O avanço de 2 tratamentos de câncer, no Brasil e nos EUA

Apresentação dos resultados preliminares do estudo Carthedrall da USP

Apresentação dos resultados preliminares do estudo Carthedrall da USP

O Ministério da Saúde anunciou no dia 10 de junho que resultados preliminares da terapia CAR-T Cell para tratar cânceres no sangue apontaram 87,5% de taxa de eficácia. O modelo brasileiro da tecnologia foi desenvolvido pela USP (Universidade de São Paulo) e deve custar um quinto a menos do que a solução disponível no mercado.

Antes, em 1º de junho, pesquisadores americanos apresentaram os resultados finais de um estudo sobre a daraxonrasib, uma pílula para tratamento de câncer de pâncreas capaz de aumentar a sobrevida de pacientes em quase duas vezes.

Neste texto, o Nexo explica como funcionam os tratamentos de câncer estudados no Brasil e nos EUA, quais avanços eles representam e em que momento eles chegam.

A terapia brasileira contra cânceres no sangue

Os testes da terapia CAR-T Cell detalhados no dia 10 de junho foram conduzidos pela USP, em parceria com o Instituto Butantan. Eles foram aplicados em pacientes com algum tipo de câncer no sangue (o que inclui linfomas e leucemias) que não responderam a tratamentos como radioterapia e quimioterapia. 

No tratamento feito no Hemocentro de Ribeirão Preto (SP), as células de defesa do tipo T são isoladas de uma pequena porção de sangue retirado do paciente. Elas são uma espécie de “prima” dos linfócitos B, nos quais se originam os linfomas e leucemias. 

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O material recebe então um receptor sintético chamado CAR (Chimeric Antigen Receptor), que identifica células tumorais. A associação reprograma os linfócitos T para que se multipliquem e possam reconhecer e destruir células cancerígenas após serem reintroduzidas na corrente sanguínea. 

Segundo pesquisadores da USP, os resultados preliminares indicam uma taxa de eficácia de 87,5%. Um dos participantes é um homem de 64 anos que teve remissão completa de um linfoma de 13 anos após receber a terapia CAR-T Cell por 30 dias em 2023.

9 em cada 10 

pacientes que receberam o tratamento tiveram redução significativa de tumores, aproximadamente

Os estudos de fase 1 e 2, chamados pelos pesquisadores de Carthedrall, já recrutaram 75 pessoas. Entre elas, 25 já receberam o componente. A meta é aplicar a infusão em 81 participantes para avaliar a segurança e eficácia da terapia, concluindo a fase clínica.

Antes do Carthedrall, pesquisadores do Hemocentro de Ribeirão Preto já haviam testado a tecnologia com seis pacientes com linfoma e 13 com leucemia. Os resultados foram publicados no periódico europeu Bone Marrow Transplantation e indicaram redução da doença após um mês da infusão.

A pílula americana contra câncer no pâncreas

Os resultados finais sobre a daraxonrasib, pílula para tratamento de câncer pancreático, foram apresentados em 1º de junho, em Chicago, nos EUA, durante um congresso da Asco (sigla em inglês para Sociedade Americana de Oncologia Clínica), uma das mais influentes sobre o assunto. 

O daraxonrasib é um comprimido administrado uma vez ao dia e indicado para pacientes com câncer de pâncreas metastático — fase em que o tumor se espalha para outras partes do corpo — que não responderam a tratamentos convencionais. 

A doença é considerada um dos tipos mais agressivos de câncer, pois costuma indicar sintomas em estágios já avançados. 

A maior parte dos tumores está ligado a mutações do gene KRAS, que fazem com que células cancerígenas se multipliquem descontroladamente. O daraxonrasib age em moléculas que ajudam a moldar proteínas capazes de se ligar ao gene e bloquear a reação desordenada.

Os estudos de fase 3 foram conduzidos pela Revolution Medicines, empresa americana de biotecnologia, envolvendo 500 pacientes. Segundo os pesquisadores, cerca de 31% dos participantes tiveram redução importante do tumor. Pacientes ainda relataram redução da dor e melhora na qualidade de vida.

