O que significa o fato de o mais importante prêmio de literatura nacional, o Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, resolver laurear, a partir de agora, os chamados “criadores de conteúdo”? O que se pode inferir sobre o mundo dos livros e da leitura no Brasil quando os chamados influencers ganham uma relevância dessa monta?
O prêmio acaba de lançar uma nova categoria intitulada “Incentivo à Leitura – Cultura Digital” destinada a criadores de conteúdo, os chamados influenciadores digitais que produzem materiais para redes sociais como o Youtube, Instagram, TikTok, além de podcasts. Segundo o regulamento, o prêmio objetiva “reconhecer pessoas ou iniciativas que, por meio de atuação consistente em ambientes digitais, contribuam de forma relevante para a valorização do livro e o incentivo à leitura”. A indicação dos concorrentes passará primeiro por uma consulta pública e depois pelo júri, que selecionará os dez melhores para então, premiar um deles com o valor de R$ 5 mil.
De fato, a ascensão dos criadores de conteúdo como atores relevantes no ecossistema digital, incentivando desde apostas nas famigeradas bets (para ficar com o pior exemplo) até a divulgação científica ética e responsável nas áreas da saúde e outras ciências (para lembrar seu melhor trabalho) é inegável. Uma parcela significativa da população que tem acesso à internet e em especial às redes sociais, é seguidora fiel desses influencers e confia quase que cegamente naquilo que eles postam, comentam, indicam e compartilham. Só para citar números recentes da própria indústria do livro, a nova pesquisa “Panorama do Consumo de Livros”, iniciativa da Câmara Brasileira do Livro com realização da Nielsen BookData, celebra o crescimento da leitura de livros entre os jovens: 18% da população com 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos últimos 12 meses. Para a presidente da Câmara Brasileira do Livro, Sevani Matos, as comunidades virtuais, lideradas pelos influenciadores, têm papel central no crescimento de consumidores jovens. “Criadores de conteúdo, recomendações online e comunidades virtuais têm ampliado o alcance da literatura, especialmente entre os mais jovens”, constata. Esse fenômeno não é recente, e demonstra que só cresce. Uma outra pesquisa do Instituto Pró-Livro na Bienal de São Paulo de 2022 mostrou que 52% dos visitantes foram motivados a ler um livro pela opinião de influenciadores digitais nos últimos três meses do levantamento.
Diversas pesquisas mostram que os criadores de conteúdo, de fato, estão influenciando a maneira como as novas gerações veem e compreendem o mundo em que vivem. Recentemente um dos levantamentos mais importantes do mundo sobre a relação dos jovens com as notícias confirmou esse cenário. O relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism realizado anualmente em parceria com a Universidade de Oxford, atestou o avanço da inteligência artificial e a relevância dos influenciadores digitais no redesenho da forma como jovens se relacionam com as notícias. Entre pessoas de 18 a 24 anos aproximadamente, 15% afirmam utilizar ferramentas de IA para acessar notícias semanalmente, em contraposição a apenas 3% entre pessoas com 55 anos ou mais. Entre este mesmo público, dentre os que consomem notícias nas redes sociais, 51% dizem prestar mais atenção a criadores ou personalidades de destaque, do que em veículos jornalísticos e jornalistas (apenas 39%). A justificativa é tornar os conteúdos jornalísticos “mais fáceis” de compreender: 48% do grupo dos jovens de 18 a 24 anos usa a inteligência artificial para este fim.
Tanto a IA quanto os criadores de conteúdos têm se destacado como mediadores das notícias que circulam no universo digital, funcionando como “tradutores” destas informações para o público jovem. Este, aliás, ano a ano, se interessa menos pelas notícias: nesse levantamento, o percentual caiu em relação ao ano passado, e apenas 35% da amostra diz estar muito ou extremamente interessado neste tópico. O desinteresse pelo que acontece no mundo tem razões diversas: desde que elas são complicadas, desinteressantes, que não retratam o jovem e seus interesses, até a própria concepção do que é notícia que, para eles, também deve dar conta de outros temas que não os clássicos política, economia, cultura, esporte, lazer. Eles preferem acessar as notícias por meio das redes sociais, no formato de vídeos curtos ou podcasts. Não vão em busca das notícias, elas chegam até eles nos seus feeds, indicando que, mais uma vez, os algoritmos determinam suas escolhas na forma de compreender o contexto em que vivem.
A leitura não perdeu o espaço no contexto digital, mas mudou a forma como é mediada e consumida
Isso posto, e retornando à premiação ao trabalho dos criadores de conteúdo como promotores da leitura, podemos afirmar que possuem um papel fundamental na formação dos jovens, esses que se dizem desinteressados pelo que lhes acontece, mas que são capazes de ler clássicos como “Dom Casmurro’, de Machado de Assis, desde que exaustivamente comentados e indicados pelo seu influenciador predileto. Aliás, este foi um dos principais resultados do estudo “BookTok Brasil e as novas experiências literárias”, desenvolvido pelo Reglab, que investigou como as interações digitais no TikTok se manifestam no contexto offline das livrarias, impulsionando fortemente as vendas de livros entre o público jovem. Um dos principais achados do levantamento foi que o sucesso da rede BookTok, assim como outras bookredes, demonstra que a leitura não perdeu o espaço no contexto digital, mas mudou a forma como é mediada e consumida. Segundo o relatório, “a plataforma funciona como um clube do livro online com milhões de membros ativos, onde leitores não leem sozinhos, mas como parte de comunidades leitoras. (…) a leitura também assume um caráter performativo, deixa de ser somente um passatempo ou busca por conhecimento e passa a funcionar como um estilo de vida, estética e identidade social”. Ou seja, não basta ser leitor, é preciso ter cenários, posturas e linguagem de leitor, porque o que se quer, em última instância, é pertencer a uma comunidade em que todos falam a mesma língua. Pois é, as bolhas literárias vieram para ficar, o que indica também uma exclusão preocupante da população economicamente desprivilegiada (livros custam caro no Brasil!).
Nesse sentido, o maior prêmio de literatura brasileira até acerta no reconhecimento desses atores que estão transformando a relação dos jovens com a leitura. No entanto, há que se observar a maneira como isso se dá, pois, em muitos casos, eles estão reduzindo a literatura a um fenômeno midiático, convertendo as notícias em fatos palatáveis, e inserindo os jovens em comunidades que seguem tendências que nem sempre são voltadas para o bem-estar coletivo. É preciso atentar para que esses influencers não estejam fomentando uma leitura única das histórias e das notícias – já adverte a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que a história única contém perigos inenarráveis, deixando de mostrar aspectos que nos impedem de ver o todo. É fundamental que nos conteúdos que produzem esteja clara a condição de que o que ali está é uma visão possível da obra, dos fatos, do que acontece. Isso preservará a função maior da literatura que é possibilitar múltiplas leituras, interpretações e experiências. Ser leitor é muito mais do discorrer com emoção sobre determinada obra diante de uma câmera, é, sobretudo, ser capaz de discriminar as transformações que o livro causou nos seus modos de ser, estar e entender o que se passa. O prêmio do melhor influenciador deve ir para aquele que despertar no jovem leitor a curiosidade, a dúvida e a imaginação de outras realidades. Aquele que conduza o leitor para que se veja como autor, e especialmente, autor da sua própria história.