
Beto Sicupira, um dos investigados no caso Americanas
A Polícia Federal cumpriu na quinta-feira (25) a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga a fraude da Americanas. A investigação mira em acionistas da companhia — incluindo Beto Sicupira e Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann — e executivos vinculados ao Itaú, Bradesco e Santander.
R$ 54 bilhões
em bens e valores dos investigados serão sequestrados, como determinado pela 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro na quinta-feira (25)
A fraude eclodiu em 2023 a partir de supostas inconsistências bilionárias nos balanços da Americanas. Em 2024, as investigações chegaram a ex-diretores da empresa, suspeitos de operar um esquema sobre contratos de VCP (verba de propaganda cooperada). Agora, entram numa nova fase.
Neste texto, o Nexo explica o caso, mostra o que as novas suspeitas revelam e conta como a fraude pode impactar o sistema financeiro.
Em janeiro de 2023, a Americanas comunicou ao mercado que havia encontrado “inconsistências em lançamentos contábeis” estimadas em R$ 20 bilhões. Segundo o documento, o rombo teria ocorrido “ao longo de anos” no registro de dívidas relativo ao que se chama de “risco sacado” — operação financeira em que um banco assume o pagamento de uma empresa a um fornecedor, fazendo da companhia sua devedora.
A comunicação da varejista sobre o caso foi nebulosa. Na época, não ficou claro o que aconteceu com o balanço e com o registro das operações de risco sacado, muito menos como as inconsistências bilionárias teriam ficado escondidas do público por tanto tempo.
Em junho, após uma investigação interna, a empresa admitiu que havia dois esquemas fraudulentos centrais de manipulação do crédito de risco sacado em seus balanços. Um permitia ao outro que nenhum deles fosse detectado “a olho nu”.
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Segundo a declaração, os empréstimos bancários que deveriam ser registrados como dívida financeira da Americanas eram categorizados como pagamento aos fornecedores. Com isso, a conta da empresa ficava artificialmente inflada, e sua dívida, com um valor menor que o verdadeiro.
Em paralelo, a companhia registrava falsos contratos de VPC. No varejo, é comum que as empresas ganhem descontos nas suas compras junto a fornecedores ao ajudar com o marketing. Ou seja: uma varejista pode pagar um pouco menos a um fornecedor em troca de mais exposição dos seus produtos. No caso da Americanas, a loja dizia que ganhava descontos, mas os acordos nunca existiram.
As fraudes tiveram dois efeitos principais sobre os números da empresa. O primeiro foi a redução artificial da dívida. O outro foi o falso aumento do lucro. Esses dois movimentos resultaram no aumento do preço das ações da varejista na Bolsa de Valores e permitiram que seus diretores recebessem bônus baseados nos lucros.
Num primeiro momento, acionistas da Americanas também foram beneficiados com a distribuição de dividendos — algo que a empresa fazia mais que qualquer outra varejista brasileira, como mostrou reportagem de 2023 da revista Piauí.
Ainda em janeiro de 2023, dias depois de a fraude eclodir, a Americanas entrou em recuperação judicial. Isso ocorre quando não há acordo entre uma empresa e seus credores, e a mediação precisa ser feita nos tribunais.
R$ 43 bilhões
em dívidas foram registrados pela Americanas em seu plano de recuperação judicial, incluindo o montante do rombo
Três anos depois, em março, a Americanas pediu à Justiça para sair da recuperação judicial antecipadamente — o que ainda não foi acatado.
Isso ocorreu depois de a companhia começar a vender, em fevereiro, uma série de imóveis, comprometendo-se a destinar parte do valor para amortizar dívidas ou resgatar debêntures (títulos de dívidas para captar recursos).
A empresa sustenta que o administrador judicial e o Ministério Público já deram aval à saída do regime.
Além das investigações internas da Americanas, conduzidas por um comitê independente, a Câmara dos Deputados instalou uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar o rombo na varejista em maio de 2023. O documento final entregue pelo colegiado foi aprovado quatro meses depois com conclusões dúbias — indicando que houve fraude, mas sem elementos suficientes para cravar o esquema.
Na época, parlamentares criticaram a condução da CPI por não convocar os maiores acionistas da Americanas:
Juntos, os três detêm cerca de 30% das ações da empresa. O trio também fundou o fundo de investimento 3G Capital — presente em multinacionais como Ambev (controlada pela AB InBev), Burger King e Kraft Heinz. Sobre as fraudes, eles disseram que jamais tiveram conhecimento dos esquemas, não admitiriam manobras ou dissimulações contábeis e acreditavam “firmemente” que tudo estava absolutamente correto.
