Para que servem as mulheres? Jeffrey Epstein explica

Para que servem as mulheres? A depender do comportamento da elite masculina mundial, revelado nas milhares de mensagens que compõem os arquivos do caso Jeffrey Epstein, para organizar jantares, viagens, “embelezar” eventos e, claro, para o sexo. 

A essa altura, não é mais preciso explicar quem é Jeffrey Epstein. O fantasma do financista estadunidense condenado por tráfico sexual de menores, que cometeu suicídio em sua cela na prisão em 2019, assombra uma quantidade suficiente de pessoas para continuar pautando a imprensa mundial. 

Após a liberação de um conjunto de documentos no último mês, o interesse pela história do magnata estuprador só aumentou (é possível “navegar” nos arquivos no site Jmail). De cientistas e intelectuais a políticos, passando por integrantes de monarquias europeias e os “tech bros” do Vale do Silício, a quantidade de gente finíssima, elegante e sincera da aristocracia planetária que formava a rede de relacionamentos de Epstein é emblemática de seu poder e influência. 

Enquanto líderes e magnatas como Epstein trocam favores e prestígio, pessoas do gênero feminino são tratadas como objetos, excluídas de decisões e dos círculos de poder

Para além de expor comunicações sórdidas, como o email em que um desesperado Bill Gates pede sugestão de remédios contra IST (infecção sexualmente transmissível), que ele pretendia dar à ex, Melinda, sem que ela soubesse, impressiona o papel das mulheres na trama. Exceto por cúmplices conhecidas – Ghislaine Maxwell, namorada de Epstein, era uma das responsáveis por aliciar meninas –, a maioria aparece como commodity ou serviçal.

No universo desses homens poderosos, mulheres servem para transar ou colocar em prática logísticas impecáveis. Enquanto líderes globais trocam favores e prestígio, pessoas do gênero sexo feminino são tratadas como objetos, excluídas de decisões e dos círculos de poder.

A partir desse recorte, o jornal britânico The Guardian escrutinou os documentos e traçou um ilustrativo panorama do “patriarcado em ação” na dinâmica de poder da high society masculina mundial. O relato confirma o que acadêmicas feministas como a italiana Silvia Federici afirmam a respeito do lugar que o capitalismo reservou às mulheres. 

Segundo ela, na transição para esse modelo econômico, a população feminina na Europa (e posteriormente em suas colônias) foi privada de suas liberdades, incluindo o direito sobre os próprios corpos, transformando-se em propriedade, mão de obra barata ou sem qualquer remuneração, a exemplo das donas de casa confinadas ao ambiente doméstico. 

Num email entitulado “Pessoas para Bill” enviado ao assistente de Bill Gates (sim, ele de novo), Epstein trata de um jantar organizado para o fundador da Microsoft, apresentando um elenco de homens poderosos que incluía o então secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, o diretor de cinema Woody Allen (cujo nome é mencionado em outros documentos), o primeiro-ministro do Qatar, bilionários e políticos estadunidenses. 

Ao final, de acordo com o Guardian, o financista sugere a presença da atriz Anne Hathaway, colocando entre parênteses um “sério”, para enfatizar a presença da atriz hollywoodiana no convescote, e de modelos da marca de lingerie Victoria Secrets. “Quem da lista você acha que ele mais vai gostar?”, questiona Epstein. 

Além de atribuições decorativas e sexuais, as mulheres que orbitam em torno dessa gente estruturam agendas, viagens, refeições e cuidam para que o cotidiano dos magnatas ocorra sem atropelos. Nas trocas recuperadas pelo jornal dos arquivos liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Lesley Groff, assistente executiva de Epstein, aparece organizando “reuniões, petiscos e sexo”. Provável que entre as atribuições de Leslie estivesse ainda antecipar os desejos do patrão, como esperado de mulheres na esfera caseira ou profissional.

Também não há horário comercial para pautar missões. Num sábado à noite, Epstein escreve a Leslie dizendo que gostaria de organizar um seminário sobre poder e outro sobre dinheiro. Entre os convidados, o financista sugere Bill Clinton, Jeff Bezos (dono da Amazon), Peter Thiel (cofundador do PayPal), Bill Gates e outros. Desta vez, como destaca o jornal, nenhuma mulher é incluída. 

Ao mesmo tempo que atende a pedidos como esse, a assistente se encarrega de levar até o chefe jovens russas, do Leste Europeu etc., emitindo passagens, providenciando vistos, quartos de hotel, sessões de sauna e sabe lá o que mais.  

A rotina me lembrou a série “Mad Men”, que mostra o cotidiano de uma agência de publicidade na Nova York dos anos 1960. Na trama, secretárias, esposas e amantes estão sempre lindas, cheirosas e prontas para realizar as vontades masculinas. Ao longo de sete temporadas, essas personagens vivem uma revolução de comportamento e sexual, refletindo o espírito de um tempo de mudanças. Dedicadas cônjuges se emancipam de maridos infiéis e profissionais conquistam espaço, chegando ao topo da carreira.

Infelizmente, no que depender de Epstein, sua turma e muitos outros homens por aí, o cotidiano das mulheres no século 21 está mais para a distopia de outra série, “O conto da aia”, do que para a tão sonhada era do empoderamento pela qual tanto lutamos.