Primeiro, acho, preciso descrever o bairro. Porque no bairro está a minha casa, e na casa está a minha mãe. Uma coisa não pode ser entendida sem a outra. Ninguém entende por que não vou embora. Porque eu posso ir. Posso ir amanhã.
O bairro mudou muito desde a minha infância. Antigamente eram moradias para trabalhadores construídas em ruas estreitas nos anos trinta; casas de pedra, belos jardinzinhos e janelas altas com persianas de ferro. Pode-se dizer que os próprios vizinhos começaram a destruí-las com suas inovações: aparelhos de ar-condicionado, telhados de telha, um segundo andar construído com materiais diferentes, revestimentos e pinturas exteriores de cores ridículas, ou a substituição das portas de madeira originais por outras mais baratas. Mas, além do mau gosto, o bairro se tornou uma ilha. De um lado, o nosso limite é a avenida: é como um rio feio, atravessa-se, não há muita coisa em suas margens, mas ao sul temos o conjunto habitacional que foi ficando cada vez mais perigoso, com os garotos que vendem crack nas escadas e às vezes trocam tiros se há algum desentendimento ou se simplesmente estão de mau humor porque perderam uma partida de futebol. Ao norte havia um parque onde seria construído um centro esportivo não sei das quantas que nunca foi levado a cabo, e agora o terreno está ocupado por casas paupérrimas; as melhores, de tijolo, e as mais precárias, de chapa metálica e papelão. O conjunto habitacional e essa favela são interligados. Eu entendo o que acontece: quando a miséria está à espreita da forma como está no meu país e na minha cidade, se você precisa recorrer a coisas ilegais para sobreviver, você recorre. Ganha-se mais dinheiro do que em um trabalho honesto. Além disso, não existe tanto trabalho honesto, para ninguém. E se viver melhor implica risco, bem, há muita gente disposta a corrê-lo.
A maioria dos meus vizinhos, os desta ilha de casinhas construídas quando o mundo era outro, tem outra opinião. Quero esclarecer uma coisa: eu também tenho medo. Eu também não quero ser atingida por uma bala perdida, nem que minha filha seja atingida quando vier me visitar (pouco), muito menos quero ser roubada sistematicamente no ponto de ônibus ou toda vez que o carro precisa parar num sinal vermelho na esquina do conjunto habitacional. Eu também volto chorando quando um adolescente empunha uma faca e arranca o meu celular. Mas não quero matar todo mundo. Não acho que eles sejam uns flagelos, pretos, estrangeiros, descartáveis e irrecuperáveis. Meu ex-marido, que mora na Patagônia e trabalha em uma companhia petrolífera, me diz que os vizinhos estão assustados. Eu digo a ele que o fascismo em geral começa com medo e se transforma em ódio. Ele me diz para vender a casa e me mudar para o Sul, para perto dele. Estamos separados, mas somos amigos. Sempre fomos amigos. Sua nova mulher é adorável. Eu costumo usar a Carolina, nossa filha, como desculpa, mas é só uma desculpa. Carolina mora longe de mim e desta casa e trabalha como produtora de moda em uma revista de páginas acetinadas. Não precisa de mim.
Eu não vou embora porque minha mãe vive aqui. Uma morta pode viver? Está presente, então. Desde que a descobri entendo melhor a palavra. Eu a pressenti antes de vê-la.
Minha mãe foi uma mulher feliz até adoecer de câncer e se mudar para a minha casa para morrer. A agonia foi longa, dolorosa e indigna. Nem sempre é assim. O doente sábio, já sem cabelo e com a pele amarelada, que dá lições de vida deitado em sua cama, é uma romantização ridícula, mas é verdade que há pessoas que sofrem menos. É uma questão de fisiologia e também de temperamento. Minha mãe tinha reações alérgicas à morfina. Não podia tomá-la. Tivemos de recorrer a analgésicos inúteis. Morreu gritando. Uma enfermeira e eu cuidamos dela o melhor que pudemos. Não pudemos muito. Sou médica, mas faz tempo que não trabalho com pacientes e prefiro ser funcionária administrativa em uma empresa médica privada. Aos sessenta não tenho mais ânimo, paciência ou paixão. Também é verdade que durante muito tempo neguei (a negação é uma droga poderosa) o que tive que admitir com a minha mãe. Há fantasmas que aparecem para mim. Que me procuram. Não sou só eu que os vejo: no hospital, as enfermeiras saíam correndo. Eu as tranquilizava e dizia: “Meninas, vocês estão sugestionadas.”