O caso também é apurado pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), órgão ligado ao Ministério da Fazenda que regula o mercado de capitais. O procedimento gerou inquéritos e processos administrativos, mas ainda caminha lentamente e sem punições expressivas.
Apesar disso, as investigações da CVM contribuíram para a busca pela resolução do caso em âmbito criminal. Em 2024, a Operação Disclosure chegou a pelo menos 14 ex-dirigentes da Americanas. Dois deles foram alvos de mandados de prisão preventiva, mas estavam no exterior:
Segundo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, as investigações apontavam indícios de manipulação de mercado, uso de informação privilegiada, associação criminosa e lavagem de dinheiro pelos ex-dirigentes.
Gutierrez disse à CVM em 2023 que nenhuma decisão estratégica era adotada sem anuência dos principais acionistas.
A primeira fase da Disclosure foi deflagrada com base em delações de outros ex-diretores: Marcelo da Silva Nunes e Flávia Pereira Carneiro Mota. Os depoimentos foram acordados com o Ministério Público Federal em agosto de 2023. Mais tarde, em 2025, o órgão fechou mais dois acordos de colaboração premiada com os ex-diretores Fabio Abrate e Márcio Cruz.
Na quinta-feira (25), a segunda fase da Operação Disclosure chegou a Sicupira, um dos acionistas de referência da Americanas, que teria acompanhado de perto as ações da empresa. Outro alvo foi Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann e conselheiro de administração da empresa. Ambos deixam o conselho da companhia em setembro de 2024.
De acordo com a Polícia Federal, eles estavam cientes das operações de VCP e risco sacado, podendo responder criminalmente por manipulação de mercado e associação criminosa.
“O registro contábil era efetuado sem qualquer documentação de suporte. Documentos falsos para amparar esses lançamentos contábeis seriam criados, quando e se necessários, apenas para atender eventual demanda de comprovantes pela auditoria externa”
Delatores do caso Americanas
em declaração que baseia a Operação Disclosure
Segundo Abrate, um dos delatores do caso, instituições financeiras também tiveram papel importante na fraude por ocultar informações sobre as operações de risco sacado, já que o negócio em rede era lucrativo para os bancos. Com isso, a PF passou a investigar os executivos:
Os acionistas investigados disseram que “foram surpreendidos pela operação” e que, assim como o conselho de administração, “foram continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria da companhia”. Os bancos aos quais parte dos citados são ligados afirmaram em nota que estão à disposição das autoridades para apurações.
Para Ricardo Machado Ruiz, doutor em economia pela The New School for Social Research (Nova York) e professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a magnitude do caso Americanas é surpreendente.
“Supostamente, as informações apresentadas ao mercado nos permitiam julgar [a Americanas] como uma empresa de baixo risco. São informações auditadas. Como ninguém viu [o rombo]?”, disse ao Nexo.
O controle e a fiscalização do mercado de capitais brasileiro são também responsabilidade da CVM, mas o órgão diz ter dificuldade em cumprir suas funções, devido ao aumento de processos e a reduções no quadro de servidores.
Em junho, em meio ao escândalo do Banco Master, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, afirmou que a autarquia passa por “grave crise institucional”. Embora o magistrado tenha determinado um percentual obrigatório de destinação de recursos da União à autarquia, o governo planeja flexibilizar a medida em troca de ampliar o quadro de servidores, conforme adiantou o jornal Folha de S.Paulo.

Loja da Americanas no Rio de Janeiro
Na avaliação de Ruiz, a situação da CVM integra um conjunto de situações que demonstram a fragilidade da supervisão do mercado de capitais — não só pelo setor público, mas também no âmbito privado, segundo ele. “Existem mecanismos de controle, de repactuação, de supervisão, de monitoramento, mas ninguém viu nada”, disse.
O professor explicou que, pela dimensão da Americanas, a fraude terá impactos “tanto na dimensão do curto prazo, que é o financiamento ao fornecedor, quanto na dimensão do longo prazo, com debêntures”.
Em 2022, antes de o caso eclodir, a varejista foi considerada pela agência Fitch Ratings como “AAA” na escala de classificação de risco de crédito — isto é: naquela época, a empresa era considerada de baixo risco de inadimplência para emissão de debêntures.
Por isso, de acordo com Ruiz, a fraude pode gerar uma reação negativa no mercado, impactando a reputação de outras empresas como a Americanas e fazendo investidores recuarem. Bancos que emitiram debêntures para a companhia também podem ser afetados.
94%
de desconto foram oferecidos por parte dos investidores com debêntures da Americanas em 2023, na tentativa de vender papéis de dívida
“Além de o banco ter sua reputação afetada junto aos seus clientes, para quem ele está vendendo os títulos, muitas vezes a própria instituição compra esse título. Ou seja, ela também se compromete com isso”, disse.