60%

foi a queda registrada no risco de morte de participantes do estudo da daraxonrasib

13,2 meses

foi o tempo de sobrevida após o diagnóstico com uso do daraxonrasib, quase o dobro em comparação à quimioterapia (6,7 meses)

O tempo que a doença leva para agravar o quadro de saúde do paciente também foi contido: 7,3 meses com o daraxonrasib, contra apenas 3,5 meses com aplicação de quimioterapia. Por isso, alguns pesquisadores descrevem o medicamento como uma possibilidade de “comprar” mais tempo de vida.

Os próximos passos

O próximo passo da Revolution Medicines é registrar o daraxonrasib não só na FDA (Food and Drug Administration) — agência americana similar à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) —, mas em órgãos reguladores de outros países. Após o aval das autoridades, o medicamento pode chegar ao mercado. 

No Brasil, o acesso ao daraxonrasib depende de registro na Anvisa e de diretrizes da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) para uma possível cobertura de planos de saúde. No sistema público, a inserção do medicamento dependerá de análise da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias).

Já no caso da terapia brasileira com CAR-T Cell, a expectativa do Ministério da Saúde é concluir os estudos para receber o aval da Anvisa e da Conitec, incluindo a tecnologia no SUS (Sistema Único de Saúde). 

Segundo Alexandre Padilha, chefe da pasta, a Anvisa acompanha os resultados finais do estudo com prioridade. O modelo brasileiro foi patenteado e pode reduzir os custos do tratamento de linfomas e leucemias. 

R$ 500 mil

é o custo estimado, por paciente, do modelo brasileiro da terapia CAR-T Cell desenvolvido pela USP; valor é cerca de um quinto da versão já comercializada no mercado (R$ 2,5 milhões)

A previsão, de acordo com Padilha, é que os estudos levem cerca de um ano e meio para serem concluídos, já que cada paciente é monitorado por pelo menos um ano após a aplicação da terapia — o participante mais recente recebeu a infusão em maio.

O momento em que os tratamentos chegam

A OMS (Organização Mundial da Saúde) mostra que o câncer é uma das principais causas de morte nas Américas. O levantamento mais recente, feito em 2022, somou mais de 4,2 milhões de novos casos só na região — número que pode mais do que dobrar nos próximos anos.

60% 

é quanto pode aumentar o número de novos casos de câncer até 2045, segundo projeções da OMS nas Américas

781 mil 

novos casos anuais de câncer no Brasil são estimados pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) de 2026 a 2028 

Nesse cenário, cientistas se dedicam cada vez mais a encontrar tratamentos alternativos à quimioterapia e à radioterapia (mais convencionais) que curem a doença ou ao menos aumentem a sobrevida dos pacientes, com menos efeitos colaterais — especialmente para tipos de câncer mais letais, como o pancreático. 

No caso do daraxonrasib, embora o medicamento não represente uma cura, os resultados finais foram recebidos com euforia pela comunidade médica — em grande parte pelo ineditismo do achado, capaz de reduzir a progressão da doença e abrir margens para uso no tratamento de outros cânceres, como os de intestino.

“A reação do público, de ficar em pé aplaudindo [durante o congresso da Asco], foi um pouco exagerada, mas veio, talvez, da sensação de que finalmente tivemos um avanço numa doença muito importante”

Paulo Hoff

oncologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 6 de junho

Já os tratamentos com o CAR-T Cell não são uma novidade. Sua primeira aprovação ocorreu em 2017 nos Estados Unidos, tendo se consolidado como uma das terapias com maior potencial de combate ao câncer. Seu alto custo, no entanto, dificulta sua disseminação. 

O modelo estudado pelo Hemocentro de Ribeirão Preto tem o objetivo de reduzir custos no sistema público de saúde e ser aplicado em outros tratamentos, como o de lúpus (doença autoimune que ataca órgãos e tecidos saudáveis).

“Dominamos toda a técnica nacionalmente, e isso nos permite evoluir para tratar futuramente não só outros tipos de câncer, mas também outros tipos de doença”, disse Diego Villa Clé, doutor em hematologia pela USP e um dos pesquisadores à frente do estudo, em entrevista ao site G1.