Eu a ouvi gritar uma manhã, a minha mãe. Não foi de madrugada, nem durante a noite: foi naquela hora cheia de luz, tão estranha para um fantasma. As casas do bairro, apesar de bonitas, estão muito próximas umas das outras, à maneira das casas geminadas britânicas: foram construídas por empresários ferroviários ingleses para seus trabalhadores. Minha vizinha Mari, que nunca sai de casa porque tem pavor de ser roubada e morta e sabe-se lá que outras fantasias fóbicas, espiou de sua janela, que dá para o meu pequeno jardim dianteiro, com os olhos arregalados bem na hora em que eu estava saindo para checar se não havia alguém na rua, um ato reflexo tolo, impulsionado por meu pânico: eu não conseguia acreditar que estava ouvindo os gritos da minha mãe morta. Pensei que pudesse ser alguém na rua. Um acidente, uma briga. Mari também se lembrava dos gritos genuínos da minha mãe e estava impressionada, gelada.
— É a televisão, Mari, pode voltar para dentro — falei para ela.
— Percebeu como é parecido, doutora?
— Muito. Estou muito impressionada.
E entrei.
Como não sabia o que fazer, comecei a procurar pela casa a fonte dos gritos e a pedir, como se estivesse rezando, que diminuísse o volume. Não que parasse de uivar: que fosse mais discreta, era o que eu pedia. Eu havia pedido isso a outros fantasmas antes, no hospital, e depois, em uma clínica. Às vezes essa súplica funcionava. Minha mãe sempre teve senso de humor, de modo que o pedido para diminuir o volume a fez rir. Não a encontrei durante o dia, estava de folga do trabalho, mas sim à noite, sentada no chão do quarto onde havia morrido, agora transformado em um depósito de móveis que eu nunca tenho tempo de jogar fora ou doar. Estava magra, mas como no começo do câncer; não era aquela mulher seca e febril dos últimos meses. Não quis me aproximar dela: encostada na porta, com as pernas bambas, cantei para ela. E enquanto cantava me deixei cair até que ficamos frente a frente, sentadas: eu, com as pernas cruzadas, ela, ajoelhada. Era a música que a acalmava quando a dor ficava insuportável, ou pelo menos eu escolhi acreditar nisso. Naquela noite ela não gritou.
Mas os fantasmas, eu aprendi, ficam irritados. Não sei o que eles pensam, se é que pensam, porque eles basicamente repetem, e as repetições parecem atos reflexos sem pensamento, mas eles falam e opinam, isso, sim, e têm ataques de mau humor. Minha mãe anda pela casa, às vezes sente a minha presença, outras vezes, não. E de vez em quando parece que sua fúria volta. Fúria contra o seu corpo degradado, contra a bolsa de colostomia e a humilhação; ela havia sido elegante, lembro que ela chorava dizendo “o cheiro, o cheiro”. Era pior que o sofrimento físico, às vezes. Então, ela grita. Às vezes, são gritos de pura raiva. Eu tenho várias maneiras de acalmá-la que não tem por que listar aqui.
O interessante é o que começou a acontecer no bairro. Foi aí que eu percebi que não estava louca — pensei: qualquer um que vê a mãe morta subindo uma escada acha isso — e que ela não era a única fantasma.

Um lugar ensolarado para gente sombria
Mariana Enriquez
Trad. Elisa Menezes
Intrínseca
224 páginas