
Transmissão de Brasil e Marrocos na CazéTV
A CazéTV registrou um recorde mundial no empate entre Brasil e Marrocos no sábado (13), jogo de estreia da seleção na Copa do Mundo de 2026: o maior pico de espectadores simultâneos da história do YouTube. Mais de 12,7 milhões de aparelhos estavam conectados num momento da transmissão da partida.
56 milhões
é a quantidade de visualizações na live da CazéTV da partida entre Brasil e Marrocos pela Copa do Mundo de 2026
O recorde de audiência mostra a relevância da CazéTV na Copa de 2026: é a única emissora a passar os 104 jogos da Copa nos Estados Unidos, México e Canadá. A hegemonia de um canal do YouTube no principal torneio do esporte mais popular do mundo é um novo marco na história das transmissões no Brasil.
Neste texto, o Nexo traça esse histórico desde a era do rádio.
A primeira transmissão ao vivo de uma Copa do Mundo para o Brasil aconteceu em 5 de julho de 1938, na terceira edição da história. A seleção brasileira venceu a Polônia por 6 a 5, em Estrasburgo, na França. O locutor Gagliano Neto foi o responsável pelas narrações nacionais, diretamente do Stade de la Meinau.
Os direitos de transmissão eram das Organizações Byington, poderoso conglomerado econômico à época. A voz de Gagliaono foi ouvida nas rádios Kosmos e Cruzeiro do Sul, de São Paulo; Clube do Brasil e Cruzeiro do Sul, do Rio de Janeiro; Rádio Clube, de Santos; e Clube, de Curitiba.
“Tivemos a popularização do rádio como meio privado, sem os elementos de preocupação com a sociedade e cultura”, disse Anderson Santos, professor da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) e coordenador do Observatório das Transmissões de Futebol, ao Nexo.
As transmissões chegavam da Europa ao Brasil com muito chiado e interferências. Como os aparelhos de rádio ainda eram um artigo de luxo, havia muitos pontos de aglomeração de torcedores para acompanhar a campanha brasileira. A seleção ficou em terceiro lugar na Copa de 1938, a melhor colocação até então.
As edições após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) passaram a ter uma presença massiva de radialistas brasileiros, em meio à Era de Ouro do rádio brasileiro – período em que o meio de comunicação se consolidou como difusor de entretenimento e informação. Em 1954, na Suíça, por exemplo, a Cadeia Verde Amarela reuniu mais de 200 emissoras de rádio para retransmitir as partidas pelo Brasil.
“Os estilos de transmitir o jogo eram um formato muito descritivo dos lances. Não se tinha comentarista nem figuras de linguagem”, afirmou Luiz Fernando Santoro, professor da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), ao Nexo. Ele destacou a figura de Fiori Gigliotti como um dos responsáveis por popularizar jargões e bordões nas transmissões.
O locutor narrou 10 edições da Copa do Mundo pela Rádio Bandeirantes, entre 1962 e 1998, com bordões como “Abrem-se as cortinas, começa o espetáculo”. O vídeo abaixo traz o gol de Amarildo na final de 1962, no Chile, em que o Brasil conquistou o bicampeonato, com narração de Gigliotti.
Santos afirmou que isso ajudou a consolidar um imaginário clubista das transmissões, especialmente em Copas. “O modelo de narração brasileiro é muito peculiar comparado a outros modelos. Sempre foi algo para chamar o público. Precisava passar a emoção para manter a pessoa atenta e guiá-la, já que não havia imagem para acompanhar”, disse o professor da Ufal.
As transmissões da Copa do Mundo na TV começaram em 1954, mas somente para oito países europeus. O início das transmissões via satélite em 1967 permitiram que, três anos mais tarde, os brasileiros pudessem acompanhar ao vivo pelos televisores a campanha brasileira no México rumo ao tricampeonato.
Um pool (rede compartilhada) de emissoras trouxe a transmissão da Copa de 1970 para a TV brasileira: Tupi, Globo, Record e Bandeirantes. O áudio da narração era o mesmo, com locutores e comentaristas de cada canal se revezando entre os jogos. O país recebeu o sinal colorido, mas os aparelhos disponíveis no Brasil ainda não comportavam a nova tecnologia – as cores ficariam disponíveis apenas na edição seguinte, em 1974, na Alemanha Oriental.
Desde então, a única emissora presente em todas as edições de Copa do Mundo foi a Rede Globo, com as demais se revezando. As únicas vezes em que houve uma exclusividade total da transmissão foram as de 1982 e de 2002. Na edição da Coreia do Sul e Japão, a empresa dividiu os jogos com o SporTV, seu canal a cabo.
Nos anos 1970, a emissora começou a se dedicar ao que ficou conhecido como “padrão Globo de qualidade”, com o intuito de melhorar os aspectos técnicos e de narrativa da programação. Santoro afirmou que esse padrão era focado em telenovelas e no jornalismo do canal.
A compra de diferentes torneios esportivos e o nível das transmissões ao longo das décadas tornou a Globo um sinônimo de exibições de grandes eventos. “O padrão Globo envolve uma barreira a partir do costume de programação. Assistimos a esportes pensando que ela vai transmitir com determinada qualidade”, disse Santos.
