Qual o problema de ter um senador como comentarista da Copa

Romário e Fernanda Gentil durante pré-jogo de Brasil e Marrocos na Copa do Mundo dos 2026

O senador e ex-jogador de futebol Romário (PL-RJ) tem atuado como comentarista na Copa do Mundo de 2026 presencialmente nos Estados Unidos. O Mundial se encerra em 19 de julho.

Romário não se licenciou do mandato parlamentar. Tampouco o Senado Federal está em recesso. 

Neste texto, o Nexo explica o que Romário está fazendo na Copa, como ele está exercendo suas funções parlamentares e como funcionam as regras de licença.

A atuação de Romário na Copa

Romário é senador pelo PL do Rio de Janeiro desde 2015. Com mandato até 2030, ele não disputará reeleição em outubro. Antes de ser eleito, era jogador de futebol — conquistou o tetracampeonato com a seleção brasileira na Copa de 1994 e foi eleito o melhor jogador do mundo no mesmo ano.

Ele foi contratado como comentarista da Copa do Mundo pelo canal CazéTV, do YouTube, e escreve uma coluna no jornal O Globo. O primeiro texto foi publicado em 14 de junho — um dia depois da estreia da seleção brasileira com um empate por 1 a 1 contra o Marrocos.

Além disso, o ex-jogador de futebol tem desenvolvido seu canal, Romário TV, no YouTube, onde tem um programa e comenta o evento esportivo. Muitos dos conteúdos da CazéTV e da Romário TV estão associados a bets.

O senador permanece em exercício parlamentar durante todo o período da Copa, que se encerra em 19 de julho. A viagem ao exterior foi comunicada formalmente à Casa como deslocamento particular, sem custos para o Senado Federal.

No início do ano, o ex-jogador esteve de licença parlamentar por 120 dias. Durante o período de afastamento, o suplente Bruno Bonetti (PL-RJ) ocupou a vaga no Senado. Romário retornou em 15 de abril. Porém, menos de um mês depois de retornar às atividades parlamentares, ele viajou para os EUA, uma das sedes do Mundial — as outras são México e Canadá.  

Sessões semipresenciais

Enquanto comenta jogos do Mundial, Romário participa das sessões legislativas remotamente. Isso só ocorre porque durante o período de São João e da Copa do Mundo o Senado está funcionando em regime semipresencial.

O modelo é regulamentado pelo Ato da Comissão Diretora nº 1/2023, que disciplina a presença virtual em sessões e reuniões e a votação por meio do aplicativo eletrônico utilizado pela Casa. Esse mecanismo foi criado durante a pandemia de covid-19, porém passou a fazer parte da rotina legislativa. O sistema permite que parlamentares participem de determinadas sessões e votações à distância.

A cientista política Beatriz Rey, pesquisadora da Universidade de Lisboa, afirmou que esse modelo não só atrapalha o debate legislativo, como também a construção de acordos e outras costuras políticas que necessitam do convívio dos parlamentares no mesmo ambiente. Ela acrescentou que não há justificativa para manter a deliberação remota.

“Deveria ser [usada] em situação de exceção, como foi a pandemia, não durante as festividades de São João”, disse ao Nexo.

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Em dias de partidas da seleção brasileira, o Senado tem estado em ponto facultativo. Há sessões deliberativas agendadas para as próximas semanas. Não está claro qual será o formato.

Caso as sessões sejam convocadas em formato presencial, os parlamentares que não estiverem presentes levam faltas, o que pode acarretar descontos no salário.

Em 10 de junho, véspera da abertura da Copa, Romário registrou presença numa sessão do Senado, porém não participou da votação que confirmou a indicação do ministro Benedito Gonçalves, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), para o CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Ele também participou remotamente de uma sessão deliberativa por videoconferência em 16 de junho.

“Não há afastamento do mandato nem interrupção das atividades legislativas. O senador continuará acompanhando as pautas do Congresso Nacional, exercendo suas funções parlamentares em defesa da população do estado do Rio de Janeiro”, disse a assessoria do senador ao jornal Folha de S.Paulo.

A licença parlamentar e as atividades privadas

O Regimento Interno do Senado Federal estabelece que senadores podem se licenciar por tratamento de saúde ou interesse particular. No primeiro caso, os parlamentares podem continuar recebendo seus salários, o que não acontece quando o afastamento ocorre por interesse particular.

R$ 46.366,19

é o salário bruto de um parlamentar — deputado federal ou senador

Pelas regras do Senado, o afastamento do titular por interesse particular tem prazo máximo de 120 dias.

A Constituição Federal impõe restrições a parlamentares quanto a terem outras atividades, quando essas envolvem conflito de interesses, como contratos com o poder público ou ocupação de determinados cargos. Não há, todavia, proibição geral de exercer atividades privadas em paralelo ao mandato.

“O ganho econômico está em desacordo com o que se espera de um senador que não está licenciado”, ponderou ao Nexo Ricardo Braga, professor voluntário do Instituto de Ciência Política da UnB (Universidade de Brasília). O valor do contrato com a CazéTV não foi divulgado.

Braga acrescentou que outro problema é o fato de o parlamentar estar sendo negligente com as atividades do Congresso. “O Senado tem sua rotina e não foi decretado recesso.”

Para Rey, o caso Romário reflete a importância que muitos senadores e deputados dão à atividade parlamentar. “Grande parte dos parlamentares ainda usa a cadeira no Legislativo como oportunidade para outros cargos, inclusive no Executivo de estados e municípios.”