A arquitetura presente no pensamento armorial

A busca por uma expressão artística que seja, ao mesmo tempo, profundamente brasileira e universalmente erudita encontra no Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna na década de 1970, um de seus pilares mais sólidos. A obra de Ariano é tão completa, que perpassa a literatura e o teatro com uma vocação espacial e construtiva de seu pensamento. No que tange à arquitetura, oitavo capítulo do manifesto, e aos desafios climáticos e culturais do Brasil, o legado armorial revela-se como um canteiro de obras ainda aberto, em que a tradição popular é matéria-prima para uma contemporaneidade adequada e genuína. O movimento foi, antes de tudo, um amplo trabalho de pesquisa e reconhecimento de expressões nordestinas, uma ode ao povo brasileiro e um “chega pra lá” nos estrangeirismos.

Sua crítica não era ao novo, mas à falta de integridade e de conexão com o espírito do lugar

O termo “armorial”, resgatado por Suassuna, remete diretamente à heráldica e aos livros que catalogam as correspondências entre linhagens e seus respectivos brasões. Na Europa medieval, o brasão era a marca distintiva no escudo, o signo que separava o aliado do inimigo. Ao transpor esse conceito para o solo brasileiro, Ariano realizou uma operação de subversão. Para ele, nossa verdadeira heráldica não é burguesa; é popular. Está gravada no ferro de marcar bois, no couro dos gibões, nos estandartes das Cavalhadas e na geometria viva dos Caboclinhos. Ao assumir o adjetivo “armorial” como um substantivo, Suassuna propôs uma coalizão de tendências que valorizassem esses elementos. A arquitetura brasileira também deveria perseguir uma forma que responda à nossa realidade sem cair no pastiche ou na cópia servil de modelos estrangeiros.

Dentro do Manifesto Armorial, a arquitetura surge como um campo de batalha contra o que Ariano chamava de “arquitetura brancosa e esterilizada”. Ele era um crítico feroz da funcionalidade mal compreendida, que muitas vezes servia apenas como desculpa para a imposição de uma estética econômica e despersonalizada. Para o autor, o argumento de que os materiais modernos e fabricados em série são uma necessidade absoluta era, frequentemente, uma hipocrisia para justificar a demolição de casarões belos e sóbrios em favor de aparências falsificadas. Ariano via nessa substituição não um progresso, mas uma acomodação rotineira que empobrecia a paisagem urbana e a alma do povo. Sua crítica não era ao novo, mas à falta de integridade e de conexão com o espírito do lugar.

Como alternativa a essa esterilidade, na esfera de edificações públicas, Suassuna apontava para o trabalho de Antonio Gaudí. O arquiteto catalão era, para ele, o gênio que soube reinventar cada material, sem medo das formas imaginosas ou das cores fortes. Ariano propunha que tentássemos fazer em relação ao Brasil e à América Latina o que Gaudí fez em relação à Espanha: uma arquitetura que brotasse das raízes culturais locais, mas que atingisse uma dimensão universal pela força de sua criatividade. Essa arquitetura sonhada por Ariano deveria brilhar ao sol como uma joia (leia-se joia as lantejoulas e pedrarias usadas nos cortejos e repletas de significado), integrando harmoniosamente a cerâmica, as artes plásticas e a escultura. Ele imaginava edifícios que não fossem apenas recipientes, mas monumentos celebrativos da existência, utilizando o azul e o verde da zona da mata ou o ocre e o amarelo do sertão.

Essa visão integrada é o que aproxima o pensamento armorial de uma prática arquitetônica contemporânea que busca a territorialidade. Ao observar elementos como o cobogó, a carpintaria detalhada ou o uso do alpendre como zona de transição, percebemos que existe uma heráldica construtiva já presente no saber popular. A arquitetura armorial seria aquela capaz de transformar esses sinais em uma linguagem erudita, respeitando a luz tropical e a ventilação natural, que Suassuna indiretamente celebrava ao exigir uma arte que fosse “incendiada” pelo sol. O projeto arquitetônico, portanto, torna-se um ato de resistência contra a banalização cultural, um esforço para projetar espaços em que o brasileiro se reconheça como autor de seu próprio brasão.

A cor, para Ariano, nunca foi um detalhe decorativo aposto ao conjunto, mas algo integrado ao organismo do edifício. Ele descrevia catedrais e casas que pudesse avistar com alegria, uma imagem que remetesse à função transcendental da arquitetura de elevar o cotidiano. Essa busca pela beleza não era um luxo, mas uma necessidade ética. O arquiteto, sob essa ótica, deve ser um mediador entre a técnica e o mito, entre o material e o significado simbólico. O desafio posto pelo Movimento Armorial à arquitetura é criar uma síntese que ultrapasse o funcionalismo tacanho e alcance uma expressão que seja, ao mesmo tempo, sólida como a pedra do sertão e fluida como as fitas de um estandarte.

Entretanto, é fundamental notar que Ariano Suassuna não apresentava essas ideias como dogmas imutáveis ou fórmulas prontas. Com uma humildade que sublinhava a grandeza de seu intelecto, ele frequentemente se referia a essas proposições como um “sonho”. Não pretendia impor um estilo, mas lançar uma semente. Declarava explicitamente estar disposto a abandonar suas próprias ideias e formulações se algo mais eficaz, mais forte e mais bem estruturado surgisse. Ele compreendia que a arquitetura tem exigências técnicas e formais próprias, e seu desejo era que essas discussões fossem levadas adiante por aqueles que dominam o ofício. O que ele ofereceu foi um norte cultural, um rascunho de uma civilização brasileira possível, deixando para os arquitetos o desafio de dar corpo a esse sonho, traduzindo-o em estruturas capazes de sustentar, com rigor e poesia, a identidade de um povo.

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Dimitri Buriti é parahybano, formado em arquitetura e urbanismo pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e mestrando em comunicação e semiótica. Dedica-se à criação de projetos de arquitetura, mobiliário e objetos a partir do diálogo entre forma, função e territorialidade. Seu trabalho articula o fazer manual e saberes tradicionais da cultura brasileira.