Uma das estratégias da Globo era sublicenciar partidas para outras emissoras, reduzindo os valores pagos. A última a fazer isso foi a Band, retransmitindo os jogos exibidos pela detentora dos direitos da Fifa em 2014.
Para Santoro, a evolução tecnológica fez com que o nível de qualidade da Globo fosse escanteado. “Aquele padrão dos anos 1970, com qualidade de cores e de câmeras, foi ultrapassado. Hoje, qualquer celular filma e transmite em 4K. O que interessa mesmo é a boa história, seja ela gravada na vertical ou na horizontal”, disse o professor da ECA-USP.
Na Copa de 2026, a CazéTV é a única emissora com direito de exibição de todos os 104 jogos da Copa. A Rede Globo terá pouco mais da metade das partidas – entre 55 e 57, a depender da campanha da seleção brasileira. Já o SBT, que contratou o narrador Galvão Bueno para narrar os principais eventos do torneio, terá 32, em parceria com o canal de TV a cabo NSports.
A mudança em relação às transmissões da Copa do Mundo aconteceu a partir do desenrolar de um processo durante a pandemia de covid-19. A Globo entrou na Justiça do Rio de Janeiro em junho de 2020 para adiar o pagamento de US$ 90 milhões (R$ 463 milhões à época) à Fifa, referentes à exclusividade total de transmissão das Copas 2018 e 2022.
Naquele momento, o futebol nacional e internacional estavam completamente paralisados, e a Globo argumentou que parte de sua renda tinha sido comprometida. O pleito era apenas para diluir as parcelas remanescentes do contrato.
As partes chegaram a um acordo em 2021, com a manutenção dos direitos de transmissão exclusivos na TV aberta e na TV por assinatura, mas sem a possibilidade de exibir em plataformas digitais. A Fifa, então, estava livre para celebrar acordos com outras empresas e plataformas que operam na internet.
Santoro disse que a Globo não percebeu a força do futebol no digital durante as negociações. “As redes sociais amplificam o interesse pela Copa por toda parte. Há muita novidade e novos atores trabalhando na difusão do conteúdo”, disse o professor da ECA-USP.
Com o fim do acordo no ambiente digital, a Fifa fez um acordo com a LiveMode, empresa de licenciamento esportivo, pelos direitos da Copa de 2022, no Qatar. A agência aproveitou da ascensão meteórica do streamer Casimiro Miguel para firmar uma parceria e criar a CazéTV. Na ocasião, o canal exibiu 22 jogos, incluindo todos do Brasil, as semifinais e a final entre Argentina e França.
6,1 milhões
foi o pico de espectadores simultâneos na transmissão de Brasil e Croácia, nas quartas de final da Copa de 2022, na CazéTV
“Nesses novos modelos, a base da transmissão em si não tem tanta inovação: ainda tem narrador, repórter e comentaristas, sejam jornalistas ou ex-jogadores que abrem espaço na agenda para comentar. O que temos hoje é mais informalidade nas relações”, afirmou Anderson Santos, professor da Ufal.
A informalidade da transmissão, com mais brincadeiras, palavrões e interações com o chat, gera resistência de parte do público. Segundo Santos, isso faz parte de uma diferença geracional: “Tem uma geração a partir dos 30 que não só se acostumou com a Globo. O que não passa na Globo ainda é estranho para esse conjunto geracional, além da dificuldade de acessar um aplicativo como o YouTube ou streaming para ter esse tipo de acesso”.
Para Santoro, a CazéTV tem conseguido se adaptar ao tom necessário durante a Copa do Mundo de 2026, depois de comentários controversos na cobertura dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, terem resultado em notas de retratação da equipe.
“A CazéTV conseguiu ajustar a transmissão para uma abordagem com uma narrativa mais parecida com a do público jovem. Eles fazem brincadeiras nos intervalos, mas a transmissão é muito mais consistente”, afirmou o professor da ECA-USP. O canal atingiu a marca de 31 milhões de inscritos durante a exibição de Bélgica e Egito, pelo grupo G da Copa do Mundo disputada nos EUA, México e Canadá, na segunda-feira (15).
A Globo tentou se aproximar da linguagem e do alcance da CazéTV no ambiente digital, com a criação da ge tv em setembro de 2025. O canal, que tem mais de 17 milhões de inscritos, também faz a transmissão de torneios esportivos no YouTube em uma linguagem jovem. Alguns jogos da Copa de 2026 estão sendo transmitidos pela equipe, mas diretamente no Globoplay.
Antes disso, o jornalismo esportivo da TV Globo tentava se adaptar à realidade do ambiente digital. Em janeiro de 2025, o jornalista e influenciador digital Fred Bruno assumiu a apresentação do Globo Esporte, um dos principais programas da emissora.
Para Santoro, a busca por se enquadrar aos moldes do digital fez a Globo desencontrar o tom jornalístico das transmissões: “Fez a opção por um tom de brincadeira, sem informação”.
Apesar de a cobertura esportiva ter, costumeiramente, uma linguagem mais próxima do entretenimento, Santos também afirmou que o jornalismo esportivo está se direcionando para longe das informações. “É preciso demonstrar essa paixão e chamar a atenção do público, mas também considerar adaptações para se comunicar com a linguagem da internet”, disse o professor da Ufal.