Quando a divulgação desfavorece a ciência: o caso da polilaminina

A pandemia de covid-19 deixou um legado no mínimo ambíguo para o mundo. Ao mesmo tempo que a relevância da ciência ficou mais evidente do que nunca, os movimentos negacionistas se tornaram mais fortes e difundidos. Ao que parece, a expectativa de que a pesquisa científica sairia mais forte da pandemia foi frustrada por um crescimento da desconfiança não somente em relação à ciência, mas em relação às instituições de modo geral.

Frente a esse contexto, uma série de grupos progressistas vem se organizando para lutar contra a chamada “desinformação”. Em sua maioria, eles apostam na divulgação científica como meio mais capaz de informar o público sobre o funcionamento e os benefícios reais e potenciais da ciência. No Brasil, onde mais de 80% da ciência de ponta é produzida por institutos universitários e educacionais, esse ativismo se confunde com a defesa do sistema de ensino superior, particularmente o público.

A divulgação da pesquisa sobre a polilaminina em 2025 reflete os paradoxos desse novo contexto. Para além de uma esperança para o tratamento de paralisias motoras oriundas de traumas medulares, o estudo apresentava outras duas qualidades para o atual momento político: era sediado numa das maiores universidades públicas do Brasil, a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e coordenado por uma pesquisadora mulher. Num cenário em que as universidades e o feminismo vêm sendo sistematicamente atacados, a polilaminina prometia a solução não apenas para a paraplegia, mas para o sexismo e para a desconfiança em relação à universidade.

O que se chama hoje de crise de desinformação é, a rigor, uma crise do conhecimento e das instituições políticas e científicas de validação, dentre as quais o jornalismo

No entanto, a lua de mel da imprensa e das redes sociais com a ciência parece ter durado pouco. As informações truncadas sobre a pesquisa, os problemas nos dados divulgados e a ausência de publicação revisada por pares foram aos poucos minando as expectativas sobre o trabalho. Somaram-se a isso as declarações cada vez mais polêmicas da professora Tatiana Sampaio, convertida da noite para o dia em celebridade midiática e personalidade política. Se há alguns meses ela figurava em listas de potenciais indicadas ao Nobel, hoje é criticada tanto por leigos quanto por experts no assunto.

Parte da abrupta desconfiança em relação à pesquisa reflete a complexidade desse campo de estudos; parte reflete os inúmeros problemas do próprio projeto. Ensaios clínicos e o emprego de grupos-controle são de fato complexos quando estamos lidando com uma droga que promete ajudar a reconexão medular somente se administrada imediatamente após o trauma. E seus efeitos só podem ser atestados depois de um longo tempo de dedicação intensa à fisioterapia e a outros tratamentos. Isso está longe de significar, contudo, que os testes com a polilaminina devam dispensar, de saída, os ritos consagrados na ciência; apenas que eles terão de ser adaptados à natureza do problema. Além disso, o primeiro e único relatório publicado pela pesquisa não parece ter sido revisado e tem erros que facilmente seriam detectados em uma avaliação por pares. 

Não quero aqui entrar no mérito da pesquisa, nem na pertinência ética dos ensaios clínicos em casos de trauma medular grave. O tempo e a continuidade dos testes nos dirão sobre seu verdadeiro potencial. Quero apenas destacar que uma parte da desconfiança quanto à pesquisa se deve, também, ao modo como ela foi divulgada. Só recentemente, os jornalistas passaram a mencionar (ou mesmo ler) o paper mencionado. Poucos deles faziam ideia de como funciona um ensaio clínico e das fases que ele deve cumprir, muito menos das metodologias alternativas disponíveis para situações em que há desafios éticos importantes, como no caso em tela. Embora esses sejam elementos técnicos, eles já são de relativa difusão no debate especializado, em grande medida por todos os testes feitos com as vacinas contra o coronavírus há alguns anos.

Esses problemas refletem, é claro, limitações crônicas do jornalismo científico e do funcionamento das redes sociais. Falta de formação dedicada, carência de especialização temática e pressão pela produção de conteúdos viralizáveis são apenas alguns elementos que explicam os problemas da cobertura. Mas há também o impacto de uma premissa tão difundida quanto equivocada: de que vivemos numa era de desinformação, portanto, tanto melhor quanto mais divulgarmos os achados da ciência. Isso justificaria não apenas o fato de a pesquisa ter pulado etapas, como sua divulgação precoce.

É equivocado pressupor que vivemos numa era de desinformação e mais divulgação científica, pura e simplesmente, seja a solução para o negacionismo que nos assola. O mundo vive não uma crise de desinformação, mas exatamente o contrário: um excesso de informações fragmentadas, contraditórias e raramente validadas. 

As pessoas nunca foram tão bombardeadas com uma quantidade gigantesca de informações como hoje. Para entendermos isso, é preciso distinguir o conceito de “informação” do de “conhecimento”. Resumidamente, “conhecimento” é um conjunto de informações logicamente articuladas e, sobretudo, testadas e validadas por sistemas especializados. Logo, para além do seu eventual conteúdo, é central para a legitimidade de um conhecimento a confiança depositada nas instituições que o promovem, especialmente a ciência e seus aparatos institucionais.

Em minutos, os algoritmos das redes sociais são capazes de aprender pelas minhas buscas os tipos de informação que chamarão minha atenção, independentemente da qualidade da relação delas com os conhecimentos acumulados em diversos campos. Com relativa facilidade, posso tanto me informar sobre o lançamento ao espaço da missão Artemis 2 quanto sobre teorias terraplanistas. Não raro, as teorias negacionistas das ciência misturam numa mesma narrativa um conjunto de informações falsas com informações verdadeiras que dão uma aparência de ciência àquilo que é anticiência.

Vale destacar que nem sempre a fronteira entre ciência e anticiência é nítida. É muito frequente que cientistas legítimos defendam teorias equivocadas, seja por interesses escusos, seja porque eles sinceramente acreditam em suas ideias. O que singulariza a ciência não é o fato de que ela é imune ao erro — ao contrário: cientistas erram o tempo todo em suas teorias e experimentos. Os consensos científicos nascem, na verdade, do processo de depuração desses erros a partir de diversas práticas consolidadas, que vão da revisão por pares ao emprego de protocolos padronizados.

O que se chama hoje de crise de desinformação é, a rigor, uma crise do conhecimento e das instituições políticas e científicas de validação, dentre as quais o jornalismo. E o que se chama de negacionismo científico é muitas vezes uma crise generalizada dessas instituições, não raro incentivada por grupos de extrema direita. Mas essa crise reflete, também, a falta de investimentos e parâmetros profissionais de divulgação científica.

No cenário atual, é tão difícil dizer que a polilaminina tem efeitos benéficos e seguros quanto que ela não tem. A ansiedade em promover a pesquisa de Tatiana Sampaio reflete sem dúvida a esperança de uma cura para um dos tipos de traumas mais incapacitantes de que temos notícia, bem como as melhores intenções de divulgadores imbuídos em defender a universidade e a ciência brasileiras. O problema é que a divulgação precoce e desastrada de resultados ainda precários pode nos conduzir ao extremo oposto: o descrédito da ciência e de uma cientista, bem como o crescimento da desconfiança em relação à já abalada universidade pública.

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