto quanto eu precisava dele?”
Steven Spielberg
diretor, em entrevista à revista Rolling Stone em 1982
“Spielberg torna ‘E.T.’ confortável e acolhedor ao incorporar a vida alienígena ao subúrbio: apesar de sua aparência estranha e a habilidade intermitente de reproduzir o inglês, a criatura se aclimata à cozinha da família, participa do Halloween e desenvolve um carinho notável por trajetos de bicicleta”, escreveu Tonguette ao The Wall Street Journal.
O retrato carinhoso da vida alienígena mudou com a chegada dos anos 2000. Em “Guerra dos mundos” (2005), os extraterrestres trazem caos e destruição à Terra. O roteiro de Spielberg é baseado no livro de ficção científica “A guerra dos mundos”, de H.G. Wells, em que seres espaciais invadem o planeta.
No longa, o protagonista Ray Ferrier (Tom Cruise) precisa cuidar de seus filhos, Robbie (Justin Chatwin) e Rachel (Dakota Fanning), durante um final de semana quando uma tempestade de raios atinge a região onde vivem.
Pouco tempo depois, Ray vê uma máquina de guerra de três pernas que começa a incinerar o local. A família, então, começa a viajar pelos Estados Unidos para tentar fugir das ofensivas alienígenas.
A mudança de tom em relação à representação da vida extraterrestre foi percebida por Spielberg e pela produção envolvida em “Guerra dos mundos”.
“Esta não é uma das minhas histórias de alienígenas fofos, adoráveis e benignos”, disse o diretor num texto de divulgação do filme. “Achei que seria divertido fazer um filme realmente assustador com alienígenas realmente assustadores, algo que eu nunca tinha feito antes.”
Mais tarde, alienígenas voltaram a aparecer em “Indiana Jones e o reino da caveira de cristal” (2008).
Foi a primeira vez que a saga “Indiana Jones” voltou-se para o universo da ficção científica. A relíquia citada no título, a caveira de cristal, é um artefato alienígena e não humano.

Cena de “Indiana Jones e o reino da caveira de cristal” (2008)
A ideia de incluir alienígenas – chamados de “seres interdimensionais” no longa – surgiu em parte devido ao desejo de Spielberg de homenagear filmes de ficção científica dos anos 1950 sobre extraterrestres, como “O dia em que a Terra parou” (1951).
David Koepp, roteirista do filme, disse que nunca ficou satisfeito com a ideia de introduzir seres espaciais na história, mas que perdeu o embate com Spielberg e o produtor George Lucas.
“Tentei convencê-los a mudar – eu tinha outra ideia. Eles não quiseram. Não estou dizendo que a minha teria sido melhor. Mas acho que grande parte da resistência que o filme recebeu foi porque [os fãs disseram]: ‘Não achamos que alienígenas deveriam estar em um filme de Indiana Jones’”, disse Koepp em entrevista ao podcast Script Apart em 2022.
“Dia D” acompanha duas histórias paralelas. A primeira é a de Daniel Kellner (Josh O’Connor), especialista em segurança cibernética que pretende divulgar dados sobre encontros com extraterrestres mantidos em segredo pelo governo americano desde o caso Roswell em 1947.
Na ocasião, um balão de grandes altitudes desenvolvido pelo projeto Mogul, da Força Aérea dos EUA, caiu na cidade de Roswell, no Novo México. Por se tratar de um projeto secreto e com um formato pouco convencional, a população local passou a acreditar que se tratava de um disco voador.
A segunda história é a de Margaret Fairchild (Emily Blunt), apresentadora da previsão do tempo numa emissora de Kansas City. Certa manhã, ela descobre que consegue falar em línguas, entender a mente das pessoas, sentir a dor delas e até assumir a forma de seus entes queridos.
89%
é a avaliação inicial de “Dia D”, com base em 113 notas, no site Rotten Tomatoes, que agrega resenhas de críticos
Para o crítico de cinema Bilge Ebiri, “Contatos imediatos de terceiro grau” foi um filme que explorou a questão “o que existe lá fora?”, com personagens obcecados pelo céu e pelo espaço. Já “Dia D” traz a pergunta “quem somos nós?”.
“Ele está menos interessado nos visitantes e em quem eles poderiam ser, e mais no que o conhecimento de sua existência pode revelar sobre nós”, escreveu ao site Vulture.

Cena de “Dia D” (2026)
Em crítica à revista Variety, Owen Gleiberman também comparou “Dia D” ao filme de Spielberg de 1977.
Para ele, enquanto “Contatos imediatos de terceiro grau” explora o mistério das vidas extraterrestres com uma visão inocente e ao mesmo tempo sonhadora e espetacular, “‘Dia D’ parece um thriller documental dramático excessivamente simplista em suas crenças”.
“Os atores são muito bons (especialmente Blunt, que nos faz sentir como se estivesse presenciando o inexplicável), mas, apesar da construção lenta da trama, o filme não nos leva a nenhuma conclusão realmente surpreendente. Ele apenas confirma a ‘verdade’ que circula há tanto tempo, que começa a soar como um conto de fadas para os desamparados”, escreveu.