O que o autismo tardio em mulheres revela sobre a escola

O Brasil tem 2,4 milhões de pessoas formalmente diagnosticadas com TEA (Transtorno do Espectro Autista), segundo o Censo de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o primeiro a levantar dados específicos sobre essa população. São 1,4 milhão de pessoas do gênero masculino (1,5% da população brasileira) contra 1 milhão do gênero feminino (0,9%).

Quando vi esses números pela primeira vez, pensei: “2 milhões, 400 mil e uma pessoas autistas”. Não estou incluída nessa estatística. Fui diagnosticada somente em 2023, aos 40 anos.

Minha história de diagnóstico tardio é uma entre tantas. Por muito tempo, a comunidade científica acreditou que o TEA acomete mais homens do que mulheres — crença que, agora, está sendo revista. Em 2024, a pesquisadora em neuroimagem cognitiva Ginna Rippon publicou uma revisão de 120 estudos sobre autismo, apontando que apenas 10% dos seus 4.000 participantes eram do gênero feminino. Um estudo mais recente (2026), conduzido entre 1985 e 2020 com quase 3 milhões de pessoas na Suécia, detectou diminuição da proporção de diagnósticos entre homens e mulheres ao longo do tempo, a ponto de não haver diferença na idade adulta.

Dentre as hipóteses para explicar a falha no diagnóstico feminino (diferenças hormonais e/ou cerebrais, ou ainda a camuflagem social), me alinho à visão de Rippon: a comunidade científica subestimou sistematicamente mulheres e meninas autistas nas últimas décadas. O discurso científico não é neutro. Métodos supostamente “exatos” podem ser imprecisos se o pesquisador presumir que sua visão de mundo é a única possível. Deixar de pesquisar o autismo em meninas e mulheres não foi casualidade, mas uma escolha que induziu e ainda induz profissionais ao erro.

Por muito tempo, as primeiras descrições do autismo foram creditadas exclusivamente a homens. Hoje há consenso de que a pioneira no tema foi a psiquiatra soviética Grunya E. Sukhareva, que publicou estudos entre 1925 e 1926, antes de Leo Kanner (1943) e Hans Asperger (1944). Há evidências de que ambos conheciam seu trabalho, mas optaram por não creditá-la em suas publicações. Mais um exemplo do Efeito Matilda, termo cunhado por Margaret W. Rossiter para falar de mulheres cujas descobertas foram obscurecidas e creditadas a homens.

Essa revisão ganha contornos trágicos ao constatarmos que Sukhareva pesquisou igualmente meninos e meninas. Sua descrição do autismo em crianças do gênero feminino, ainda em 1927, foi assertiva e semelhante aos estudos atuais. Se seu trabalho tivesse obtido o devido reconhecimento a tempo, minha história e as de tantas outras meninas poderiam ter sido diferentes. 

Estruturadas pela padronização e pela negação do corpo, escolas falham em reconhecer a humanidade de seus estudantes e professores

Minhas experiências na escola, primeiro como estudante e depois como professora, são centrais na formação dessa perspectiva. A escola não é responsável por diagnosticar seus estudantes, mas o ambiente escolar pode revelar o que outros camuflam — seja por condições socioeconômicas e acesso à saúde, seja pelo capacitismo estrutural da sociedade, seja pelo fato de o autismo ter bases genéticas, o que pode dificultar sua percepção. 

Minha crítica ao ambiente escolar tradicional é antiga. Muito antes de saber de meus diagnósticos como autista, TDAH (Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade) e altas habilidades, compreendi que a escola, estruturada pela negação do corpo e pela padronização, falha em reconhecer a humanidade de seus estudantes e professores. 

Esse modelo, que privilegia códigos linguísticos e matemáticos sobre outros saberes, não percebe estudantes neurodivergentes a não ser que tenham sérias dificuldades de aprendizagem nessas disciplinas. A menina que chegou alfabetizada, mas não ia bem na educação física não foi vista como autista nos anos 1990, e suas dificuldades e inteligência (frequentemente confundida com dedicação aos estudos) acima da média foram ignoradas.

Se, naquela época, fui essa menina, agora, como professora, ainda vejo estudantes com características neurodivergentes serem ignorados por terem aprendizagem mediana ou excepcional — ou ainda terem traços como rigidez cognitiva, dificuldades de socialização, desorganização ou desregulação emocional frequentemente julgados como falha de caráter.

A legislação brasileira é avançada. A Lei Berenice Piana torna a pessoa autista sujeita de todos os direitos da pessoa com deficiência. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) e a LBI (Lei Brasileira de Inclusão) garantem o direito à escolarização regular. 

Entretanto, no “chão da escola”, há uma distância entre lei e prática. A legislação não resolve o capacitismo que persiste no cotidiano, pois leis não modificam automaticamente modos de pensar e agir. Temos direito a cotas, mas laudos são deslegitimados, porque somos aparentemente funcionais. 

Professores têm sido afastados após comunicarem diagnósticos tardios. Me descobri autista após um burnout e o assédio moral de chefias que falavam de inclusão, mas consideravam minhas características um incômodo. Não acredito em meia inclusão.

Não haverá educação inclusiva sem que a escola questione suas estruturas. Luzes fortes, barulho constante e a obrigação de ignorar hiperfocos, por exemplo, podem ser tortura para estudantes autistas. Não é desistir da escolarização, mas admitir que não há milagre em ambiente estressante.

O que faz o diagnóstico, mesmo tardio, valer a pena é entender que mulheres e meninas autistas existem. Autistas com nível 1 de suporte existem. Pessoas com altas habilidades existem, inclusive com dupla excepcionalidade. Merecemos apoio em nossas limitações e reconhecimento dos nossos talentos.

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Flávia Teodoro Alves nasceu em São Paulo, em 1982. É arte-educadora, pesquisadora, poeta multimeios e professora da rede pública em São Paulo há 20 anos. Mestra em artes pela Unesp (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”) e pós-graduada em formação de escritores, é autora dos livros de poesia “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo” (2022) e “Toda reza é tentativa de telecinese” (2023, traduzido para o espanhol). Sua escrita é marcada pelo fragmento, pela intuição e pelo engajamento com questões sociais, feministas, periféricas e neurodivergentes.