A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) disponibilizou recentemente os resultados do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância. Os achados, para quem atua na área da educação, não surpreendem.
Observamos, na atualidade, uma maior dificuldade das crianças em se concentrar, além de certo empobrecimento de vocabulário e uma alfabetização corporal bastante limitada, entre outros novos desafios que afetam o desenvolvimento e aprendizagem das infâncias.
Um dos pontos relevantes que podemos trazer em relação à pesquisa da OCDE é a afirmação de que as aprendizagens que ocorrem na infância são fortes preditivos dos resultados posteriores. Ou seja, uma boa aprendizagem nos anos iniciais de vida vai impactar positivamente em todo o desempenho acadêmico e na funcionalidade da vida adulta – e o inverso, infelizmente, também é verdadeiro.
A educação é multifatorial e envolve ações da família, da escola, de outras instituições e do Estado, que devem favorecer o desenvolvimento pleno infantil
Nesse sentido, a valorização da infância como uma fase fundamental do desenvolvimento humano, e não apenas preparatória – como já preconiza o Marco Legal da Primeira Infância (Lei n. 13.257/2016) –, fica ainda mais evidente, assim como o reconhecimento dos direitos das crianças ao acesso à creche e à educação infantil de qualidade, com metodologias e educadores preparados para atuar com as especificidades desta etapa da vida.
Pensando no contexto escolar, uma informação da pesquisa que fortalece o debate com as famílias é o dado de que as que possuem o hábito de ler ao menos três vezes por semana, que visitam bibliotecas com frequência ou que disponibilizam livros (em quantidade e qualidade) amplificam positivamente a aprendizagem de vocabulário, a flexibilidade mental e o desenvolvimento socioemocional das suas crianças. Podemos dar ênfase ao poder do exemplo: pais e familiares que leem com e para suas crianças e que valorizam a cultura escrita estão colaborando para que elas tenham um melhor desenvolvimento cognitivo.
O Brasil está muito abaixo da média dos outros países participantes da pesquisa em relação à leitura em casa com os filhos. Aqui encontramos outro fator relevante, de que a educação para as crianças não deve ser responsabilidade só da escola. Isso pode parecer evidente, mas quem vive a realidade da escola sabe que o conceito não é tão claro, seja pela visão das próprias famílias, seja pela ausência de políticas públicas que amparem as infâncias. A educação é multifatorial e envolve ações da família, da escola, de outras instituições e do Estado, que devem favorecer o desenvolvimento pleno infantil.
A pesquisa da OCDE vem em um bom momento, em que estamos debatendo no Brasil a implementação do ECA Digital, que traz a discussão do impacto das telas e da necessidade de regular o acesso das crianças às diversas plataformas. O estudo mostra que crianças que têm mais acesso a telas na fase da primeira infância têm desempenho pior em vocabulário e em aprendizagem geral, e apresentam mais dificuldades socioemocionais. Ou seja, essa questão é um ponto crucial, porque essa fase preditiva para as futuras aprendizagens está sendo prejudicada pelo uso de telas sem mediação, sem orientação e sem intencionalidade educativa.
O ideal, na realidade, seria a adoção de uma política de “tela zero” nesta etapa da vida. As atividades ao ar livre, fundamentais para o desenvolvimento pleno da criança, incentivam a autoconfiança e as habilidades físicas, motoras e emocionais, também citadas pelo estudo. Em muitas escolas, vemos atualmente uma queda dessas vivências – o mundo digital atravessa a infância de uma forma transversal e precisamos rever isso com urgência.
O pesquisador e jornalista norte americano Richard Louv desenvolveu um conceito denominado de “transtorno de déficit de natureza”. Sua intenção é chamar a atenção para os prejuízos que a falta do contato direto com a natureza pode gerar nas crianças e jovens. As consequências dessa distância cada vez maior já são percebidas, tais como o aumento dos problemas de saúde na infância e a perda de habilidades motoras e cognitivas. Louv defende que a natureza é restaurativa, tanto para aspectos emocionais como cognitivos.
Essa teoria parece ser respaldada pelo levantamento da OCDE, nos trechos sobre as atividades ao ar livre e seus impactos no desenvolvimento infantil. Brincar em espaços abertos e/ou públicos, e ter contato com a natureza e com outras pessoas é algo que gera confiança, aumenta a percepção motora e sensorial, e estimula a atenção plena. Além de gerar senso de pertencimento e coletividade.
A pesquisa também vai na mesma linha da recente revisão dos Parâmetros Nacionais de Qualidade e Equidade na Educação Infantil, documento do Ministério da Educação que nos dá indicadores para pensar a prática escolar pela ótica da diversidade de espaços, pela riqueza de materiais e pela experiência com múltiplas linguagens, para que a criança amplie o máximo possível sua capacidade criativa e suas interações sociais. Os parâmetros dialogam com o Marco Legal da Primeira Infância e se estruturam em cinco dimensões: gestão democrática; identidade e formação profissional; proposta pedagógica; avaliação da educação infantil; e infraestrutura, edificações e materiais.
Em resumo, a análise da OCDE é um reforço de diversas hipóteses, de estudos anteriores e de experiências que vivemos na prática no cotidiano da vida escolar. Esses dados nos apoiarão ainda mais no incentivo à leitura em família, no fomento às interações de qualidade entre pais e filho e na defesa do brincar – direito de toda criança, para o seu melhor desenvolvimento. Em outras palavras, os dados servirão de subsídio para manter firme a discussão pelo direito e proteção da infância.
Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você
Silvia Adrião é pedagoga e mestre em sociologia da educação, doutora pelo Programa de Educação e Saúde na Infância e Adolescência, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Diretora da Escola AB Sabin.