5 livros para entender o poder oculto das plataformas digitais

Antes de começar a escrever “A grande trapaça digital”, meu novo livro sobre a transformação radical da experiência musical nas últimas décadas e as consequências das plataformas digitais para artistas e ouvintes, eu sabia que precisaria de algo mais sólido do que estatísticas, relatórios de mercado ou denúncias contra big techs. Precisava consultar autores capazes de me ajudar a enxergar as camadas mais profundas das mudanças que estava investigando. 

 

Foi por isso que recorri a livros que, embora escritos em épocas e contextos completamente diferentes, acabaram formando uma espécie de mapa intelectual da pesquisa. Em muitos momentos, tive a sensação de que estavam me ajudando a responder a uma pergunta central: como chegamos ao ponto em que tecnologias criadas para ampliar nossas possibilidades passaram a colonizar nossa atenção, reorganizar nossas relações e transformar a própria experiência humana em matéria-prima para extração de valor?

 

A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica 

Walter Benjamin (trad. Gabriel Valladão Silva, L&PM, 2019)

 

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Impressiona como um ensaio escrito décadas antes da internet consegue iluminar questões que hoje parecem novas. Quando ele descreve o que acontece com a arte depois que ela passa a ser reproduzida em escala industrial, está observando um movimento que o mundo digital leva às últimas consequências. 

 

A ideia da perda da aura me ajudou menos a entender obras de arte do que a entender as próprias plataformas. O que acontece com uma música quando ela deixa de ser um objeto e se transforma em fluxo? O que acontece com uma reportagem quando passa a disputar atenção dentro de um feed? Benjamin foi uma das lentes que usei para ver que a tecnologia altera não apenas a distribuição da cultura, mas a própria experiência cultural.

 

As formas elementares da vida religiosa 

Émile Durkheim (trad. Rafael Faraco Benthien e Raquel Andrade Weiss, edipro, 2021)

 

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Poucos autores me ajudaram tanto a entender a força social das plataformas quanto Durkheim. À primeira vista, um estudo sobre religião escrito no início do século 20 parece distante do universo das big techs. Mas a impressão desaparece depois de algumas páginas. Durkheim estava interessado em compreender como grupos humanos produzem pertencimento, identidade e coesão. 

 

Em muitos momentos da pesquisa para o livro, tive a sensação de que estava observando versões atualizadas desses mesmos mecanismos. Torcidas digitais, fandoms, comunidades políticas e movimentos online frequentemente se organizam em torno de símbolos, rituais e sentimentos coletivos que Durkheim teria reconhecido imediatamente.

 

Nação dopamina: Por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes 

Anna Lembke (trad. Elisa Nazarian, Vestígio, 2022)

 

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Existem livros que fornecem informações. Outros fornecem explicações. “Nação dopamina” pertence ao segundo grupo. Ao longo da pesquisa, encontrei inúmeros estudos mostrando como aplicativos, redes sociais e plataformas são desenhados para capturar a atenção. O livro de Anna Lembke me ajudou a responder a uma pergunta mais importante: por que isso funciona tão bem? 

 

Sua descrição dos mecanismos de recompensa, desejo, compulsão e tolerância tornou muito mais inteligível aquilo que milhões de pessoas experimentam diariamente sem necessariamente compreender. Grande parte do comportamento digital contemporâneo fica mais clara depois da leitura desse livro.

 

Trabalho focado: Como ter sucesso em um mundo distraído 

Cal Newport (Alta Books, 2018)

 

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Enquanto boa parte da literatura sobre tecnologia discute inovação, produtividade ou crescimento, Newport chama atenção para algo que estamos perdendo. Seu livro foi importante porque me obrigou a olhar para a atenção não apenas como recurso econômico, mas como condição para pensar, criar, aprender e produzir conhecimento. 

 

Durante a escrita de meu livro, revisitei diversas vezes a ideia de trabalho profundo. Ela funciona quase como um espelho invertido das plataformas digitais. De um lado, sistemas desenhados para fragmentar a atenção. Do outro, a necessidade humana de concentração prolongada para realizar qualquer atividade intelectualmente relevante.

 

Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do about It

Cory Doctorow (MCD, 2025)

 

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Raramente um autor consegue dar nome a um fenômeno que milhões de pessoas já perceberam, mas ainda não conseguem explicar. Foi o que Cory Doctorow fez com o conceito de “enshittification”. Quando li seus textos, tive a sensação de encontrar uma descrição precisa para algo que aparecia repetidamente ao longo da pesquisa: a percepção de que plataformas, aplicativos, mecanismos de busca e redes sociais parecem piorar à medida que amadurecem. 

 

O mérito de Doctorow está em mostrar que isso não decorre de acidente nem incompetência. É consequência dos incentivos econômicos que governam esses ambientes. 

 

Luiz Cesar Pimentel é jornalista, escritor e executivo digital. Foi editor-executivo da revista IstoÉ e dirigiu operações digitais da Fox, Jovem Pan e R7. Atuou como repórter na Folha de S.Paulo e editor digital no UOL e na Trip, foi correspondente na Ásia e realizou coberturas em mais de 30 países. Mestre em ciências sociais , especializou-se em estratégia de comunicação pelo Poynter Institute e em inteligência artificial aplicada à comunicação pela University of California, nos EUA. Criou e foi sócio da revista e editora [ ] Zero e desenvolveu projetos de comunicação para marcas e artistas musicais. Autor de 14 livros, investiga as relações entre cultura, tecnologia e poder.