Bad Bunny e as lições para as cadeias de valor globais

Em fevereiro, tive o prazer de assistir ao magnífico show de Bad Bunny em São Paulo. Um espetáculo realmente emocionante, não só pela potência musical e artística deste que é provavelmente o maior ícone cultural do mundo no momento, mas também pela mensagem que carrega. A América Latina está na moda, e Bad Bunny nos mostra que é possível inverter parte da lógica tradicional do mercado cultural global, historicamente dominado pelo inglês como idioma central de legitimação e circulação internacional. Milhões de pessoas consomem, cantam e se conectam com seu espanhol porto-riquenho, deslocando o eixo do poder simbólico da indústria cultural e demonstrando que a experiência latino-americana pode ocupar o centro do mercado global sem abrir mão de sua autenticidade. 

Esse deslocamento, porém, acontece dentro de uma economia cultural global altamente concentrada e assimétrica. As indústrias culturais e criativas somam cerca de US$ 2,25 trilhões por ano e 29,5 milhões de empregos no mundo, respondendo por algo como 3,1% do PIB (Produto Interno Bruto) global e 6,2% do emprego – mas os principais mecanismos de captura de valor (propriedade intelectual, financiamento, plataformas, distribuição e marketing) seguem majoritariamente ancorados no Norte Global. No comércio internacional, por exemplo, as exportações de serviços criativos chegaram a US$ 1,4 trilhão em 2022 (quase o dobro dos US$ 713 bilhões em bens criativos), e economias desenvolvidas tendem a dominar justamente os nichos de maior valor agregado. Mesmo na música gravada – em que artistas latino-americanos vêm ganhando protagonismo – a concentração regional permanece: EUA e Canadá responderam por 40,3% das receitas globais em 2024. 

Enquanto as cadeias globais de valor costumam centralizar o valor no topo, o desenho do palco de Bad Bunny faz o valor circular para fora

Tal como o mercado cultural, as cadeias globais de produção agrícola são organizadas a partir de uma lógica desigual: o valor é criado em diversos territórios, mas o poder e a maior parte dos lucros se concentram nos países de economia avançada. Produtores e trabalhadores da América Latina, África e Ásia frequentemente assumem os maiores custos sociais e ambientais, enquanto compradores, marcas e varejistas de países consumidores capturam uma parcela desproporcional dos ganhos. Na cadeia da banana, produtores latino-americanos costumam receber apenas cerca de 10% a 15% do preço final, enquanto o varejo concentra aproximadamente 40% do valor. No cacau, agricultores capturam em média 6% a 11% do valor de uma barra de chocolate, enquanto marcas e supermercados ficam com cerca de 70% dos ganhos. Situação semelhante ocorre no café, que movimenta mais de US$ 200 bilhões por ano, mas menos de 10% desse valor permanece nos países produtores, com a maior parte sendo apropriada por torrefadoras, marcas e cafeterias nos países desenvolvidos. 

O resultado é um desequilíbrio estrutural que reproduz relações de dependência, mantendo o poder de decisão distante das comunidades que efetivamente produzem os bens. Países do Norte Global – frequentemente antigas potências colonizadoras – continuam definindo padrões, preços e condições de acesso ao mercado, enquanto países produtores permanecem posicionados como fornecedores de matérias-primas, trabalho e produção de baixo custo. 

O projeto artístico de Bad Bunny desafia simbolicamente essa lógica em vários aspectos. Ao colocar Porto Rico no centro, celebrar a identidade latino-americana e afro-diaspórica e fazer referências explícitas à colonização, o artista inverte a direção tradicional do prestígio cultural. Da mesma forma, ele inicia sua turnê a pleno vapor na América Latina, para apenas depois explorar o Velho Continente (para não dizer da sua rejeição em se apresentar nos Estados Unidos como protesto às medidas anti-imigratórias de Donald Trump). Isso não é trivial: grandes turnês normalmente chegam à periferia cansadas, depois de rodar o mundo e quando o frisson do álbum já passou.

Até mesmo a arquitetura do seu show pode ser interpretada como uma inversão da lógica das cadeias globais de valor. Com dois palcos opostos – o palco principal e a casita em lados extremos do estádio –, o espetáculo redistribui proximidade e atenção, em vez de concentrá-las apenas nos setores mais caros e ao público mais endinheirado. Na prática, isso cria momentos em que diferentes partes do público, inclusive aqueles que pagaram menos, podem vivenciar proximidade, visibilidade e conexão com a performance. Trata-se de um gesto simbólico poderoso: enquanto as cadeias globais de valor costumam centralizar o valor no topo, o desenho do palco de Bad Bunny faz o valor circular para fora, tornando o acesso mais democrático.

Mas não se trata apenas de clamor ingênuo por “redistribuição”. Se há uma lição que as cadeias globais de valor podem extrair da inversão simbólica proposta por Bad Bunny é o fato de que redistribuição depende de conflito regulado, regras e contrapesos numa arena em que o poder é estruturalmente assimétrico. Repensar governança implica ir além de apelos voluntários e envolve mecanismos verificáveis de transparência e formação de preço, contratos de longo prazo e práticas de compra responsáveis, negociação coletiva e diálogo social transnacional – além de instrumentos como requisitos legais de devida diligência, enforcement e políticas que enfrentem o poder de compra concentrado. Organismos multilaterais como a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) – e, com limitações, algumas certificadoras – podem abrir espaço, produzir métricas e criar referências comuns, mas não substituem as decisões distributivas que precisam ser incorporadas a regras, incentivos e formas de accountability. Assim como o show redesenha a experiência no estádio, uma nova governança só “redesenha” renda digna e salário digno quando altera quem define padrões, quem assume riscos, quem captura margens e quem tem voz real na tomada de decisão.

Algumas coisas, como a falta de molho e tempero, não têm solução, é verdade. Mas a disposição para transformar a concentração de poder em sistemas mais equilibrados, sustentáveis e socialmente justos certamente não é uma delas. Reduzir tais desigualdades depende não apenas de ajustes de mercado, mas do fortalecimento de instituições capazes de equilibrar relações estruturalmente assimétricas. Talvez assim o mundo terá mais (e melhores) fotos para serem tiradas.

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Ian Prates é doutor em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo). Pesquisador sênior do Anker Research Institute e diretor da parceria ARI-Cebrap para salários dignos no Brasil. Colabora com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) nas áreas de trabalho decente e cadeias de valor sustentáveis.