O Brasil está mais próximo de alcançar um objetivo que parecia distante há poucos anos: universalizar a conectividade nas escolas. Os últimos dados do Censo Escolar 2025, divulgados pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), mostram que o Brasil avançou de forma significativa, passando de 78% de escolas públicas com acesso à internet em 2021 para 93% em 2025.
Esse é um avanço importante, já que, segundo levantamento da MegaEdu com microdados do Censo, cerca de 30 mil escolas públicas ainda estavam desconectadas em 2021, número que caiu para aproximadamente 9.000 unidades educacionais. Ou seja, houve uma redução de quase 70% no número de escolas da rede pública sem acesso ao mundo digital. Também houve uma queda expressiva no contingente de estudantes que ainda frequentam escolas sem internet: de 2,4 milhões para cerca de 540 mil.
Porém, apesar do avanço, ainda há um caminho a ser percorrido e territórios que devem ser olhados com cuidado. As escolas públicas ainda sem acesso à internet estão concentradas justamente em regiões mais vulneráveis: 89% delas estão no Norte e Nordeste e 91% em áreas rurais, muitas em localidades de difícil acesso. Apenas três estados da Amazônia Legal (Pará, Amazonas e Maranhão) concentram 59% do deficit nacional de conectividade escolar.
2026 é um ano decisivo para a transformação digital da educação brasileira
Esse cenário revela duas dimensões de um grande desafio: concluir a universalização do acesso e garantir que a conexão disponível chegue realmente aos estudantes. Os impactos da falta de conectividade começam na gestão escolar. Em muitas localidades remotas do país, diretores ainda precisam viajar horas ou até mesmo dias para acessar sistemas administrativos, enviar documentos ou resolver demandas com as secretarias de educação locais. Com a internet disponível na escola, demandas burocráticas passam a ser resolvidas de forma rápida, liberando tempo para aquilo que realmente cabe e importa a um gestor: acompanhar o desenvolvimento dos estudantes e apoiar o trabalho pedagógico dos educadores.
Para os professores, a conectividade também muda a rotina. Com a internet, torna-se possível pesquisar conteúdos atualizados, planejar aulas com novos recursos e utilizar plataformas digitais para organizar atividades e avaliações. Em muitas redes, a internet também permite o preenchimento de diários digitais e a participação em formações online, ampliando as oportunidades de desenvolvimento profissional.
Mas é na experiência do estudante que a conectividade mostra seu potencial mais transformador. Em algumas regiões do país, especialmente em áreas rurais e comunidades mais isoladas, a internet permite o acesso a conteúdos, disciplinas e experiências educacionais que antes não chegavam até os alunos. Na Escola Municipal São Judas Tadeu, localizada na zona rural de Manaus, a conectividade passou a viabilizar atividades antes inacessíveis, como aulas remotas com professores de outras regiões. Desde que a escola foi conectada, no fim de 2025, os alunos passaram a ter, por exemplo, aulas semanais de coreano com uma professora em São Paulo, a quase 4.000 km de distância.
A tecnologia pode conectar estudantes ao conhecimento e desenvolver competências digitais essenciais para o mundo atual. No entanto, para que os alunos possam usar a internet é necessário ver um salto também nos dados de acesso a dispositivos no país.
Hoje, menos da metade das escolas públicas brasileiras possuem equipamentos suficientes para permitir ao menos duas horas semanais de uso por estudante, referencial mínimo estabelecido pelo Ministério da Educação. A média nacional é de um dispositivo para cada 55 alunos, mais de cinco vezes abaixo do recomendado. Além disso, uma em cada três escolas ainda não tem nenhum equipamento disponível para uso pedagógico.
Sem computadores, tablets ou outros dispositivos eletrônicos, mesmo uma escola conectada tem dificuldade para integrar a tecnologia ao processo de ensino e aprendizagem.
A boa notícia é que o Brasil já construiu políticas públicas capazes de enfrentar esses desafios. A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas representa um passo importante ao articular financiamento, coordenação entre governo, estados e municípios e a priorização de territórios vulneráveis. A iniciativa prevê conectar nos próximos meses cerca de 7.000 das 9.000 escolas ainda desconectadas.
Além disso, existem recursos disponíveis para acelerar esse processo. A lei nº 14.172, de 2021, destinou verbas para apoiar estados na expansão da conectividade e na aquisição de dispositivos para as escolas públicas. Cerca de R$2 bilhões ainda estão disponíveis pelas redes de ensino até o fim deste ano.
Logo, isso faz de 2026 um ano decisivo para a transformação digital da educação brasileira. A universalização da conectividade está ao alcance e a execução desses recursos pode representar um salto na disponibilidade de equipamentos para garantir que a tecnologia chegue, de fato, às mãos dos nossos estudantes.
Os dados do Censo Escolar 2025 mostraram que o país está avançando. Agora, o desafio é garantir que eles se traduzam em conectividade real, capaz de transformar a gestão escolar, fortalecer o trabalho docente e ampliar as oportunidades de aprendizagem para milhões de estudantes.
Conectar todas as escolas brasileiras é possível e cada passo nessa direção representa um investimento direto no futuro da educação e do país.
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Guilherme Cintra é diretor de tecnologia e inovação da Fundação Lemann
Cristieni Castilhos é CEO da MegaEdu