O Oscar não veio, mas a torcida continua. Agora, é um romance brasileiro que chega aos finalistas de um importante prêmio no Reino Unido, o Booker Prize International.
Trata-se de “Assim na terra como embaixo da terra”, de Ana Paula Maia. Foi publicado pela editora Record em 2017 e agora, em tradução de Padma Viswanathan, sai pela Charco Press, editora escocesa especializada em autores latino-americanos contemporâneos.
O livro de Ana Paula Maia procura despertar mais horror do que inquietação, e não foge das habituais preocupações da literatura brasileira com a violência policial e a criminalidade da classe baixa
É uma narrativa curta (110 páginas), que lembra longinquamente “Na colônia penal”, de Kafka, e “O deserto dos tártaros”, de Dino Buzzati. Poucos presos restam vivos numa penitenciária agrícola esquecida pelas autoridades. Entregues ao arbítrio de Melquíades, um diretor meio enlouquecido, os detentos esperam a chegada de um corregedor (o texto, equivocadamente, lhe dá o título de “oficial de justiça”) que, quem sabe, talvez possa transferi-los para longe daquele lugar maldito.
Maldito, sim, porque há relatos de que, em outros tempos, muitos escravizados tinham sido mortos ali. Durante um enterro, faz-se uma descoberta macabra. Água e comida começam a faltar. A oportunidade de traçar um paralelo com Auschwitz não foi negligenciada pela autora.
Ressalve-se que as semelhanças com Buzzati e Kafka são bem superficiais. O livro de Ana Paula Maia procura despertar mais horror do que inquietação, e não foge das habituais preocupações da literatura brasileira com a violência policial e a criminalidade da classe baixa.
Cheiro de carne podre, caçadas humanas, espancamentos com barra de ferro – esse tipo de coisa talvez surja como novidade para o leitor estrangeiro, não necessariamente conhecedor do realismo de choque e de sangue que há algumas décadas se pratica por aqui.
Para os jurados do Booker Prize, é possível que “On Earth as It Is Beneath” (este o título em inglês) tenha parecido original e impressionante. O mais decisivo, acho, é que foram poupados da inacreditável pobreza de linguagem com que se tropeça a cada página do original em português.
A escrita desse livro, lamento dizer, é desastrosa. Fica difícil entender o que faz uma editora de nome, como a Record, quando deixa passar a quantidade de redundâncias, de infelicidades, de desajeitamentos que aparecem em “Assim na terra como embaixo da Terra”.
Olha que não é preciso escavar muito. Seguem-se alguns exemplos.
Um dos personagens, Bronco Gil, “acende um cigarro. Havia guardado este último para degustar quando finalmente concluísse seu trabalho.”
“Degustar”? “Este último”? Talvez a ideia seja tornar a linguagem mais “literária”, não sei. Estamos perto do famoso aviso do elevador em que se recomenda verificar se “o mesmo se encontra parado neste andar”.
Do mesmo modo, a vontade de “escrever difícil” faz com que, em vez de contar que Fulano escorregou num barranco enlameado, a autora prefira dizer que ele se precipitou “sobre o dorso escorregadio de uma elevação barrosa”.
Este caso é ainda mais complicado: “Valdênio cozinhava um mingau para o cão, quando este deixou de se alimentar; por tão fraco, sua mordedura fragilizada já não triturava mais nada”. É visível o esforço de evitar o uso de sinônimos: como não dá para escrever algo como “o cachorro estava tão fraco que sua mordida estava fraca demais para morder qualquer coisa”, a frase teve de dar essa volta toda em torno do próprio rabo.
Mas não é só isso. A autora tem um problema estranho com os tempos verbais, e com o uso de palavras simples como “quando”, ou “depois”.
No exemplo de Valdênio e seu cachorro, não faz sentido que o personagem estivesse cozinhando quando o cão (“este”) deixou de se alimentar. É óbvio que o cão não parou de comer enquanto Valdênio cozinhava. Imagino que já estava sem comer por um bom tempo. Na verdade, foi depois de estar pronto o mingau que Valdênio percebeu que o cachorro já não estava mais em condições de comer nada.
Confusão parecida surge numa sentença bem simples, que em teoria não tinha como sair errado: “Já se passaram quatro horas desde que Melquíades pegou o jipe e anunciou que Pablo havia escapado”. Pegou o jipe e depois anunciou? Ou anunciou e aí pegou o jipe?
Ah, o jipe. Alguém “escuta o ruidoso som do motor do jipe”. Poderia ter escutado o motor, escutado o ruído, escutado o som, escutado o jipe. Mas, na dúvida, achou-se melhor juntar tudo na mesma frase.
As redundâncias continuam: ouve-se “um som repetitivo que repercute aqui e acolá insistentemente.”
Será que estou sendo insistente, ou repetitivo? Vejo minhas anotações de leitura. Não pus neste artigo nem um terço das barbaridades que encontrei.
Quem sabe em inglês isso tudo tenha desaparecido. Não custa torcer.
Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você